Controle a pinta

No Brasil, a pinta-preta representa uma das mais importantes e freqüentes doenças fúngicas nas culturas de tomate e batata. Causada pelo fungo Alternaria solani, caracteriza-se por causar intensa redução da área foliar, queda do vigor das plantas, depreciação de frutos e tubérculos e conseqüente redução do potencial produtivo. Embora um programa de manejo cultural possa minimizar o desenvolvimento da doença o uso de fungicidas é necessário para a proteção dessas culturas, sob condições ambientes favoráveis (Quadro1 - veja no final do texto como visualizar este artigo, com fotos e tabelas, em PDF).

Os fungicidas protetores à base de cobre, mancozeb, methiram, chlorothalonil e fluazinam são amplamente empregados em ambas as culturas. Apresentam largo espectro de ação, baixa fungitoxicidade e conferem bons níveis de controle sob baixa pressão de doença. São produtos de custo relativamente baixo, que podem ser aplicados em caráter preventivo durante todo o ciclo da cultura. O período de proteção na planta varia de 6 a 9 dias em média, sendo recomendados intervalos de aplicação de 7 dias. Uma característica importante destes fungicidas é sua ação sobre múltiplos sítios do metabolismo do fungo, o que evita o surgimento de raças resistentes.

Avanços consideráveis no manejo da pinta preta foram obtidos através da evolução de fungicidas com atividade sistêmica. São produtos específicos, com elevada fungitoxicidade e, quando aplicados corretamente, conferem elevados níveis de controle mesmo sob condições críticas. A capacidade de penetrarem e se redistribuírem na planta permitem a estes fungicidas atuar sobre infecções causadas por Alternaria solani com 24 a 48 horas de incubação. Apresentam em geral, rápida absorção e estão menos sujeitos à ação de intempéries, apresentando sistemicidade diferenciada em função do grupo químico a que pertencem. Por isso, diferem entre si quanto ao potencial de ação curativa, período de controle, atividade antiesporulante e resistência a chuvas Quadro 2.

Os fungicidas iprodione e procymidone, pertencentes ao grupo das dicarboximidas, promovem bom controle da pinta preta em solanáceas. Apesar de serem considerados produtos de contato, apresentam reconhecida ação de profundidade e ação curativa no início da infecção.

Os triazóis, típicos inibidores da biossíntese de ergosterol, caracterizam-se por serem altamente eficientes no controle da pinta preta. São fungicidas que possuem excelente atividade preventiva e curativa, ação sistêmica e eficiência em doses relativamente baixas. Alguns triazóis podem ser fitotóxicos a plantas jovens de tomate e batata. Entre os princípios ativos com registro no Brasil destacam-se tebuconazole, difenoconazole, tetraconazole e metconazole.

Desenvolvidas a partir de compostos naturais, as estrobilurinas (azoxystrobin, kresoxim methyl e pyraclostrobin), caracterizam-se por serem fungicidas com excelente ação preventiva, curativa e antiesporulante no controle da Alternaria solani. A atividade antifúngica destes fungicidas está baseada na inibição da respiração mitoncondrial, através do impedimento da transferência de elétrons entre o citocromo b e o citocromo c. Além de ação fungicida, estas moléculas atuam de forma positiva sobre a fisiologia das plantas, através de aumentos da atividade da enzima nitrato-redutase, níveis de clorofila e da redução da produção de etileno. Tais efeitos contribuem diretamente para que as plantas sofram menor estresse no campo, assegurando maior qualidade e rendimento das colheitas. As estrobilurinas apresentam ainda ação residual prolongada, considerável tenacidade e perfil toxicológico favorável.

Com modo de ação semelhante às estrobilurinas, o famoxadone é considerado um produto de contato. Pertencente à classe das oxazolidinedionas, é formulado em mistura com mancozeb e cymoxanil, sendo recomendado para o controle da pinta preta e requeima. Elevada ação alternaricida, tenacidade e considerável período de proteção caracterizam este grupo de fungicidas. Trabalhos de pesquisa têm mostrado que famoxadone promoveu redução na severidade da pinta preta em plantas de tomates tratadas 24 horas após a inoculação.

Os fungicidas pyrimethanil e cyprodinil, pertencentes ao grupo das anilinopirimidinas, representam opções eficazes de controle da pinta preta com diferente modo de ação distinto. O pyrimethanil atua inibindo a produção de proteínas e enzimas associadas com a patogênese, enquanto que o cyprodinil atua inibindo a síntese de aminoácidos.

Pertencente à classe das anelidas, o fungicida boscalid representa uma nova alternativa para o manejo da pinta preta nas culturas de batata e tomate. Com ação protetora e sistêmica, atua sobre a germinação de esporos, elongação do tubo germinativo, crescimento micelial e esporulação. Boscalid é classificado como inibidor da respiração na célula fúngica.

Os fungicidas sistêmicos, por apresentarem modo de ação específico, são suscetíveis à ocorrência de resistência. Portanto, em programas de aplicação, estes devem ser utilizados alternados com fungicidas inespecíficos (contato) ou de modo distinto de ação. Visando evitar a ocorrência de resistência, recomenda-se ainda que não sejam realizadas mais que 6 aplicações/ciclo de um determinado grupo fungicida e desaconselham-se aplicações em caráter curativo.

