Comparativo Tratores 75cv

Comparamos os tratores Massey Ferguson 275 E, Agrale 5075, John Deere 5603, New Holland TL 75 E, Valtra 785 e Yanmar 1175-4, todos de porte médio, com 75 cv de potência, mas também os maiores modelos oferecidos pelo programa Mais Alimento, do MDA

A partir desta edição, além dos tradicionais testes e fichas técnicas, publicaremos também comparativos técnicos, que auxiliarão os leitores, usuários e técnicos envolvidos no processo de seleção de tratores agrícolas e outras máquinas que venhamos a comparar.

O objetivo desta nova modalidade de comparação é principalmente apoiar os leitores nas suas decisões de compra e informar à comunidade em geral das diferenças existentes entre os modelos escolhidos para o comparativo. É claro que, além das características técnicas de cada máquina abordada aqui, questões como diferenças no padrão de trator vendido por cada uma

das companhias, diferenças na oferta de opcionais, além de algumas características de marcas como pós-venda, exigência de manutenção e rede de concessionários, também devem ser levadas em conta na hora de adquirir qualquer equipamento.

Para este início de trabalho optamos por apresentar um comparativo entre modelos de tratores médios pequenos, com potência de 75cv, fabricados no Brasil. Estes modelos testados são recomendados pela cartilha do programa Mais Alimentos, do Governo Federal, maior fonte de financiamento para o setor de máquinas e implementos agrícolas no momento. Está claro que em determinados casos a comparação poderia incluir outros modelos, dentro de uma faixa de potência, com pequena variação de potência de motor, mas o critério de escolha foi este, em função de haver uma boa quantidade de tratores com esta mesma potência declarada.

Todas as informações contidas neste comparativo foram baseadas em material disponibilizado pelos fabricantes. Escolhemos os modelos dos tratores Agrale 5000, John Deere 5603, Massey Ferguson 275, New Holland TL75, Valtra 785 e Yanmar 1175 para a comparação. É claro que outras comparações poderiam ser feitas, mas achamos que iniciamos bem com estes modelos. Todavia, cabe ressaltar que o comparativo baseou-se em tratores 4x4, uma vez que estes são os tratores contemplados dentro do programa Mais Alimentos.

Nesta primeira experiência já detectamos algumas restrições como a necessidade de confiar nos dados apresentados pelos fabricantes e, considerar a forma particular de cada um em apresentar as informações, pois cada uma das empresas valoriza de maneira diferente os dados que interessa divulgar.

Como mecanismo de contenção dos efeitos da crise econômica mundial, várias empresas de máquinas agrícolas começam a investir em nichos alternativos de mercado. Neste contexto, surgem alternativas que se baseiam em máquinas de menor porte, ideia que ganha relativa importância no cenário nacional e se ampara em bases de investimento como o programa Mais Alimentos, lançado recentemente pelo Governo Federal. A agricultura familiar torna-se uma grande aposta, por parte das empresas do setor, visando equilibrar os níveis de produção e ajudar a conter os efeitos negativos da crise.

O programa Mais Alimentos tenta manter aquecida a indústria de máquinas agrícolas e favorece os agricultores familiares a ampliarem seus padrões de produção, pelo provável aumento da eficiência nas tarefas agrícolas, proporcionado pela mecanização envolvida na atividade. Este programa tem como meta financiar a aquisição de cerca de oito mil tratores, em cada um dos três anos em que o mesmo atuará. De acordo com dados apresentados pela Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), o setor em questão registrou, apenas no último ano, um aumento em torno de 45% nas vendas de tratores, da linha destinada à agricultura familiar (categoria até 75cv). Foram 12.160 unidades no ano de 2007 e 17.630 unidades em 2008.

PONTOS POSITIVOS

Cada uma destas máquinas, atualmente ofertadas no mercado nacional, possui uma série de particularidades. Por meio de uma breve análise de suas fichas técnicas, combinada às informações gerais obtidas, podemos destacar quais são os pontos relevantes que definem o padrão destes tratores, ou seja, é possível indicar alguns dos pontos fortes que caracterizam os tratores deste segmento.

O modelo 5075 da Agrale aposta na melhoria dos quesitos ergonomia e acessibilidade em seus modelos da linha 5000. De mesma forma, a Agrale destaca a versatilidade e adaptabilidade do produto, característica esta que visa assegurar a este trator uma fatia de mercado que contemple várias regiões do país. Outro fator que se faz importante é a economia atribuída aos motores MWM que equipam este modelo.

