Compatibilidade de controle químico e biológico nas pragas que atacam tomateiro


Parasitoides de ovos são conhecidos mundialmente por serem bastante eficientes no combate a grande número de pragas agrícolas e florestais. Esses insetos, por parasitarem os ovos das pragas, impedem que seus hospedeiros atinjam a fase larval, em que causam danos às culturas. Os parasitoides pertencentes ao gênero Trichogramma (Hymenoptera) apresentam ampla distribuição geográfica e desempenham papel importante como inimigos naturais de inúmeras espécies de lepidópteros-praga (borboletas e mariposas) em diversos agroecossistemas. Nas últimas décadas, parasitoides do gênero Trichogramma têm sido utilizados como agentes de controle para a supressão de populações dessas pragas em diversos países e nos mais variados cultivos, inclusive em hortaliças.

No Brasil, há registros da ocorrência de 26 espécies de Trichogramma, sendo que Trichogramma pretiosum é a espécie mais amplamente distribuída, já tendo sido relatada nos estados de Amazonas, Ceará, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo e no Distrito Federal. É, também, a espécie que parasita maior número de hospedeiros, inclusive parasitando, naturalmente, lepidópteros-praga que atacam a cultura do tomateiro, tais como a traça-do-tomateiro Tuta absoluta, as brocas pequena e grande, Neoleucinodes elegantalis e Helicoverpa zea, respectivamente, a lagarta-militar Spodoptera sp., além da espécie recém-introduzida no Brasil Helicoverpa armigera, considerados fatores limitantes à cultura e causadores de grandes prejuízos aos produtores.

Entretanto, um dos grandes entraves na utilização desse inimigo natural no controle de insetos-praga do tomateiro é o fato de se continuar utilizando grandes quantidades de defensivos para o controle de pragas e doenças na cultura. Devido à importância das espécies de Trichogramma como inimigos naturais de diversos insetos-praga, estudos acerca do impacto de agroquímicos sobre esses organismos são de fundamental importância. Esses estudos objetivam gerar informações que auxiliem na tomada de decisão em programas de Manejo Integrado de Pragas (MIP), na manutenção desses organismos nos agroecossistemas, na redução do impacto ambiental, bem como na redução dos riscos à saúde humana.

A seletividade de agroquímicos a organismos benéficos permite a compatibilização dos métodos de controle químico e biológico, notadamente na cultura do tomateiro, alvo de grande número de aplicações de produtos químicos para o controle de insetos-praga e doenças.

Estudos de seletividade

Em vários países, testes de seletividade tornaram-se obrigatórios, o que exige a utilização de métodos aprovados internacionalmente, com o objetivo de padronização das técnicas para estudos de seletividade, permitindo a comparação dos resultados obtidos.

No Brasil, atualmente, já existe um Grupo de Pesquisa em Seletividade, credenciado junto ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), desde 2011, para adaptar às condições brasileiras, as metodologias já estabelecidas e preconizadas pela “International Organization for Biological and Integrated Control of Noxious Animals and Plants (IOBC), West Palaearctic Regional Section (WPRS)" para estudos de seletividade, bem como eleger organismos benéficos-padrão para estudos de seletividade no Brasil. Além disso, caberá também a esse Grupo de Pesquisa divulgar as informações obtidas com os testes de seletividade por meio de artigos científicos em revistas especializadas, workshops, palestras e discussões entre os setores acadêmico e de difusão de tecnologia.

Diversos estudos sobre seletividade de agroquímicos utilizados na cultura do tomateiro a inimigos naturais já foram realizados no Brasil. A grande maioria traz informações sobre os efeitos dos compostos sobre o parasitoide de ovos T. pretiosum, importante agente de controle de pragas da tomaticultura (Tabela 1).

Esses estudos evidenciaram que, de modo geral, abamectin, acetamiprid, cartap, chlorpyrifos, deltamethrin, lambda-cyhalothrin e methoxifenozide foram os compostos mais tóxicos a esse parasitoide, tendo sido classificados como moderadamente prejudiciais e/ou prejudiciais (classes 3 e 4, respectivamente), segundo escala de toxicidade da IOBC/WPRS. Por outro lado, B. thuringiensis, chlorfluazuron, chlorothalonil, cyromazine, flubendiamide, iprodione, lufenuron, novaluron, tebufenozide, teflubenzuron, thiamethoxam e triflumuron revelaram-se inofensivos a T. pretiosum, sendo categorizados na classe 1.

É importante ressaltar que, dentre os diversos agroquímicos avaliados nesses estudos, o ingrediente ativo flubendiamide mostrou-se inofensivo (seletivo) a todas as fases de desenvolvimento de T. pretiosum, demonstrando a possibilidade de utilização conjunta desse agroquímico e o parasitoide, no combate a uma importante praga recentemente introduzida no Brasil, a H. armigera. Esse ingrediente ativo pertencente ao grupo químico das diamidas apresenta modo de ação inovador, provocando interrupção da contração muscular, paralisia e morte dos insetos tratados. Esse defensivo é recomendado para o controle de lagartas nas culturas do algodão, milho, soja e tomate, demonstrando grande eficiência.

No entanto, a utilização desse e de outros agroquímicos no controle de pragas deve ser realizada de forma a não permitir o desenvolvimento de resistência por parte das pragas, inclusive garantindo que esses compostos mantenham sua eficiência no combate às pragas, ao longo dos anos.

Considerações finais

Verifica-se que diversos estudos acerca da seletividade de agroquímicos utilizados na cultura do tomateiro ao parasitoide T. pretiosum já foram desenvolvidos no Brasil. No entanto, a síntese e a comercialização contínuas de novos compostos com propriedades inseticidas, bem como as exigências cada vez maiores dos mercados consumidores nacional e internacional, tornam necessários estudos frequentes sobre o impacto desses compostos sobre esse organismo, de modo que se possam compatibilizar os métodos de controle biológico e químico e minimizar a utilização de agroquímicos no controle de pragas.

Confira a Tabela de Seletividade de alguns agroquímicos utilizados na cultura do tomateiro no Brasil ao parasitoide de ovos Trichogramma pretiosum na edição 85 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas.

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