Controle de plantas daninhas em soja, milho e algodão

Plantas daninhas são um dos grandes problemas verificados em sistemas de produção de culturas como soja, milho e algodão. Para manejá-las é indispensável que agricultores e técnicos elaborem um plano de ação que considere as diferentes alternativas de controle e épocas de aplicação, com a integração de métodos como o combate químico e cultural. 

A presença de plantas daninhas causa interferência nos cultivos através da competição com fatores essenciais à produção, como luz, água, nutrientes, espaço e CO2. Essa competição pode promover sérios prejuízos no rendimento das culturas, por essa razão, infestantes devem ser eficazmente manejados para permitir que a cultura expresse seu máximo potencial produtivo.

No foco de produção e manejo, é necessário ampliar a compreensão sobre outras importantíssimas características das plantas daninhas, como facilidade de adaptação e disseminação em diferentes ambientes, grande tolerância aos diversos métodos de controle, alta produção de propágulos, sobrevivência aos estresses e intempéries, a desvalorização que promovem nas propriedades, além de possuírem alta capacidade de sobrevivência.

Ao mesmo tempo, daninhas dificultam os mais variados tratos culturais, pois podem promover o efeito “guarda-chuva” ou reter caldas de inseticida ou de fungicidas quando presentes, desenvolvendo-se junto aos cultivos, além de reduzir a velocidade de colheita e exigir maior potência das automotrizes, o que gera aumento do consumo de combustível, crescimento de impurezas, umidade dos grãos e redução da sua qualidade. Manejar/controlar plantas daninhas é importante para garantia da produtividade. 

Para manejar daninhas, podem ser utilizados métodos preventivos, biológicos, controle mecânico manual (arranquio ou enxada), controle mecânico tratorizado através de roçagens, arações, gradagens, controle cultural com uso de coberturas vegetais, aproveitando os efeitos dos compostos químicos liberados no ambiente, denominados de alelopáticos ou, ainda, os efeitos físicos dessas coberturas, onde há a supressão significativa de inúmeras espécies vegetais. Além dessas estratégias de manejos, a partir da metade do século passado teve início o uso de uma tecnologia moderna através do emprego de substâncias químicas sintéticas denominadas de herbicidas. 

No entanto, até o final dos anos 70 e início dos anos 80 eram ainda escassas as quantidades de ativos químicos com espectro de ação, modalidades de uso e seletivos que pudessem atender a todas as expectativas no segmento plantas daninhas, cultivos e manejos. Mesmo com adoção de tecnologia moderna, os ativos existentes possuíam limitações em tipos de solo, em espectro de ação para as infestantes e seletividades aos cultivos, poucas opções quanto à modalidade de uso e ainda escassez de informações. 

No início da década de 70, com a descoberta do herbicida glifosato e de outros herbicidas, com amplo espectro de ação para controle de maior número de infestantes, utilizados nos mais diferentes cultivos e com alta seletividade, realmente o cenário tornou-se mais otimista, promovendo melhor harmonia nos sistemas de produção, sendo menos predatório. Mas os reclamos quanto aos custos ainda eram presentes.

Um fato marcante após os anos 80 reside no aumento vertiginoso do sistema de cultivo sem revolvimento de solo, denominado de sistema de plantio direto. A partir de então se passou a contar como papel supressor das diferentes coberturas na supressão de inúmeras infestantes, redução ou eliminação total da erosão, melhoria nas características físicas e químicas do solo, melhor otimização das máquinas e por que não dizer uma agricultura mais limpa e sustentável. Mas os custos altos dos herbicidas ainda estavam inseridos, impedindo a adoção dessa tecnologia pela maioria dos agricultores.

A patente da molécula glifosato expirou, no início da década de 90, e possibilitou a extensão das áreas com plantio direto, favorecendo o uso intensivo de alguns herbicidas com um mesmo mecanismo de ação, o que levou à seleção de biótipos resistentes, a exemplo do picão-preto, amendoim-bravo e nabo.

A partir de 1995, mundialmente iniciou-se a utilização de novas tecnologias, mas, desta vez, não mais com novos ativos e sim com culturas geneticamente modificadas, com resistência ao herbicida glifosato, em especial a soja, o milho e o algodão. Observou-se o uso indiscriminado, repetitivo deste herbicida em praticamente todas as modalidades de aplicação antes e durante a implantação dos cultivos de soja, milho, algodão e ainda em cultivos perenes, tais como fruticultura, café  e  reflorestamentos, e assim os demais herbicidas com os  diferentes mecanismos de ação deixaram de ser aplicados, pois a tecnologia mostrava ser eficaz, de  fácil uso e baixo custo.

Passaram-se poucos anos desde o lançamento oficial da soja RR no Brasil, até a seleção de biótipos resistentes ao glifosato. No Brasil, a primeira espécie registrada foi o azevém (2001), depois a buva (2004), o capim-amargoso (2008) e recentemente o capim-de-rhodes.Fatos marcantes são as expressões e comentários de técnicos e produtores ao relatar que de um ano para o outro houve a invasão de biótipos resistentes de buva e/ou amargoso,  nas áreas em que no ano anterior havia apenas algumas plantas, contrariando o observado quando da disseminação de picão-preto e amendoim-bravo. Este fato pode ser explicado pelas características biológicas das espécies, onde uma planta de picão-preto pode produzir em torno de seis mil sementes e o amendoim-bravo em torno de 300 a 500 sementes, e por não serem facilmente disseminadas pelo vento. Por outro lado, uma planta de buva pode produzir mais de 200 mil sementes, enquanto o capim-amargoso gera em torno de duas mil sementes/panícula, até 30 panículas/planta, podendo resultar de 20 a 60 mil sementes por planta, além de serem facilmente disseminadas pelo vento

A presença de azevém, buva e capim-amargoso requer muita atenção, pois pode empurrar alguns agricultores  de volta às práticas mecânicas para controle, através da aração e gradagem, utilizadas para reduzir os custos. Tudo isso dentro de uma percepção equivocada de que o gasto se resumiria apenas a combustível, sem incluir a amortização de máquinas, custos de horas de trabalho e baixo rendimento, eficácia do método (que nem sempre responde ao total do investimento direto e indireto) e ainda a não garantia da eficácia efetiva, além dos impactos negativos nas características químicas e física do solo, a erosão e as perdas de  toneladas de solo fértil que resultam na inviabilização do ambiente sustentável.