Entre as mais recentes conquistas disponíveis para o manejo da pinta preta está o acibenzolar-S-methyl (BTH), capaz de induzir a resistência de plantas à ação de patógenos. A indução de resistência é um fenômeno em que a planta apresenta incremento em seu nível de resistência, sem alterações em sua constituição genética básica. A indução de resistência utiliza os mecanismos de defesa da própria planta para restringir o desenvolvimento da doença. Acibenzolar-S-methyl não possui ação antifúngica direta, atua induzindo o acúmulo de PR-proteínas como as proteinases, quitinases e peroxidases nas células da planta. Tais enzimas apresentam a capacidade de degradar as paredes celulares de fungos e bactérias, impedindo o processo infeccioso. O produto é rapidamente absorvido pelos tecidos foliares e se transloca sistemicamente, ativando as defesas da planta de forma generalizada. Devido às suas características, o BTH é indicado para o manejo de doenças, preferencialmente associado a fungicidas. O início das aplicações deve ser preventivo. No Brasil, esta nova classe de produtos encontra-se registrada para a cultura do tomate e, além da pinta preta, apresenta respostas positivas no controle da requeima e manchas bacterianas. Em tomate envarado, as aplicações devem se iniciar quando as plantas ultrapassarem a altura do primeiro amarrio. Em tomate rasteiro, devem ser iniciadas a partir dos 30 dias após a emergência. O produto deve ser reaplicado a cada 5-7 dias, totalizando no máximo 10 aplicações/ciclo.

Para o controle da pinta-preta recomenda-se, de maneira geral, a aplicação preventiva de fungicidas protetores durante a fase vegetativa e o uso alternado de fungicidas sistêmicos e de contato durante as fases de frutificação e formação de tubérculos. A aplicação de fungicidas sistêmicos deve ser iniciada assim que ocorram condições favoráveis ou se evidenciem os primeiros sintomas da doença no campo. A deposição adequada do fungicida nas plantas e, em especial, nas folhas inferiores é fundamental para o controle efetivo da pinta preta.

Atualmente existem disponibilizados sistemas de previsão para pinta preta, que procuram disciplinar a aplicação de fungicidas em função do monitoramento do clima. Tais sistemas visam definir o momento adequado de se realizar o tratamento, bem como, reduzir os custos e o impacto ambiental.

Sintomas e desenvolvimento da doença

Em folhas, os sintomas expressam-se através de manchas foliares necróticas, pardo-escuras, com a presença de anéis concêntricos e bordos bem definidos. Lesões em hastes e pecíolos podem surgir em plantas adultas e caracterizam-se por serem pardas, alongadas, deprimidas, podendo ou não apresentar halos concêntricos. Em frutos de tomate, os sintomas são caracterizados pela presença de manchas escuras, deprimidas e com a presença típica de anéis concêntricos, que geralmente se localizam na região do pedúnculo. Lesões em tubérculos de batata são escuras, deprimidas, circulares a irregulares, com bordos de cor púrpura ou bronzeada. A polpa sob a lesão é seca, coriácea e de cor amarela a castanha.

O aumento de suscetibilidade à pinta-preta está geralmente associado a tecidos que tenham alcançado a maturidade, ou seja, plantas em período de floração, frutificação ou formação de tubérculos. Durante esta fase, ocorre uma demanda maior de açúcares e nutrientes para a formação de frutos e tubérculos, em detrimento da folhagem, o que favorece o processo infeccioso em órgãos exportadores. Por este motivo, os sintomas aparecem primeiramente nas folhas mais velhas e evoluem, posteriormente, para as partes mais altas da planta.

A ocorrência de epidemias severas da doença está associada a temperaturas na faixa de 25 a 32º C e elevada umidade. O fungo Alternaria solani sobrevive entre um cultivo e outro em restos de cultura infectados e solanáceas suscetíveis, podendo sobreviver ainda em equipamentos agrícolas, estacas e caixas usadas ou mesmo nas sementes. Além destas formas de sobrevivência, existe a possibilidade de o patógeno permanecer viável no solo na forma de micélio, esporos ou clamidósporos. Os conídios caracterizam-se por serem altamente resistentes a baixos níveis de umidade, podendo permanecer viáveis por até dois anos nestas condições. Uma vez presentes na cultura, são dispersos pela ação da água, ventos, trabalhadores, equipamentos, insetos e pelo contato e atrito entre folhas sadias e infectadas. Havendo umidade e calor suficientes, os conídios germinam e infectam as plantas rapidamente, podendo o fungo penetrar diretamente pela cutícula ou através de estômatos. A colonização é intercelular, invadindo tecidos do hospedeiro, e provoca alterações em diversos processos fisiológicos, que se exteriorizam na forma de sintomas. Em condições de campo, as lesões surgem 3 a 5 dias após a inoculação, todavia em condições controladas, pontuações negras podem ser verificadas 24 horas após a inoculação

Jesus G Töfoli,
APTA/Instituto Biológico

* Este artigo foi publicado na edição número 24 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de fevereiro/março de 2004.

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