Controle de plantas daninhas na entressafra

O período de entressafra não serve apenas para ajudar na redução do banco de sementes de plantas daninhas, mas também para manejar algumas espécies de difícil controle como o capim-amargoso e a buva. Essas duas infestantes não devem ser combatidas por um produto, isoladamente, mas por um conjunto de ações e de herbicidas aplicados de forma sequencial. 

Há consenso de que para se obter um bom controle de plantas daninhas na cultura da soja é preciso estar atentos durante o ano inteiro. E o período da entressafra é o melhor momento para eliminar algumas espécies como buva (Conyza spp.) e capim-amargoso (Digitaria insularis).

A soja no Brasil é cultivada em grandes extensões territoriais, em diferentes regiões, cada uma com características bem diferenciadas quanto ao clima e ao regime hídrico, especialmente no período de entressafra. O Sul do Brasil, com suas diferentes microrregiões, caracteriza-se por apresentar temperaturas mais baixas nesse período, enquanto o Centro-Oeste destaca-se por ter um regime hídrico mais limitado e temperaturas mais altas. Independentemente das características das regiões e das suas condições de clima e solo, a entressafra é um momento propício para a multiplicação das plantas daninhas e para o aumento do banco de sementes no solo. Algumas microrregiões podem ter chuvas escassas a ponto de não permitir o cultivo ou o desenvolvimento de uma cultura de interesse econômico, mas pode ser o suficiente para a germinação e o desenvolvimento de algumas espécies de plantas daninhas. Para muitas espécies, como amendoim-bravo (Euphorbia heterophylla), picão-preto (Bidens spp.) e outras, trata-se de uma ótima oportunidade para reposição do banco de sementes, o que permitirá que expressem todo o seu potencial de interferência durante o período do verão.

Controlar plantas daninhas é de fundamental importância para a obtenção de altos rendimentos, tanto na soja quanto nas culturas de segunda safra, pois essas plantas podem interferir não só  na produtividade, mas também no coeficiente técnico de colheita, no  percentual de impureza e de umidade dos grãos.

A entressafra

O controle das plantas daninhas na segunda safra é tão importante quanto durante o cultivo da soja na safra principal. No período de pousio, entre o cultivo da segunda safra e a semeadura da soja da safra principal, ou mesmo no outono, ocorrem boas condições para a multiplicação das espécies infestantes. As sementes das plantas daninhas produzidas nessa época, somadas as já existentes no banco do solo, infestam a soja cultivada posteriormente com maior pressão do que nas áreas bem manejadas durante esse período. Embora altamente competitiva, a soja sofre os efeitos dessa convivência, pois normalmente o banco de sementes das plantas daninhas é suficientemente grande para anular sua capacidade competitiva.

Para demonstrar o efeito do potencial de incremento do banco de sementes de plantas daninhas no solo foi realizada uma simulação no período de entressafra em uma área de produção que aguardava a semeadura do trigo. A reposição do banco de sementes de picão-preto e amendoim-bravo foi analisada com base no número de plantas (m-2) e no número médio de sementes (m-2) produzidas pelas plantas presentes. Foram contadas 71 plantas m-2 de picão-preto e 33 plantas m-2 de amendoim-bravo. Após essa contagem, foi feito um cálculo, simulando que 80% das sementes produzidas estivessem aptas para germinar e que fossem feitas duas aplicações de herbicidas com 90% de eficiência. O aumento no banco de sementes seria de 1954 e 144 sementes m-2 de picão-preto e amendoim-bravo respectivamente. Essas espécies podem apresentar pelo menos 2 a 3 fluxos de germinação, o que permite uma reposição ainda maior ao longo do ano. Os resultados dão uma ideia da facilidade do aumento do banco de sementes, e indicam a importância de se preocupar com esse fator quando do estabelecimento de programas de controle de plantas daninhas. 

O manejo no período de entressafra  representa também, a oportunidade de se trabalhar a área no momento ideal para eliminar plantas invasoras como buva e capim-amargoso, pela oportunidade de se utilizar herbicidas e doses sem  riscos de fitointoxicacão da soja. Esse é o momento em que se pode utilizar produtos não seletivos como paraquate, paraquate + diuron, glifosato, 2,4-D, saflufenacil, glufosinato de amônia, além de ser possível combinar esses herbicidas com outros, com ou sem ação residual no solo. O número de aplicações e as doses a serem utilizadas variam em função da comunidade presente na área, e do estádio de desenvolvimento das plantas daninhas.

