Comportamento de cultivares de feijoeiro frente ao ataque de insetos e seus reflexos na produtividade

O feijão comum, Phaseolus vulgaris L., é o produto alimentício mais popular e conhecido do Brasil, país que se destaca como maior produtor e consumidor mundial da leguminosa, cujo cultivo é realizado durante três épocas do ano: a safra das águas, a da seca e a de inverno. Na safra de 2008, a produtividade do feijão no Brasil atingiu a marca de aproximadamente 3,4 milhões de toneladas em uma área plantada total de 4 milhões de hectares.

Cultivares

Pérola: lançada pela Embrapa em 2004, esta cultivar do tipo carioca é resistente à ferrugem, ao mosaico comum e a uma raça de antracnose. Apresenta também resistência intermediária à murcha do Fusarium e à mancha angular. Devido a seus fatores de resistência, dispensa significativas aplicações de defensivos químicos, reduzindo o custo de produção ao agricultor. Em cultivo irrigado, atinge uma produção de 3 mil kg/ha, enquanto em condições de sequeiro chega a 2,4 mil kg/ha.

IAC-Votuporanga: cultivar do tipo carioca lançada pelo Instituto Agronômico (IAC) em 2005. Apresenta resistência aos fungos da antracnose, ferrugem e murcha de Fusarium, além do vírus do mosaico comum, transmitido pela mosca-branca. Suas plantas possuem porte semi-ereto a ereto, ciclo de aproximadamente 90 dias e produtividade média de 2850 kg/ha.

IAC-Apuã: lançada também pelo Instituto Agronômico no ano de 2005, a cultivar possui os mesmos fatores de resistência aos patógenos presentes no genótipo anterior, distinguindo-se dos outros materiais produzidos pelo IAC por apresentar grãos ligeiramente maiores. Suas plantas são de porte semi-ereto, possui ciclo de 90 dias e produz em média 2780 kg/ha.

IAC-Tybatã: cultivar do tipo carioca lançada pelo Instituto Agronômico em 2002, após 13 anos de melhoramento genético, uma vez que suas pesquisas se iniciaram no ano de 1989. Possui total resistência aos fungos causadores da antracnose e ferrugem e ao vírus do mosaico comum, além de apresentar certo nível de resistência ao mosaico dourado. Suas plantas são de porte semi-ereto e possui ciclo de 86 dias no plantio das águas e 90 nos plantios de seca e de inverno. Sua produtividade média é de 2400 kg/ha.

IAC-Tunã: diferentemente dos outros materiais genéticos apresentados, esta cultivar é do tipo feijão preto, também desenvolvida e lançada pelo IAC em 2005. É resistente à antracnose, ferrugem, murcha do Fusarium e ao vírus do mosaico comum, e, da mesma forma que as outras cultivares, seus grãos possuem alto teor protéico, em torno de 20%. Seu ciclo é de aproximadamente 90 dias, atingindo uma produção média de 2800 kg/ha.

Experimento

Com o objetivo de se comparar o comportamento das cultivares de feijoeiro Pérola, IACVotuporanga, IAC-Apuã, IAC-Tybatã e IAC-Tunã frente à infestação natural de insetos pragas, um experimento foi conduzido na Fazenda de Ensino, Pesquisa e Extensão da Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira – FEPE/UNESP, localizada no município de Selvíra-MS, cuja precipitação média anual é de 1300 mm, umidade relativa do ar entre 70 e 80 % e temperatura média anual de 23,5 ºC. Para a semeadura, realizada em 17/04/07, utilizou-se o delineamento de blocos ao acaso, com cinco tratamentos representados pelas cultivares descritas anteriormente e quatro repetições. Cada parcela experimental constituiu-se de quatro linhas de quatro metros de plantas espaçadas 0,5 m entre si, com uma densidade de 15 plantas/m.

Não foi utilizado nenhum tratamento com inseticidas no experimento a fim de serem avaliadas as infestações naturais dos insetos. Foram realizadas no total oito amostragens, semanalmente, entre os meses de maio e junho. Em cada amostragem foram coletados 10 folíolos do terço mediano e 10 folíolos do terço superior das plantas por parcela.

