Como realizar o manejo de doenças na cultura da soja

De que modo o posicionamento correto de fungicidas e o controle adequado de doenças na cultura da soja podem resultar em proteção ao potencial produtivo das lavouras e à rentabilidade dos produtores.


Na safra 2020/21 foram realizados 21 ensaios distribuídos nas principais regiões produtoras de soja do Brasil e Paraguai, conduzidos por instituições de pesquisa, universidades e consultores, denominados pelo grupo “Expert Team Tour”. Em cada local, dois ensaios foram realizados, um para o controle de manchas foliares e DFCs e o outro para o controle de ferrugem-asiática da soja.

Os tratamentos foram compostos por combinações de fungicidas amplamente recomendados, aplicados em diferentes momentos e combinações no manejo. Os tratamentos avaliados estão descritos na Tabela 2.

Os ensaios contaram com 12 tratamentos e foram conduzidos em delineamento de blocos casualizados e quatro repetições (Tabela 3). As aplicações foram realizadas através de pulverizador costal de pressão constante (CO2) e volume de calda de 150L/ha.

O momento de semeadura dos ensaios em cada região favoreceu a ocorrência de determinadas doenças. Ensaios conduzidos no Sul e Cerrado com semeadura no início da época recomendada apresentaram a presença de manchas foliares, principalmente mancha-alvo, causada por Corynespora cassiicola, e DFCs como septoriose e cercosporiose. Ensaios conduzidos nos demais locais do Cerrado apresentaram predominância de mancha-alvo e demais locais do Sul predominaram DFCs. Em geral, ensaios conduzidos no final da época recomendada de semeadura foram utilizados para estudar o controle de ferrugem-asiática, perfazendo um total de 11 ensaios com a presença desta doença. Os dados obtidos em todos os ensaios foram sumarizados através da metanálise.

Ferrugem-asiática

Os ensaios com ocorrência de ferrugem-asiática e aptos para análise totalizaram dez, sendo cinco no Cerrado e cinco no Sul. Em geral, os ensaios não apresentaram sintomas e sinais de doenças antes da primeira aplicação. Na região Sul do Brasil, os primeiros casos de ferrugem-asiática foram relatados na primeira e na segunda semana de dezembro de 2020, no Paraná e Rio Grande do Sul, respectivamente. Assim como na safra 2019/20, o número de ocorrências e o progresso da doença no campo foram inferiores quando comparados a safras anteriores. O mesmo foi observado no Centro-Oeste/Cerrado. Exceção disso foi a região Sul do Mato Grosso, notadamente nos municípios de Campo Verde e Primavera do Leste, que apresentaram início antecipado da doença.

Nesse cenário, todos os tratamentos com aplicações de fungicidas apresentaram produtividade superior à testemunha sem aplicação. O controle da ferrugem-asiática, entre os tratamentos, oscilou de 72,9% a 80,1% (Figura 1), sendo todos os tratamentos significativamente superiores à testemunha, porém sem diferença significativa entre eles (Figura 1). A tendência de melhores controles da doença foi observada sempre quando adicionado fungicida multissítio aos programas (Figura 1). Essa diferença no controle com o uso do multissítio refletiu em diferença significativa de produtividade quando se compara o programa 6 com o programa 7 (Figura 2). As estimativas médias de manutenção da produtividade (ou ganho de produtividade) variaram de 588kg/ha a 884kg/ha em função do programa de controle adotado. Entre eles, numericamente, programa com aplicações de Viovan (picoxistrobina + protioconazol 25-30 DAE), Vessarya (picoxistrobina + benzovindiflupir 40-45 DAE), Viovan + Controller NT (picoxistrobina + protioconazol + mancozebe (55-60 DAE) e Aproach Power + Controller NT (picoxytrobina + ciproconazole) + mancozebe) apresentaram as maiores estimativas médias de produtividade em relação à testemunha (Figura 1).

