Comparativo de colhedoras com plataforma draper e convencional

Avaliação mostra que plataformas drapers possibilitam trabalhar com velocidades maiores que operando com plataformas convencionais e também que reduzem o nível de perdas de produto na lavoura.

O Mato Grosso é o maior estado produtor de soja do País, com a soja cultivada em grandes áreas, necessitando de máquinas capazes de dar suporte a esse sistema de produção. A colheita mecanizada de grãos é uma das operações mecanizadas mais complexas e é uma das etapas que apresentam maior importância na agricultura devido ao seu alto valor agregado, com operações de alto custo, já que sua adequada execução contribui para o retorno dos investimentos realizados em todo o ciclo produtivo de uma cultura.

A necessidade de se adotar a colheita mecanizada de grãos foi devido ao aumento da população mundial e à necessidade de se produzir mais alimentos. O processo de colheita deve ser realizado no momento em que a cultura atinge seu ponto de maturidade fisiológica, assim o produtor terá grãos de melhor qualidade e maior facilidade para a colheita desse material no campo.

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Conforme as máquinas de colheita foram sendo importantes principalmente para a soja cultivada em escala e com o intuito de diminuir o tempo da cultura no campo após o ponto de colheita, foram procurados alguns padrões dentro dos projetos de novas máquinas, como aumento da capacidade operacional, redução das perdas de grãos, adaptação às condições do terreno e da cultura, implantação de tecnologia e confiabilidade.

Sobre este tema, nos Estados Unidos desde a década de 60 já se relatavam pesquisas com a finalidade de reduzir esses fatores limitantes. No Brasil, nesse período quase nada se tem em termos de pesquisa e da indústria, sendo que a partir dos anos 2000 ocorreu uma verdadeira revolução nessas máquinas adotando toda tecnologia disponível.

Colhedora trabalhando com plataforma convencional dotada de condutor helicoidal com um sem-fim também conhecido como caracol
Colhedora trabalhando com plataforma convencional dotada de condutor helicoidal com um sem-fim também conhecido como caracol

Atualmente o mercado disponibiliza colhedoras com alta capacidade operacional e modelos que permitem aumentar consideravelmente essa variável através do aumento da largura da plataforma (largura de trabalho da máquina), aumento do tanque graneleiro promovendo menos paradas para descargas, redução do tempo de descarga dos grãos. A redução das perdas foi alcançada através de melhor adaptação das plataformas às condições do terreno, da cultura e à altura de corte, melhores sistemas de trilha e limpeza como os sistemas axiais. O aumento da potência dos motores também permite uma maior velocidade e melhor funcionamento dos sistemas conseguindo confiabilidade. Tudo isso com menor consumo de combustível.

Essas máquinas também apresentam incremento de sistemas microprocessados, ou seja, a eletrônica embarcada, com piloto automático, sistema GPS e uso em Agricultura de Precisão para o mapeamento da produção que transforma a colheita numa das operações mais automatizadas no sistema agrícola.

Dentro desse conceito, as plataformas, consideradas um dos sistemas que provocam maiores perdas de grãos dentro da máquina, tiveram um avanço surpreendente nos novos modelos, com aumento considerável do tamanho, sistemas de comando e adequação ganhando flexibilidade para ajuste às condições do terreno e da altura de corte, entre outros.

Em geral, o modelo de plataforma considerada convencional apresenta um sistema de alimentação composto por um condutor helicoidal, com um sem-fim também chamado “caracol”. As plataformas de esteira transportadora com borrachas, conhecidas como draper, promovem melhor alimentação através de maior capacidade de carregamento de massa colhida por unidade de tempo, menor peso da plataforma com sistema de maior estabilidade e adaptação da altura de corte e ondulações do terreno. Estas características proporcionam menor número de paradas por embuchamentos, estabilidade da velocidade, já que manteria a alimentação constante, maior flexibilidade quanto à altura de corte, menores perdas em relação às plataformas convencionais e consequentemente melhor desempenho.

A otimização do desempenho das colhedoras é um fator importante, pois estamos falando de máquinas com elevado custo operacional. Em caso como este, é necessário que os produtores tenham uma ferramenta que permita estimar o desempenho das colhedoras, auxiliando na escolha correta da capacidade e também na escolha dos maquinários requeridos para o transporte da cultura.

As máquinas com plataformas draper apresentam um custo de aquisição maior que as com plataformas convencionais, assim, é importante o embasamento em pesquisas dentro das condições reais de trabalho. Algumas pesquisas que realizaram avaliação comparativa dos dois modelos de plataformas observaram que a colhedora com plataforma tipo convencional apresentou um desempenho de cerca de 5ha/h, já a máquina com plataforma do tipo esteira transportadora draper apresentou desempenho de cerca de 6ha/h e também menor quantidade de perdas por hectare.

Para as condições de Mato Grosso, com grandes áreas de soja e com um período curto de colheita, as máquinas com plataformas draper podem ser uma ótima opção num cenário que se exige alto rendimento aliado a controle dos custos e racionalização da mecanização e dos investimentos.

Detalhe da esteira de uma plataforma draper
Detalhe da esteira de uma plataforma draper

COMPARATIVO

Com o objetivo de avaliar colhedoras com plataforma draper e plataforma convencional operando em diferentes velocidades de deslocamento, pesquisadores da Universidade Estadual do Mato Grosso realizaram dois experimentos em área comercial da fazenda Tamboril, no município de Pontes e Lacerda (MT). O clima na região segundo classificação de Köppen é tropical quente e úmido, com inverno seco (Aw), com temperatura média anual de 24,5°C e pluviosidade média de 1.527mm ao ano.