A marca John Deere, por sua vez, oferece o modelo 5603, que, além de conforto e segurança característicos dos tratores da marca, destaca também fatores inerentes a uma menor manutenção e maior produtividade da transmissão e da redução final. No que tange aos parâmetros de conforto, o modelo destaca a acessibilidade aos comandos como um dos pontos positivos e também apresenta uma gama de equipamentos de segurança de série, tais como espelhos retrovisores e sinal luminoso e sonoro de marcha à ré. Cabe ressaltar que o John Deere 5603 vem equipado com uma tomada de potência econômica (TDP-E), o que proporciona uma maior economia na execução de tarefas, sem, no entanto, comprometer a produtividade do trator.

O Massey Ferguson MF 275 Advanced tem como principal aliada a tradição de mercado, característica marcante nos tratores da linha 200. O reduzido custo de manutenção destes modelos e a disponibilidade de concessionários ainda figuram como um forte fator para a tomada de decisão pelo agricultor no momento da aquisição de um trator desta classe.

Da New Holland, selecionamos o modelo TL 75 Exitus, o qual valoriza seus atributos na versatilidade e manutenção deste trator. Este modelo destaca como pontos fortes a economia de combustível e excelente relação torque/potência (alta reserva de torque) proporcionada pelo seu motor MWM International. O TL 75 E é um trator de fácil acesso para a realização das verificações de rotina e manutenção em geral, devido às características no projeto do modelo, desenvolvidas para esta finalidade. Além dos pontos já citados, cabe mencionar alguns opcionais, tais como a TDP econômica e a transmissão com super-redutor de velocidade, que confere a este trator a capacidade de desempenhar tarefas a velocidades que se situam em torno de 0,3km/h, como é o caso da utilização de corte e distribuição de silagem.

O Valtra 785 C ressalta características de alto desempenho, baixo consumo de combustível e baixo custo operacional, inerentes aos seus modelos que se encaixam na chamada Linha Leve da marca. Como no caso de alguns concorrentes, o 785 C também utiliza o motor MWM International, versátil e com boa economia de combustível. Os modelos da Linha Leve Valtra destacam a geometria diferenciada de seu sistema hidráulico de levante no engate de três pontos. Também faz referência positiva no que tange à segurança, acessibilidade à plataforma de operações e aos comandos, com as alavancas de comando do trator localizadas no lado direito do operador, com exceção apenas do freio de estacionamento.

A Agritech/Yanmar apresenta um trator que se enquadra perfeitamente no conceito de pequena propriedade rural, o modelo 1175. Este modelo é voltado às características de boa produtividade, porém, com dimensões extremamente compactas. O 1175 é um trator que apresenta as menores dimensões gerais na comparação com seus concorrentes, fator este, que em alguns casos, pode ser decisivo no momento da escolha de um trator bem dimensionado e que atenda às necessidades de cada produtor rural. Cabe salientar que este modelo tem o menor raio de giro e largura dentre os seis modelos avaliados e uma relação peso/potência que se assemelha ao modelo ofertado pela John Deere (em sua configuração sem lastragem), o que comprova sua vocação para tarefas voltadas à fruticultura e à olericultura.

MOTOR

Todos os seis tratores avaliados pertencem à mesma classe, dotados de motores quatro cilindros, com aspiração natural, proporcionando 75cv de potência em rotação nominal. Todavia, torna-se importante salientar algumas particularidades inerentes a cada um destes tratores.

O motor de maior volume é o da marca John Deere, que equipa o modelo JD 5603, e três modelos utilizam o mesmo motor MWM de 3.922cm3. O maior torque é o do Massey Ferguson, modelo 275, que é equipado com um modelo de motor MWM, porém, há diferença dos demais que utilizam esta marca, com 4.100cm3. Todos os motores chegam à potência máxima com a rotação de 2.400rpm (rotação nominal) sob Norma ISO NBR 1585, com exceção do MF 275, que desempenha sua potência máxima a uma rotação nominal de 2.200rpm. O torque máximo é obtido a 1.400rpm em todos os modelos. Neste sentido, o motor de maior torque é o MF 275, que supera os demais em aproximadamente 8%. Para alguns dos modelos não foi possível avaliar a reserva de torque, visto que faltava informação, ora da rotação de torque ou potência, ora do próprio valor de torque.

O John Deere 5603 utiliza um motor desenvolvido pela própria marca, o John Deere 4045 D com 4.500cm³ de cilindrada total. Esta motorização proporciona um torque de 265Nm a uma rotação de torque máximo de 1.600rpm.

O Massey Ferguson MF 275 Advanced utiliza um motor MWM International A4-4.1 com cilindrada total de 4.100cm³ e torque máximo de 289Nm, o maior torque dentre os seis tratores comparados.

O New Holland TL 75 E também utiliza um motor MWM International D 229-4, com cilindrada total de 3.922cm³, alimentado por uma bomba injetora rotativa Delphi com injeção direta. O conjunto apresenta um torque de 264Nm, semelhante ao de seus concorrentes das marcas Agrale, Valtra e John Deere. Nota-se que dos seis tratores avaliados, quatro deles utilizam motores da marca MWM.

