Mercado de mini alfaces e o manejo desse cultivo

A alface (Lactuca sativa) é considerada sinônimo de salada em várias regiões do mundo. O consumo per capita brasileiro gira em torno de 41kg/ano. É constituída, em média, de 95% de água, por esse motivo é uma hortaliça muito indicada em dietas. Cada 100g do produto fresco fornece, em média, 42g de cálcio, 23g de fósforo, 1,2g de ferro, 8g de sódio, 242g de potássio, 1.340 UI de vitamina A, 14g de vitamina C e 0,6g de fibra.

Recentemente, tem sido introduzidas cultivares de alface de tamanho míni com folhas de coloração e formato variados. São produtos considerados diferenciados não somente por tamanho e coloração, mas também pela consistência e sabor de suas folhas.

A alface é uma espécie originária do Mediterrâneo. Devido ao seu centro de origem, no Brasil, era originalmente cultivada no outono-inverno devido ao pendoamento precoce que ocorre sob dias longos e temperaturas elevadas. Porém, com o melhoramento genético foram desenvolvidas cultivares de alface que permitem o cultivo durante todo o ano.

A germinação das sementes ocorre com um ótimo de temperatura entre 18ºC e 21ºC, sendo que acima de 26ºC pode ser inibida, em efeito conhecido como termodormência. O desenvolvimento da planta de alface é favorecido quando a temperatura diurna é de 18ºC a 25 ºC e a noturna de 10ºC a 15ºC.

O cultivo da alface é feito nos mais variados tipos de solo, porém, a cultura se desenvolve melhor em solos férteis e com pH entre 6,5 e 7,2.

Produção das mudas

As mudas são produzidas em bandejas de poliestireno expandido ou de polipropileno, normalmente de 288 células, preenchidas com substrato orgânico geralmente à base de fibra de coco. Um cuidado que deve ser tomado na escolha do substrato é com relação à CE (condutividade elétrica), pois mudas de alface produzidas em substrato com CE elevada (> 1,5mS/cm) podem apresentar queima das folhas.

No verão, deve-se tomar cuidado com as altas temperaturas (> 34ºC), pois podem ocorrer as desordens conhecidas como blindness (morte do meristema apical), double heart (coração duplo) e tip burn (queima dos bordos de folhas jovens).

Quando as mudas apresentam, aproximadamente, quatro folhas definitivas (20-30 dias) estão prontas para serem transplantadas para o local definitivo.

Preparo do solo

O solo para o cultivo da alface deve ser friável e livre de torrões. Se a área a ser utilizada estiver recebendo o primeiro cultivo com alface, o solo deve ser arado, gradeado e, então, os canteiros são levantados com encanteiradeira nas dimensões aproximadas de 100cm de largura e 20cm de altura. Na operação de levantamento dos canteiros, faz-se a adubação, conforme análise do solo. Na agricultura orgânica alguns dos insumos que podem ser utilizados na adubação pré-plantio são composto, cama de frango, calcário, gesso agrícola, termofosfato, farinhas de osso e de sangue, bokashi (farelos fermentados) etc.

Após os canteiros estarem preparados, se a irrigação for por gotejamento, os tubos gotejadores são distribuídos (um tubo gotejador para duas linhas de plantio). Recomenda-se que sejam cobertos com mulching, vegetal ou de polietileno.

O preparo do solo deve ser realizado com, no mínimo, uma semana de antecedência.

A cada ano de cultivo com alface na mesma área, recomenda-se o plantio e posterior incorporação de adubação verde que pode ser crotalária, aveia preta, milheto etc. Isso irá aumentar a quantidade de matéria orgânica, melhorar a estrutura do solo e auxiliar no controle de nematoides.


Figura 2 - Adubação verde com crotalária

Espaçamento

O espaçamento recomendado para esse tipo de alface é de 25cm entre linhas e 20cm entre plantas, com quatro linhas de plantio em cada canteiro. Entretanto, dependendo da cultivar, esse espaçamento pode ser reduzido. Para cultivares que apresentam a arquitetura das folhas mais plana, o espaçamento de 25cm entre linha e 20cm entre plantas é mais recomendado. Já para cultivares com folhas com ângulo de inserção no caule mais ereto, esse espaçamento pode ser diminuído.

Cultivo protegido


Para este tipo de alface o mais indicado é que se faça o cultivo em ambiente protegido, túneis altos e estufa, embora haja produtores que realizam o cultivo em campo aberto.

Os túneis altos são úteis para proteger as plantas contra frio, chuva, granizo e geada. Cada túnel, com 2,6m de largura e com arcos de 2m de altura espaçados a cada 3m, comporta dois canteiros com carreador de 30cm. Em épocas de temperaturas elevadas recomenda-se a instalação de uma linha de microaspersores em cada túnel, distanciados a 3m entre si e a uma altura de 40cm da superfície do canteiro, para se realizar a nebulização das plantas.

Já as estufas, além de protegerem as plantas das mesmas intempéries climáticas que os túneis, também podem evitar o aparecimento de certas pragas quando são fechadas por tela antiafídeo.

Controle das principais pragas e doenças

Dentre as principais pragas da alface estão os pulgões, moscas brancas e tripes, e dentre as doenças podem ser destacadas as bacterioses (Xanthomonas spp), a queima da saia (Rhizoctonia solani), a septoriose (Septoria lactucae) e os nematoides formadores de galhas (Meloidogyne spp).

Para o controle das pragas recomenda-se a utilização de extrato de plantas repelentes (arruda, cravo de defunto, pimenta, alho). Existe também a possibilidade de utilização de controle biológico, porém, sob certas condições ambientais, pode não ser efetivo. No caso específico do pulgão, a cobertura dos canteiros com mulching plástico prateado ajuda a repelir essa praga.

A queima da saia é uma doença fúngica que ocorre principalmente em condições de clima quente e úmido. O fungo Rhizoctonia solani é um habitante do solo e a infecção geralmente não se inicia até as plantas estarem próximas à maturidade, quando as folhas basais cobrem uma área substancial dos canteiros, formando um microclima favorável à doença. O problema pode ser agravado pela invasão de patógenos secundários que penetram pelos tecidos danificados por Rhizoctonia solani. Para o seu controle utiliza-se o fungo antagonista Trichoderma sp na água de irrigação.

A septoriose também é uma doença causada por fungo e é muito comum em épocas chuvosas. Porém, existem cultivares com bom nível de resistência a essa doença. Recomenda-se também a pulverização com calda bordalesa a 1%.

Para se controlar os nematoides formadores de galhas, o mais recomendado é a adubação verde e a utilização de produto comercial à base de rizobactérias.

A colheita é realizada, em média, com 35 dias após o transplante no verão. No inverno o ciclo é de aproximadamente 42 dias. Além dos dias decorridos do transplante, outro indicativo do ponto de colheita é quando se observa que o “miolo" está bem fechado.

Outro diferencial dessas cultivares é que elas possuem vida de prateleira maior que as alfaces comuns, sendo, em média, de oito dias sob condições refrigeradas.


Confira o artigo na edição 83 da Revista Cultivar Hortaliças e Frutas.

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Keiko Takahashi; Antonio Ismael Inácio Cardoso

Unesp

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