Consórcio viável

A cultura da alface é uma boa alternativa para o consórcio com a cebola, pois possui pequeno porte, ciclo curto, boa adaptação regional e aceitação por parte dos consumidores. Além disso, são escassas as informações sobre a melhor época de estabelecimento desse consórcio, o que justifica o presente trabalho, que teve por objetivo determinar época(s) agronomicamente recomendada(s) para o transplantio de mudas de alface em canteiros semeados com cebola.



O estudo foi realizado em horta de ensino, pesquisa e extensão da Universidade Estadual de Montes Claros, campus de Janaúba. Essa região encontra-se inserida no semiárido brasileiro, situada a 15°47'18'' de latitude sul e 43°18'18'' de longitude oeste a uma altitude de 515 metros, com precipitação média anual de 740mm. O solo predominante da área experimental foi classificado como neossolo flúvico. A adubação foi realizada de acordo com análise do solo. A cultivar de cebola utilizada foi a Texas Early Grano de dias curtos, com ciclo de 100 dias a 120 dias, sendo classificada como cultivar superprecoce. Já para alface utilizou-se a cultivar Grand Rapids tipo crespa, que foi previamente plantada em bandejas, sendo transplantada para os canteiros quando apresentaram três folhas definitivas. Para a alface e a cebola, as populações recomendadas no cultivo foram de 250 mil plantas/ha (espaçamento de 0,20m x 0,20m) e um milhão de plantas/ha (0,20m x 0,05m), respectivamente. A cebola foi plantada diretamente nos canteiros em consórcio com alface e em cultivo solteiro, sendo que o plantio da alface foi realizado aos 0, 20, 40 e 60 dias após o plantio direto da cebola. Os tratos fitossanitários foram realizados de acordo com as recomendações para as culturas da cebola e alface, em manejo convencional. Após a colheita foram avaliadas nos bulbos de cebola características agronômicas e de qualidade. As agronômicas foram: produtividade total e comercial (t/ha), altura e diâmetro de bulbo (mm), número de bulbos, peso médio total e comercial de bulbos (kg), matéria seca (%). As características de qualidade foram: perda de água (%), sólidos solúveis totais (ºBrix), acidez total titulável (eq.mg.ác.pirúvico 100ml-1) e relação SST/ATT. Após a colheita da alface foram avaliadas as seguintes variáveis agronômicas: massa fresca e média; massa fresca comercial e média; número de cabeças; diâmetro da cabeça das plantas (medindo-se a distância entre as margens opostas da cabeça, por ocasião da colheita, expressa em cm); número de folhas total, comercial e não comercial; produtividade (matéria fresca da parte aérea em t/ha) da alface.

Com relação à cebola, os resultados revelam que, para todas as características agronômicas não houve diferença do consórcio em relação ao monocultivo da cebola. No entanto, a alface cultivada solteira apresentou maior rendimento em relação ao cultivo consorciado. Considerando-se o cultivo consorciado de cebola e alface, em relação à época de transplantio da alface em canteiros semeados com cebola, verificou-se que o plantio da alface na mesma época (época zero) ou 60 dias após o plantio da cebola, pode ser boa alternativa de consórcio para a cebola (pois as análises de qualidade mostraram que foram as épocas zero e 60 dias as que condicionaram melhor a qualidade de bulbos). Nas épocas zero e 60 dias a cebola teve menor concorrência com a alface devido ao fato de se situar entre 60 dias e 75 dias o período em que começa a ocorrer a translocação de fotoassimilados para os bulbos. Nesse período as alfaces da primeira época já foram colhidas e na última época a cebola já se encontrava bem desenvolvida, competindo mais do que a alface pelos recursos ecológicos naturais.

Por outro lado, com relação à alface, verificou-se que o diâmetro médio da cabeça reduziu com o avanço das épocas de transplantio da alface nos canteiros cultivados com a cebola. Já o transplantio da alface em conjunto com o plantio da cebola (época zero) apresenta menor efeito de competição da cebola sobre a cultura da alface em consórcio, com maior rendimento agronômico. O pouco sombreamento ocasionado pelas folhas da cebola sobre as plantas de alface favoreceu a elevação da taxa fotossintética e, consequentemente, influenciou o desenvolvimento da planta de alface. Com o atraso no transplantio da alface, as plantas de cebola apresentavam-se mais desenvolvidas, o que favoreceu maior competição intraespecífica por água, nutriente e principalmente por luz.