O modelo 785 C da Valtra apresenta a mesma motorização do modelo ofertado pela New Holland com um torque de 265Nm.

A Yanmar, em seu trator 1175, oferta uma motorização própria, com o modelo Yanmar/4TNV 98-xat, de 3.318cm3 e 250Nm de torque máximo a 1.500rpm, com 16 válvulas, quatro por cilindro.

TRANSMISSÃO

o que relaciona às transmissões utilizadas nestes modelos em comparação todos os modelos usam caixas de velocidades secas ou sincronizadas, com alavancas laterais na maioria dos casos, e nas marcas Massey Ferguson e Valtra, centralizadas, entre as pernas do operador. O número de marchas varia entre seis e 12, com a particularidade de que o modelo 785 C da marca Valtra possui muitas opções de câmbios entre seis e 12 marchas.

O modelo Agrale 5075 apresenta transmissão parcialmente sincronizada, com dez marchas à frente e duas marchas à ré, porém, o mesmo trator é ofertado em uma configuração 12x12 com inversor, visando proporcionar uma maior agilidade e versatilidade ao trator. O posicionamento das alavancas é lateral e a embreagem, do tipo duplo disco seco, tem acionamento hidráulico.

O modelo 5603 da John Deere apresenta, por sua vez, uma transmissão sincronizada Partial Synchro, que proporciona maior facilidade em manobras e aumento de desempenho, com nove marchas à frente e três marchas à ré. As alavancas estão posicionadas lateralmente e a embreagem, do tipo monodisco cerametálico, é acionada mecanicamente.

O modelo MF 275 da Massey Ferguson vem equipado com uma transmissão do tipo deslizante e com posicionamento central das alavancas de marchas. Esta configuração permite que o trator tenha oito velocidades à frente e duas velocidades à ré, com uma embreagem do tipo dupla, de acionamento mecânico.

A New Holland dota seu modelo TL 75 Exitus de uma transmissão sincronizada com variadas configurações de velocidades: o modelo de partida da linha apresenta 12 marchas à frente e quatro marchas à ré, podendo-se optar pelo modelo com alavanca de reversão que proporciona 12 marchas à frente e à ré ou, ainda, pode-se requisitar o opcional com super-redutor de velocidade, proporcionando 20 marchas à frente e 12 marchas à ré. Este modelo vem com suas alavancas posicionadas na parte lateral da plataforma, com uma embreagem de disco cerametálico e acionamento mecânico.

O modelo 785 C da família Valtra tem transmissão sincronizada com várias configurações das relações de velocidades: seis marchas à frente e duas à ré, nove marchas à frente e três à ré ou 12 marchas à frente e quatro marchas à ré. O posicionamento das alavancas é central e a embreagem, do tipo duplo disco independente, é acionada mecanicamente.

O Yanmar 1175 tem seu engrenamento principal pelo sistema Collar Shift, disponibilizando 12 marchas à frente e três marchas à ré. As alavancas localizam-se na parte lateral do posto de operação e a embreagem do tipo dupla é acionada mecanicamente.

HIDRÁULICO, DIREÇÃO E TDP

Algumas particularidades são passíveis de serem destacadas, tendo-se como base parâmetros relacionados a estes sistemas, porém, muitas características se assemelham entre os modelos avaliados: todos os modelos possuem sistema de direção do tipo hidrostática,

sendo que os modelos ofertados pela New Holland e pela John Deere disponibilizam uma bomba independente para esta função; os seis modelos avaliados são equipados com tomada de potência independente, com acionamento mecânico.

O modelo 5075 da Agrale alcança as 540rpm na TDP a uma rotação de 2.000rpm do motor. No que se refere ao seu sistema hidráulico, o mesmo apresenta vazão máxima de 53l/min e capacidade máxima de levante de 2.600kgf, disponibilizando controle remoto de série.

O trator 5603 da John Deere desenvolve as 540rpm na TDP a uma rotação que pode ser de 1.700rpm na opção econômica ou de 2.400rpm do motor em seu modo de funcionamento padrão. Seu sistema hidráulico possui vazão máxima de 43l/min e capacidade máxima de levante de 2.670kgf, disponibilizando duas válvulas de controle remoto.

O modelo MF 275 Advanced, da Massey Ferguson, necessita de 1.900rpm do motor para desempenhar as 540rpm na TDP do mesmo. No que diz respeito ao seu sistema hidráulico, o MF 275 apresenta vazão máxima de 27l/min, e 2.500kgf de capacidade máxima de levante, valor inferior aos apresentados pelos seus concorrentes, excetuando-se o valor atribuído ao Yanmar 1175, o menor dentre os modelos comparados. O modelo comercializado pela Massey Ferguson apresenta controle remoto com duas válvulas de série, contando com o opcional de três válvulas ou, ainda, com uma opção que pode não contar com este item.