Figura 1 - Estimativa média do efeito da aplicação de fungicidas para controle de ferrugem asiática na produtividade (kg/ha) e eficiência de controle através da metanálise. Box verde representa efeito significativo (p0.05). Valores dentro dos boxes indicam incremento em produtividade ou eficiência de controle
Figura 1 - Estimativa média do efeito da aplicação de fungicidas para controle de ferrugem asiática na produtividade (kg/ha) e eficiência de controle através da metanálise. Box verde representa efeito significativo (p<0.05), box vermelho representa efeito não significativo (p>0.05). Valores dentro dos boxes indicam incremento em produtividade ou eficiência de controle

A comparação entre os outros tratamentos foi organizada de acordo com o momento de aplicação de picoxistrobina + protioconazole em programas com uma e duas aplicações, reforço dos programas com protetor mancozebe, e diferentes combinações de ingredientes ativos.  Entre os programas com uma aplicação de picoxistrobina + protioconazole, não houve efeito significativo entre o momento da aplicação do Viovan (primeira, segunda ou terceira), tanto no parâmetro controle de doença como produtividade (Figura 2). O resultado mostra que picoxistrobina + protioconazole pode ser utilizado nas três primeiras aplicações sem apresentar redução de performance em produtividade.

Figura 2 - Estimativa média de produtividade (kg/ha) e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de ferrugem asiática com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos
Figura 2 - Estimativa média de produtividade (kg/ha) e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de ferrugem asiática com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos

Nos programas com duas aplicações de picoxistrobina + protioconazole também não houve efeito entre o momento das aplicações (juntos e intercalados) (Figura 2). Nos mesmos programas, os resultados apresentaram ganho em produtividade médio de 139kg/ha com o reforço de Controller NT (mancozebe) no programa com duas aplicações de picoxistrobina + protioconazol. No controle de ferrugem-asiática, os resultados de ganho de produtividade demonstraram que o fungicida picoxistrobina + protioconazole manteve resposta, independentemente do momento de aplicação.

Entre as misturas picoxistrobina + protioconazole e trifloxistrobina + protioconazole, programas com aplicações de Viovan apresentaram produtividade média de 182kg/ha superior ao tratamento com trifloxistrobina + protioconazole. Não houve efeito significativo em produtividade entre o programa com trifloxistrobina + protioconazole + mancozebe vs Viovan (Figura 3). O programa com Viovan + Controller NT (picoxistrobina + protioconazole + mancozebe) apresentou produtividade de 214kg/ha superior a trifloxistrobina + protioconazole sem reforço com mancozebe. No comparativo dos dois programas com reforço de Controller NT (mancozebe), Viovan (picoxistrobina + protioconazole) apresentou produtividade superior de 112kg/ha.

Figura 3 - Estimativa média de produtividade (kg/ha) e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de ferrugem asiática com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos
Figura 3 - Estimativa média de produtividade (kg/ha) e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de ferrugem asiática com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos

Mancha-alvo

Foram cinco ensaios conduzidos que apresentaram ocorrência de mancha-alvo e atenderam aos critérios para metanálise. O controle de mancha-alvo oscilou entre 59,5% e 69,9% entre os tratamentos (Figura 1).  O melhor programa de manejo da mancha-alvo numericamente foi o programa 7 (Viovan  + Vessarya + (Viovan + Controller NT) + (Aproach Power + Controller NT),  com duas aplicações de Viovan, sendo uma com reforço de fungicida multissítio e uma aplicação de Vessarya (picoxistrobina + benzovindiflupir). De maneira geral, os melhores controles foram observados onde o programa contemplava duas aplicações de protioconazole (Figura 4). Todos os tratamentos com aplicações de fungicidas apresentaram produtividade superior à testemunha sem aplicação. Os programas T5 com aplicação de Viovan aos 25-30 e 40-45 DAE +  Vessarya aos 55-60 DAE + (Aproach Power + Controller NT) aos 70-75 DAE e o programa T9, Vessarya + Viovan + (Viovan + Controller NT) + (Aproach Power + Controller NT) (T9) apresentaram as maiores estimativas de ganho de produtividade em relação à testemunha, com 673kg/ha  e 656kg/ha, respectivamente. O tratamento com azoxistrobina + benzovindiflupir e trifloxistrobina + protioconazole (T10) apresentou o menor incremento de produtividade em relação à testemunha, com 456kg/ha (Figura 4).