Portanto, considera-se viável o consórcio entre a cultura da cebola e da alface, desde que a cebola seja a cultura principal, pois obteve o mesmo rendimento em ambos os sistemas: consorciado e solteiro. Diferente da alface, onde a produtividade média no sistema consorciado (embora inferior à do sistema solteiro) condiciona o seu manejo como cultura secundária no consorciamento, representando uma fonte adicional de renda para o sistema e ao produtor. Desta forma, a alteração na época de plantio de uma das culturas (sendo a alface no presente estudo e, portanto, no estabelecimento do consórcio) modificou o período de complementaridade e competição das culturas em consorciação, com reflexo na produtividade, condicionando o transplantio da alface em conjunto com o plantio da cebola como a que condiciona melhores resultados, tanto para os aspectos agronômicos quanto para os qualitativos de ambas as culturas.

Cebola e alface

A cebola e a alface são hortaliças muito difundidas e com grande importância econômica no mundo inteiro. No Brasil, estas espécies estão entre as hortaliças mais importantes, no que se refere à produção, à comercialização e ao valor nutricional. Por isso o consumo é elevado na forma in natura, em saladas ou no preparo de temperos. Desta forma, a cebola é a terceira hortaliça de maior expressão no país, e a alface é a folhosa mais consumida. Estas hortaliças apresentam grande importância socioeconômica, por demandar grande quantidade de mão de obra, gerando emprego, e ao tornar viável pequenas propriedades rurais por meio de geração de renda, levando em consideração que a produção de cebola e alface é praticada principalmente por pequenos produtores. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no Brasil cerca de 84,4% das propriedades rurais estão inseridas na agricultura familiar, que são em geral agricultores com baixo nível de escolaridade, detêm pequenas áreas para seu cultivo e precisam diversificar os produtos cultivados para diluir custos e aumentar sua renda. Além disso, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o consumo de hortaliças, como alface e cebola, é pequeno no Brasil. Portanto, é necessária adoção de técnicas de cultivo que possam proporcionar isso aos pequenos produtores, sem danos ao ambiente. Dentre as técnicas sugere-se o cultivo consorciado de hortaliças.

O que é

O cultivo consorciado é uma prática agronômica caracterizada pelo uso intensivo de recursos renováveis e não renováveis, além de apresentar vantagens de ordem econômica e agronômica que poderão advir com o emprego desta tecnologia para os pequenos produtores. Nas últimas décadas a olericultura tem buscado desenvolver tecnologias para o aumento da produtividade, qualidade das culturas e ainda produzir com menor impacto ao ambiente. Consórcio nada mais é que associação de duas ou mais culturas, com diferentes ciclos e arquiteturas vegetativas, exploradas concomitantemente na mesma área. Porém, as culturas não são necessariamente semeadas ou plantadas ao mesmo tempo, portanto, são colhidas também em tempos diferentes, mas durante apreciável parte de seus períodos vegetativos (há uma simultaneidade, forçando interação entre elas). Sistemas de produção diversificados são mais estáveis porque dificultam a multiplicação excessiva de determinada praga ou doença, aumento da produtividade por unidade de área, produção diversificada de alimentos, acréscimo da proteção vegetativa do solo contra a erosão, controle de invasoras e permitem que haja melhor equilíbrio no sistema de produção, por meio da multiplicação de inimigos naturais e outros organismos benéficos. O sucesso do sistema consorciado está na capacidade de determinar as culturas a serem utilizadas e, principalmente, o manejo do consórcio. A arquitetura das plantas cultivadas é um ponto relevante na consorciação. Quanto maior a diferença na arquitetura das plantas envolvidas, melhor será o aproveitamento dos fatores ambientais.


Este artigo foi publicado na edição 78 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas. Clique aqui para ler a edição.

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Wagner Ferreira da Mota, Janiele Cássia Borbosa Vieira, Francielly Quitéria Guimarães Alves, Luan Mateus Silva Donato e Márcio Marques da Silva

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