Resultados de pesquisa mostraram haver inúmeras alternativas de controle químico com aplicações de herbicidas para buva resistente, tais como chlorimuron, diclosulam, 2,4-D, associados com aplicações sequenciais, de paraquat ou glufosinato ou saflufenacil. Plantas com até 10cm de altura são mais facilmente controladas que as mais desenvolvidas.

O controle da buva, assim como das demais espécies, deve começar logo após a colheita do milho safrinha e continuar até a semeadura da soja. Quando o milho safrinha é conduzido no sistema santa-fé, na presença de brachiária consorciada, promove a redução da presença da buva. O mesmo ocorre em áreas cultivadas com os cereais de inverno.

Para o manejo de capim-amargoso existem três cenários. O primeiro se refere à presença de plantas oriundas de sementes em estádios inferiores ou iguais a 30cm, em que o uso de herbicidas graminicidas de pós-emergência específicos são eficientes. O cenário mais complexo ocorre em plantas adultas em pleno florescimento. Para este caso, pode ser adotada a prática das roçagens e quando os rebrotes atingirem em torno de 30cm a 40cm, a aplicação dos herbicidas graminicidas específicos mostrou-se eficiente, embora nesses casos possam ocorrer alguns escapes. 

Para o terceiro cenário, o mais comum são as plantas adultas sem uso de roçadeiras, onde será necessária a aplicação de herbicidas graminicidas específicos, em torno de 30 a 60 dias antes da semeadura da soja, em modalidade denominada aplicação de manejo em pré-semeadura. Para esta situação somente o ativo cletodim encontra-se registrado. Deverão ser adequadas as doses, em geral associadas ao herbicida glifosato. Uma única aplicação não elimina as touceiras, e se ocorrer a semeadura em torno de 25 dias depois da aplicação, pode ser necessário, após a emergência da soja, ser aplicados herbicidas graminicidas pós-específicos, desde que registrados. Mas, se ocorrerem ainda novos rebrotes, o controle mecânico manual pode ser efetuado, preparando a área para a implantação da cultura do milho safrinha.

No caso da presença de capim-amargoso, buva e de outras folhas largas, a inclusão do herbicida 2,4-D torna-se uma prática comum, associada ao glifosato e aos graminicidas.  A aplicação sequencial com herbicidas à base de paraquat ou glufosinato promove maior rapidez na dessecação do capim-amargoso, facilitando o plantio. É possível, ainda, aplicações de glifosato associadas ao cletodim e ao saflufenacil na presença de buva com até 40cm e capim-amargoso. Resultados demonstram que aos 20 dias da primeira aplicação, a associação do glifosato e graminicida ACCase ao saflufenacil promoveu controle adequado da buva e atrasou de forma significativa o rebrote do capim-amargoso após a semeadura da soja. Quando realizada aplicação em pós da soja com graminicida pós-emergente específico, o controle foi bastante efetivo. Tem sido discutidos os possíveis efeitos antagônicos dos herbicidas 2,4-D em inibidores de ACCase, o que de fato ocorre, mas pesquisas têm mostrado que a intensidade depende do produto, das condições climáticas, estádios, densidade  e distribuição das touceiras do capim-amargoso. Os resultados preliminares mostraram que há diferentes respostas dos diversos ativos ACCase quando utilizados isolados para o capim-amargoso e ao mesmo tempo vários níveis de antagonismos, podendo nesta mesma planta daninha chegar a um decréscimo de controle de até 50%.  O ativo Cletodim mostrou ser o menos afetado. Em alguns resultados não foi significativo quando aplicado isolado e quando associado. Quando houve antagonismo o índice verificado foi sempre abaixo de 15%. 

Uso de pré-emergentes 

O uso dos herbicidas pré-emergentes está relacionado com a redução do banco de semente e a prevenção à seleção de biótipos resistentes aos inibidores da ACCAse. Também busca evitar perdas pela matocompetição inicial e a possibilidade de reduzir uma aplicação de glifosato ou melhorar o controle de espécies tolerantes. Desta forma, de acordo com o histórico de cada área, poderá ser realizada a escolha dos mais diferentes ativos, cada qual com seu espectro de ação

Plantas daninhas são um dos grandes problemas em sistemas de produção. Mas existem soluções, por isso é indispensável que os agricultores eos técnicos elaborem e utilizem um plano de ação de manejo das plantas daninhas, levando em conta as diferentes alternativas de controle e épocas de aplicação, e integrando o controle químico com outros métodos, especialmente o controle cultural.

Manejo pré semeadura
Manejo pré-semeadura
Manejo pós-semeadura
Manejo pós-semeadura
Possíveis sobras ou rebrotes
Possíveis sobras ou rebrotes


Donizeti Aparecido Fornarolli, Prof. Dr, Unifil-Londrina, PR.; Dionisio Luis Piza Gazziero, DR., Embrapa-Soja, Londrina, PR.; Dana Katia Meschede, Prof. Dra., UEL, Londrina, PR.; Benedito Noedi Rodrigues, DR., Iapar, Londrina, PR.


Artigo publicado na edição 192 da Cultivar Grandes Culturas. 

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