A cultivar de soja colhida foi a Codetec 246, apresentando população de 220 mil plantas por hectare. Todos os tratos culturais foram realizados de acordo com as necessidades da cultura. Devido ao planejamento da fazenda, os grãos foram colhidos com umidade acima do recomendado, 18%, sendo que a faixa ideal de colheita é 12% a 14% procedendo a secagem após a colheita.

No primeiro experimento foi utilizado o delineamento experimental de blocos casualizado (DIC), utilizando uma máquina da marca Massey Ferguson 9790, ano 2014, com plataforma de 35 pés, operando a três velocidades distintas: 5km/h, 6km/h e 7km/h e velocidade do rotor axial de 670rpm. Foram realizadas três repetições para cada tratamento, em parcelas de 50 metros de comprimento por dez metros de largura. Foram avaliadas as perdas naturais que são ocasionadas pela queda natural das vagens, também foram avaliadas as perdas na hora da colheita, causadas pela plataforma de corte e dos mecanismos internos como sistema de separação e limpeza, obtendo assim as perdas totais.

Os resultados desse experimento, apresentados na Figura 1, mostram que não foram observadas perdas acima do recomendado em nenhuma das velocidades avaliadas, que seriam de 60kg/ha, resultado considerado bastante satisfatório.

Figura 1 - Resultados referentes às perdas avaliadas na colheita de soja com máquina de plataforma draper
Figura 1 - Resultados referentes às perdas avaliadas na colheita de soja com máquina de plataforma draper

No segundo experimento foi utilizado o delineamento experimental de blocos casualizado (DBC) em esquema fatorial 2x4, com quatro repetições para cada tratamento, sendo os tratamentos compostos por duas colhedoras de marca e plataforma de corte diferentes (Tabela 1), operando a quatro velocidades de deslocamento distintas (4km/h, 5km/h, 6km/h e 7km/h), e velocidade do rotor axial de 700rpm. Cada parcela possuía 50m de comprimento e 10m de largura. Foram avaliadas as perdas totais de grãos de soja ocasionadas pelas máquinas e a capacidade operacional teórica das máquinas estudadas.

As maiores médias provocadas foram encontradas com a colhedora trabalhando na velocidade de 7km/h, com média de perda de 81,28kg/ha. Em contrapartida, as menores médias de perdas ocorreram quando a colhedora operava em uma velocidade de 4km/h, obtendo uma perda média de 50,17kg/ha. Com o aumento da velocidade de deslocamento da máquina se obtém uma maior quantidade de perdas tanto na plataforma quanto totais.

Os níveis de perdas (Figura 2) durante a colheita estiveram acima do limite aceitável de 60kg/ha, entretanto, esse fato pode ter ocorrido devido à alta umidade e ao manejo pré-colheita. Observa-se na Figura 2 que quando se utilizou a velocidade de 5km/h a máquina com plataforma draper apresenta uma diminuição da perda total de 35,52% quando comparada à plataforma com condutor helicoidal. A diminuição das perdas totais quando se comparam os dois tipos de plataforma é semelhante ao encontrado por outros pesquisadores.

Figura 2 - Resultados referentes às perdas totais e às diferenças entre as máquinas estudadas. Pontes e Lacerda, Mato Grosso, 2015
Figura 2 - Resultados referentes às perdas totais e às diferenças entre as máquinas estudadas. Pontes e Lacerda, Mato Grosso, 2015

No comparativo também foi realizada a estimativa teórica da capacidade operacional das máquinas avaliadas (Figura 3). A colhedora com o sistema de esteira transportadora apresentou capacidade operacional maior do que a plataforma com condutor helicoidal, pois dispõe de uma plataforma 1,5 metro maior. Esta vantagem, aliada ao sistema de correia transportadora, irá potencializar o processo, diminuindo assim o tempo de colheita do material no campo.

Figura 3 - Dados referentes à capacidade operacional teórica (ha/h) das máquinas com plataformas draper e convencional. Pontes e Lacerda, Mato Grosso, 2015
Figura 3 - Dados referentes à capacidade operacional teórica (ha/h) das máquinas com plataformas draper e convencional. Pontes e Lacerda, Mato Grosso, 2015

A máquina com a plataforma draper na velocidade de 4km/h apresentou uma capacidade operacional de 0,5ha/h a mais do que a com plataforma convencional, e na velocidade mais alta de 7km/h apresentou um desempenho de 0,9ha/h superior à plataforma convencional.

No estado de Mato Grosso, com extensas áreas de soja e uma janela de colheita estreita e onde os produtores costumam realizar a colheita com velocidades até superiores a 7km/h, a máquina com plataforma draper torna-se uma vantagem. Além de garantir que o produtor obtenha um ganho de desempenho de 0,9ha/h, ainda é possível diminuir suas perdas totais de 12,93%, chegando a colher 60ha/dia, com melhor adaptação às condições do terreno.

Assim, na hora da escolha para adquirir uma máquina para a colheita de soja o produtor deve atentar para o tipo de plataforma que deseja adquirir, levando em conta custos de aquisição, custos operacionais e ganhos com aumento de rendimento e redução de perdas na colheita.


Erick Marinho Samogim, Taniele Carvalho de Oliveira, Zulema Netto Figueiredo, Unemat


Artigo publicado na edição 172 da Cultivar Máquina

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