Figura 4 - Estimativa média do efeito da aplicação de fungicidas para controle de mancha-alvo na produtividade (kg/ha) e eficiência de controle através da metanálise. Box verde representa efeito significativo (P0.05)
Figura 4 - Estimativa média do efeito da aplicação de fungicidas para controle de mancha-alvo na produtividade (kg/ha) e eficiência de controle através da metanálise. Box verde representa efeito significativo (P<0.05), box vermelho representa efeito não significativo (P>0.05)

Na comparação entre os programas com aplicações de picoxistrobina + protioconazol, não houve efeito significativo entre a introdução de Viovan na primeira, segunda e terceira aplicações (Figura 5). Nos programas com duas aplicações, os resultados sugerem que para o controle de mancha-alvo, primeira e segunda aplicações de picoxistrobina + protioconazol (T8) apresentaram produtividade superior a picoxistrobina + protioconazol aplicados na segunda e terceira aplicações (T5). Nos programas com Viovan testados, não houve efeito em produtividade do reforço de mancozebe.

Figura 5 - Estimativa média de produtividade e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de mancha-alvo com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos
Figura 5 - Estimativa média de produtividade e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de mancha-alvo com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos

Entre os tratamentos com picoxistrobina + protioconazol e trifloxistrobina + protioconazol, não houve efeito significativo no controle da mancha-alvo e na produtividade entre os programas ao nível de 5% de significância (Figura 6). Ao considerar nível de erro de 10%, programas com Viovan apresentaram produtividade superior a trifloxistrobina + protioconazol.

Figura 6 - Estimativa média de produtividade e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de mancha-alvo com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos
Figura 6 - Estimativa média de produtividade e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de mancha-alvo com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos

O reforço do programa com Controller NT (mancozebe) apresentou ganho em produtividade e corrobora com Godoy et al. (2020), que observaram melhora no controle de mancha-alvo com adição de fungicidas multissítios em ensaios em rede.

Cercosporiose e DFCs

Na safra 2020/21, os ensaios conduzidos apresentaram ocorrência significativa de doenças conhecidas como DFCs. Ao todo, dois ensaios foram utilizados para análise, e o controle das DFCs variou de 66,4% e 81,6% entre os tratamentos (Figura 7). Todos os tratamentos com aplicações de fungicidas apresentaram produtividade superior à testemunha sem aplicação (Figura 7). Assim, como para mancha-alvo, o programa 7 com a primeira aplicação de Viovan (picoxistrobina + protioconazol); a segunda de Vessarya (picoxistrobina + benzovindiflupir); a terceira aplicação com Viovan + Controller NT (picoxistrobina + protioconazol) + (mancozebe) e a quarta aplicação de Aproach Power + Controller NT (picoxistrobina + ciproconazol) + (mancozebe) mostrou numericamente o melhor controle de DFCs.

Figura 7 - Estimativa média do efeito da aplicação de fungicidas para controle de DFC`s na produtividade (kg/ha) e eficiência de controle através da metanálise. Box verde representa efeito significativo (P0.05)
Figura 7 - Estimativa média do efeito da aplicação de fungicidas para controle de DFC`s na produtividade (kg/ha) e eficiência de controle através da metanálise. Box verde representa efeito significativo (P<0.05), box vermelho representa efeito não significativo (P>0.05)

 Não houve diferença significativa para o controle das DFCs na comparação entre os programas selecionados (Figura 8). No entanto, o uso do fungicida multissítio resultou em incremento de 13% no controle das DFCs, na comparação entre os programas 3 e 4 (Figura 8). O tratamento com aplicação de Vessarya (picoxistrobina + benzovindiflupir) na primeira, Viovan na segunda e Viovan + Controller NT na terceira, fechando com Aproach Power + Controller NT na última aplicação (Tratamento 9) apresentou o maior ganho estimado  de produtividade (559kg/ha) em relação à testemunha (Figura 7).