Por fim, foram contados em laboratório o número de ovos e ninfas das espécies de insetos que infestaram a cultura.

Ocorrência de pragas e sua distribuição nas plantas

Embora não tenham ocorrido altas infestações naturais das pragas devido às condições climáticas de baixa temperatura durante os meses de maio e junho, as amostragens possibilitaram verificar a ocorrência de três espécies de insetos, quais sejam da mosca-branca Bemisia tabaci (Gennadius) biótipo B, tripes Thrips palmi Karny e de cigarrinha verde Empoasca kraemeri Ross & Moore. Entre as cultivares preferidas para oviposição da moscabranca, IAC-Apuã e IAC-Votuporanga receberam maior quantidade de ovos quando comparadas com as demais cultivares. Observou-se também maior número de ovos de B. tabaci localizados no terço superior das plantas das cultivares IAC-Apuã e IAC-Votuporanga.

Pérola apresentou maior número de ovos no terço mediano, enquanto IAC-Tybatã e IACTunã foram indiferentemente preferidos para oviposição (Figura 1).

No terço mediano das plantas de feijoeiro foram observadas mais ninfas de mosca-branca nas cultivares Pérola e IAC-Votuporanga. Já nos terços superiores, o número de ninfas de B. tabaci foi nulo ou quase nulo entre as cultivares (Figura 2).

Foi observado maior número de ninfas de tripes na parte mediana das plantas de feijoeiro em todas as cultivares avaliadas. A cultivar IAC-Tybatã foi a mais infestada por T. palmi, enquanto IAC-Apuã foi a menos atacada comparativamente entre as demais (Figura 3).

Quanto à infestação de cigarrinha, de maneira geral, observou-se maior número do inseto na cultivar IAC-Tybatã. Em Pérola, IAC-Apuã e IAC-Tunã, foi observado maior número de ninfas de E. kraemeri no terço médio das plantas, enquanto em IAC-Tybatã e IACVotuporanga maior número da praga ocorreu no terço superior (Figura 4).

Produtividade

No fim do ciclo da cultura, aproximadamente 90 dias da emergência das primeiras plantas, foram colhidos quatro metros lineares de plantas por parcela e, deste total, 10 foram separadas para avaliação do número e peso de vagens. O restante das plantas colhidas foi utilizado para estimar a produção da cultura. Em relação ao número e peso de vagens, houve diferenças significativas entre as cultivares avaliadas. Dentre estas, Pérola apresentou tanto o maior número quanto o maior peso de vagens em relação às demais variedades testadas, enquanto IAC-Tybatã mostrou-se a de menor número (Figura 5) e menor peso de vagens nas 10 plantas avaliadas (Figura 6).

Consequentemente ao maior número e peso de vagens, Pérola também foi a mais produtiva, com estimados 2442 kg/ha. Esta cultivar foi seguida, respectivamente, de IAC-Apuã (2054 kg/ha), IAC-Votuporanga (1889 kg/ha), IAC-Tunã (1882 kg/ha) e IAC-Tybatã (1565 kg/ha), esta última com a menor produtividade observada (Figura 7).

Em geral, as plantas de IAC-Tybatã, Pérola e IAC-Votuporanga foram as mais infestadas pelos insetos comparativamente a IAC-Tunã e IAC-Apuã. Observaram-se maiores números de ovos e ninfas de mosca-branca nos terços superior e mediano das plantas de feijoeiro, respectivamente. Ninfas de tripes foram prevalentes no terço superior, enquanto as de cigarrinha ocorreram, indiferentemente, nos terços mediano e superior das plantas. Os maiores valores para número e peso de vagens e produtividade foram observados na cultivar Pérola. Essas diferenças, provavelmente, estão relacionadas às características intrínsecas das próprias cultivares, uma vez que as infestações naturais dos insetos não foram relativamente altas devido às baixas temperaturas ocorridas nos meses de amostragens.

Bruno Henrique Sardinha de Souza
Biólogo, FEIS/UNESP. Email: souzabhs@gmail.com

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