O modelo TL 75 E da New Holland desempenha 540rpm na TDP a uma rotação do motor de 2.199rpm. Este modelo apresenta vazão máxima do sistema hidráulico na ordem de 44,5l/min e a maior capacidade de levante na comparação com os demais modelos, situando-se em torno de 3.340kgf, oferecendo o sistema de controle remoto como um opcional.

O trator Valtra 785 C alcança as 540rpm na TDP a 2.040rpm do motor. O seu sistema hidráulico tem vazão máxima de 38,4l/min e capacidade máxima de levante de 2.600kgf, disponibilizando uma ou duas válvulas no controle remoto do sistema.

O Yanmar 1175 necessita de 2.400rpm do motor para desempenhar 540rpm na TDP. Em relação ao sistema hidráulico, a vazão máxima situa-se em torno de 69l/min, a mais elevada dentre os modelos comparados, todavia, sua capacidade máxima de levante é a mais baixa na comparação com os demais tratores, como fora anteriormente citado, com valores na ordem de 2.000kgf. Informações referentes às opções de controle remoto do modelo não foram identificadas, porém, sabe-se que são duas saídas.

Quanto à análise da relação peso/potência, utilizando as informações dos fabricantes, se pôde realizar algumas conclusões. Houve algum prejuízo na análise, pois alguns fabricantes disponibilizam as informações de uma forma diversa do outro.

Os tratores John Deere 5603 e Yanmar 1175 apresentam uma baixa relação peso/potência, lembrando que esta característica se atribui ao trator sem a presença de qualquer tipo de lastragem. Assim, a situação torna-se facilmente modificável com a adição de pesos dianteiros e traseiros (presença de série nos tratores da linha). No caso do MF 275, a informação é apresentada com os pesos, que equipam o modelo em sua configuração básica, apresentando, assim, a maior relação peso/potência dentro desta comparação de tratores, o que permite ao modelo exercer funções que admitam um maior nível de exigência do trator. Os tratores New Holland TL75 E e o Agrale 5075 possuem uma relação peso/potência semelhante e adequada para múltiplas tarefas, mesmo na sua configuração sem a presença de qualquer tipo de lastragem. Assemelhando-se ao MF 275 Advanced, o Valtra 785 C apresenta uma alta relação peso/potência devido a sua configuração de contrapesos, os quais são itens de série do modelo.

CARACTERÍSTICAS GERAIS

Dentro das generalidades dos demais itens comparados entre os seis modelos avaliados, cabe ressaltar alguns aspectos inerentes a estes tratores: o Valtra 785 C é o trator que apresenta a maior distância entre os eixos dentre os tratores comparados (2.373mm), sendo que o Yanmar 1175 é o modelo que apresenta a menor distância entre os eixos (1.945mm), fator que justifica sua maior demanda de mercado nas atividades de olericultura e fruticultura mecanizada; o modelo 785 C da Valtra apresenta o menor raio de giro mínimo (com o auxílio do freio), na ordem de 3.170mm, sendo que o trator MF 275 da Massey Ferguson demanda 3.550mm de raio de giro mínimo (com o auxílio do freio), o maior dentre os modelos comparados; as menores configurações de bitola são atribuídas aos modelos 1175 da Yanmar e 5603 da John Deere; o maior reservatório de combustível é o do New Holland TL 75 E, com 110 litros de capacidade, sendo que o Yanmar 1175 e o John Deere 5603 apresentaram as menores capacidades de armazenamento de combustível, respectivamente, com 67l e 68l de capacidade máxima.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A comparação destes modelos serve de subsídio para tomada de decisão por parte dos produtores rurais no momento da aquisição de uma nova máquina, uma vez que estes podem optar pelo modelo que venha a suprir de forma adequada suas possíveis necessidades no exercício das atividades agrícolas. Neste contexto, tanto o produtor quanto a indústria podem contabilizar lucros. Conhecer mais detalhadamente cada trator atualmente ofertado no mercado e, principalmente, ter uma boa noção das reais necessidades dentro de cada propriedade rural, tende a tornar cada vez menos burocrática a relação entre quem oferta o produto e quem deseja adquirir. Assim, poderá ter-se a consciência de que a crescente evolução da mecanização agrícola no país é racional e, acima de tudo, altamente eficiente.

José Fernando Schlosser

Gustavo Heller Nietiedt

André Luis Casali

Ronaldo Carbonari

Laboratório de Agrotecnologia

Núcleo de Ensaios de Máquinas Agrícolas (Nema) – UFSM

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