Na comparação entre os programas com aplicações de Viovan, não houve diferença significativa no controle das DFCs em relação ao momento da aplicação do fungicida: primeira, segunda ou terceira (Figura 8).  Porém, para um manejo com quatro aplicações, duas aplicações de picoxistrobina + protioconazol mostraram melhor controle numericamente que uma aplicação (Figuras 7 e 8).

Figura 8 - Estimativa média de produtividade (kg/ha) e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de DFC`s com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos
Figura 8 - Estimativa média de produtividade (kg/ha) e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de DFC`s com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos

Com relação à produtividade, as aplicações de Viovan na primeira e na segunda (T5) apresentaram produtividade 21kg/ha superior se aplicados na segunda e terceira aplicações (T8) (Figura 8). Entre os tratamentos com Viovan no mesmo momento de aplicação avaliados, o reforço de Controller NT (mancozebe) apresentou incremento significativo de produtividade de 135kg/ha na comparação do programa 8 com o 9 (Figura 8).

Entre as misturas picoxistrobina + protioconazole e trifloxistrobina + protioconazol, programas com aplicações de trifloxistrobina + protioconazol apresentaram produtividade média de 82kg/ha superior ao tratamento com picoxistrobina + protioconazol.

 Não houve efeito significativo em produtividade entre o programa com trifloxistrobina + protioconazol + mancozebe vs picoxistrobina + protioconazol (Figura 9). O programa com Viovan + Controller NT (picoxistrobina + protioconazol + mancozebe) apresentou produtividade de 52kg/ha superior a trifloxistrobina + protioconazol sem reforço de Controller NT (mancozebe). No comparativo dos dois programas com reforço de Controller NT (mancozebe), Viovan apresentou produtividade superior de 94kg/ha.

Figura 9 - Estimativa média de produtividade (kg/ha) e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de DFC`s com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos
Figura 9 - Estimativa média de produtividade (kg/ha) e eficiência de controle de comparações entre programas de manejo de DFC`s com aplicação de fungicidas através da metanálise. “vs” indica o comparativo entre os tratamentos

Conclusões

No controle da ferrugem-asiática da soja, programas com adição de fungicidas multissítios mancozebe a fungicidas sítio-específicos apresentaram produtividade média superior de 139kg/ha. Viovan (picoxistrobina + protioconazol) apresentou incremento/manutenção da produtividade quando inserido na primeira, segunda e terceira aplicação e produtividade de 182kg/ha superior a programa com trifloxistrobina + protioconazol.

Picoxistrobina + protioconazol apresenta eficiência de controle de mancha-alvo, incremento em produtividade de 559kg/ha em relação à testemunha, e para DFCs, o incremento de produtividade foi de 512kg/ha. 

Os resultados confirmam o amplo espectro de controle de Viovan que somado ao reforço com Controller NT (mancozebe) apresentaram incremento/manutenção de produtividade da soja.


Alfredo Riciere Dias¹,
Beno Kuzniewski¹,
Carlos Forcelini¹,
Carlos André Schipanski¹,
Carolina Deuner¹,
Caroline Wesp Guterres¹,
Eder Novaes Moreira¹,
Fabiano Victor Siqueri¹,
Ivan Pedro Araújo Jr¹,
Fabrício Packer²,
Guilherme Almeida Ohl¹,
Guilherme de Camargo Hüller²,
Hercules Diniz Campos¹,
José Fernando Jurca Grigolli¹,
José Nunes Júnior¹,
Luana Maria de Rossi Belufi¹,
Lucas Henrique Fantin¹,
Lucas Navarini¹,
Luis Henrique Kasuya¹,
Marcelo Giovanetti Canteri¹,
Marcelo Gripa Madalosso¹,
Marcio Goussain¹,
Mônica Anghinoni Müller¹,
Mônica Cagnin Martins¹,
Mônica Paula Debortoli¹,
Nédio Rodrigo Tormen¹,
Paulo Asunção¹,
Pedro Vuolo Maia Floresta²,
Rogério Rubin²,
Senio José Napoli Prestes¹,
Silvânia Helena Furlan¹,
Solange Maria Bonaldo¹,
Wilfrido Morel¹ e
Marcus Fiorini²,
¹Expert Team
²CortevaAgriscience


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