Comparativo de colhedoras para evitar perdas na soja

Avaliação de perdas de uma colhedora axial com plataforma convencional e draper na colheita da soja mostra que a tecnologia com esteira no lugar do tradicional caracol é mais eficiente.

A colheita é um processo que demanda cuidados e conhecimento sobre os mecanismos e as regulagens da colhedora, pois cada cultura demanda regulagem específica da máquina. A falta desses conhecimentos gera elevadas perdas anuais, em muitos casos passando despercebido pelos usuários.

No Brasil, os primeiros estudos sobre as perdas na colheita datam da década de 1970, quando as perdas eram de até 3,2 sacas por hectare. Com o avanço da tecnologia possibilitando melhorias nas colhedoras, plataformas e treinamento, esse número reduziu bastante nos últimos anos, em algumas regiões os valores são menores que uma saca por hectare.

As perdas na colheita são influenciadas tanto por fatores inerentes à cultura em especial, como por fatores relacionados à colhedora. A colheita mecanizada da soja acarreta perdas quantitativas de grãos e sementes que ficam na superfície do solo e também perdas qualitativas para a soja comercializada como grão ou semente.

Durante a operação de colheita, perdas podem ocorrer na plataforma e nos mecanismos internos, sendo que cerca de 75% a 90% ocorrem na plataforma. Sendo assim, para minimizar os efeitos das perdas, plataformas que utilizam correias alimentadoras no lugar do tradicional caracol, conhecidas como Draper, foram introduzidas nos últimos anos no mercado brasileiro. Este modelo propicia redução das perdas na plataforma, assim como alimentação mais uniforme do sistema de trilha, melhorando o desempenho da colhedora. A plataforma Draper, de acordo com alguns resultados de pesquisa, se mostra mais eficiente reduzindo as perdas, apesar de ter o custo de aquisição mais elevado em comparação com a plataforma tradicional, devido à tecnologia ser recente no Brasil e muitas peças serem importadas.

Mesmo com a redução das perdas nas últimas décadas, em várias regiões, há demanda por pesquisas sobre perdas em colhedoras axiais, utilizando diferentes tipos de plataformas. Com base nessas demandas foi realizado um trabalho para avaliar as perdas na colheita de soja de uma colhedora axial com plataforma convencional e Draper, com as regulagens determinadas pelo fabricante.

As avaliações foram realizadas no município de Guarapuava (PR), a colhedora utilizada na avaliação de perdas na colheita de soja foi o modelo CR 9060, marca New Holland de 415cv de potência máxima com sistema de trilha axial e plataforma convencional com 35 pés. A soja utilizada na avaliação foi a variedade BMX Apollo RR com produtividade de 3.892kg/ha. Devido às perdas elevadas na plataforma convencional, foi avaliada uma segunda plataforma, sendo essa tipo Draper, modelo Superflex de 35 pés.

As avaliações foram realizadas de forma aleatória dentro da área, sendo compostas por quatro repetições. No momento da escolha da área para avaliação de perdas, eliminaram-se os pontos onde havia ondulações ou mesmo depressões no solo que levaria a dados anormais.

A metodologia empregada na avaliação de perda na colheita foi a proposta pela Embrapa (2011), sendo avaliadas perdas, na pré-colheita, plataforma, parte industrial da máquina e perdas totais. A área de cada avaliação foi de 2m2, sendo utilizado gabarito para a coleta. Foram coletados todos os grãos dentro da área delimitada (largura da plataforma de corte) e posteriormente pesados, convertidos para o teor de água correto e transformando os valores para kg/ha.

No Gráfico 1 são apresentadas as perdas na colheita da soja analisadas por repetição e média. As perdas médias foram de 182,5kg/ha de soja, correspondendo a 3,04 sacas de soja ou 4,68% da produção. A perda está fora dos níveis aceitáveis que em média é de até um saco de soja por hectare, ou seja, 60kg/ha de soja. A repetição 3 apresentou a maior perda, chegando 3,24 sacas de soja por hectare (194,8kg).

Os fatores que contribuíram para a perda de grãos foram: maturação desuniforme da cultura, principalmente nas culturas de hábito indeterminado, podendo impactar negativamente a qualidade e a quantidade dos grãos colhidos; falta de ajustes precisos principalmente para a plataforma e sistema de trilha, separação e limpeza da colhedora. Atualmente as empresas disponibilizam referências pouco precisas para as regulagens das colhedoras e, muitas vezes, como ocorrido nesta avaliação, se faz necessário um número maior de tentativas (eliminação) para se obter um nível tolerável de perdas e falta de mão de obra qualificada. A mão de obra talvez seja o fator de maior impacto, responsável pelos níveis de perdas das colhedoras automotrizes atualmente.

O mercado brasileiro dispõe de máquinas equipadas com grande aparato eletrônico e tecnológico, possibilitando maior precisão e eficiência operacional do equipamento, porém, em quase todos os casos essa tecnologia não é utilizada em sua plenitude devido à falta de qualificação dos operadores. Como exemplo, pode-se citar a utilização dos monitores de colheita, que em muitas vezes são desligados simplesmente por reproduzir alarme sonoro, indicando algo anormal. Isso mostra que este operador, por exemplo, não tem o grau mínimo de instrução para ler o aviso e proceder aos ajustes necessários ao equipamento para seu correto funcionamento. 

Gráfico 1 - Perdas na colheita da soja com plataforma convencional, por repetição de amostragem e média
Gráfico 1 - Perdas na colheita da soja com plataforma convencional, por repetição de amostragem e média.

No Gráfico 2 têm-se as perdas na colheita da soja por processo com plataforma Draper. As perdas por senescência foram de 0,34kg/ha (pré-colheita). A senescência é a perda natural da cultura que ocorre, por exemplo, pela abertura espontânea das vagens. De acordo com os dados apresentados (Gráfico 2), as maiores perdas dentre dos processos avaliados foram geradas pela plataforma.

Gráfico 2 - Perdas na colheita da soja com plataforma Draper dividida por processos
Gráfico 2 - Perdas na colheita da soja com plataforma Draper dividida por processos.

As perdas de grãos originadas pela plataforma correspondem a 42,78kg/há (78,8%) e as perdas da colhedora, o chamado industrial (sistema de trilha, separação e limpeza) resultaram em 11,12kg/ha (20,5%). O total de perdas foi de 54,23kg/ha, estando dentro dos níveis aceitáveis de 60kg/ha de soja.

As perdas totais da colhedora ficaram acima do recomendado para plataforma convencional. Após ajustes nas recomendações de regulagens feitos pelo fabricante na colhedora e a utilização da plataforma Draper, as perdas totais reduziram em 70% e ficaram dentro do recomendado.

Gabarito para determinação da área de coleta de grãos de soja, sendo: (a) perdas totais e (b) perdas de plataforma.
Gabarito para determinação da área de coleta de grãos de soja, sendo: (a) perdas totais e (b) perdas de plataforma.


Étore Francisco Reynaldo, Fapa; Thiago Martins Machado, UFMT; Leandro Taubinger, Dionathan de Quadros, Fapa


Artigo publicado na edição 161 da Cultivar Máquinas. 

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