Aplicações sequenciais na entressafra têm proporcionado excelentes resultados, e são essenciais, principalmente, quando as espécies estão mais desenvolvidas. Em áreas com longo intervalo entre a colheita de uma cultura (como a do milho safrinha) e a semeadura da soja, a primeira aplicação pode ser feita cerca de 15 dias a 20 dias após a colheita do milho e a segunda antes da semeadura da soja.

Capim-amargoso

O grande desafio que os agricultores enfrentam com essa espécie se dá quando precisam manejar plantas adultas e entouceiradas. Nessas condições, o controle com uma aplicação única poderá deixar a desejar e permitir o rebrote das plantas. Resultados de pesquisas têm mostrado que o planejamento de aplicações sequenciais é fundamental para esses casos. O momento ideal para iniciar o controle do capim-amargoso é na entressafra, utilizando-se glifosato (normalmente destinado para eliminar outras espécies) e um graminicida pós-emergente (fundamental quando se tratar de biótipos resistentes ao glifosato). Herbicidas pré-emergentes também podem ser utilizados para evitar a emergência da sementeira. O programa pode ser complementado com herbicidas de contato para acelerar o controle ou para facilitar a semeadura na área. A realização de uma aplicação sequencial poderá ser necessária antes da semeadura da soja, se a eliminação não for total e ocorrer rebrota. Após a emergência da cultura e se houver a presença de plantas de capim-amargoso uma nova aplicação de graminicida deverá ser feita, só que agora em doses menores, pois as plantas novas com até 3 a 4 perfilhos apresentam maior sensibilidade. A aplicação de herbicidas em plantas roçadas mecanicamente ou pela barra de corte da colhedora só deve ser realizada quando as plantas apresentarem bom desenvolvimento vegetativo, com rebrota, de aproximadamente 30 cm de altura, e em condições climáticas adequadas. A altura de roçagem deve ser, preferencialmente, em torno de 10 cm.

O controle em áreas infestadas também com buva  pode envolver o uso de latifolicidas (como o 2,4-D) e graminicidas. Dependendo do graminicida, das condições de trabalho, do clima, da idade das plantas, do tamanho das touceiras e da dose utilizada, essa combinação pode resultar em problemas de incompatibilidade e diminuir a eficiência dos graminicidas (inibidores da ACCase).

Plantas adultas e entouceiradas representam o maior desafio de manejo do capim amargoso.
Plantas adultas e entouceiradas representam o maior desafio de manejo do capim amargoso.

Buva

A dificuldade de controle químico da buva está associada ao tamanho das plantas, principalmente quando estão acima de 10 cm, e quando a população é resistente ao glifosato. Em áreas com a presença de biótipos resistentes, deve ser feita a associação do glifosato com outros mecanismos de ação, como 2,4-D e/ou clorimuron, além de produtos residuais como diclosulam, imazaquim, metribuzin ou flumioxazin. Herbicidas com ação residual podem auxiliar na diminuição da emergência da infestante no período anterior a semeadura da soja. Essa aplicação pode ser complementada para controlar os escapes com o uso de dessecantes de contato não seletivos, como saflufenacil, paraquate +diuron, amônio glufosinato. É importante reforçar que a buva deve ser obrigatoriamente controlada antes da semeadura da soja, pois o seu combate na pós-emergência da cultura apresenta limitações, em razão da baixa eficiência dos herbicidas que podem ser utilizados para essa finalidade. É preciso estar alerta, pois já existem áreas infestadas com buva que apresentam resistência múltipla a inibidores da ALS + EPSPs. 

Azevém

A presença de biótipos de azevém resistentes ao glifosato, aos inibidores da ALS e ACCase representa grande impacto econômico e técnico para a agricultura brasileira. O glifosato possui custo baixo para o produtor e alta eficiência de controle, razão de seu uso intensivo. Já as moléculas iodosulfuron e nicosulfuron, inibidores da ALS, são importantes herbicidas usados na cultura do trigo e do milho, respectivamente e, por causa da resistência de biótipos do azevém aos herbicidas inibidores da ALS, esses herbicidas perderam a eficiência no controle dessa espécie. Da mesma forma, os inibidores da ACCase (clethodim, sethoxydim, entre outros) consistiam nas principais alternativas para controle de azevém, e agora não mais. Em situações de resistência simples ao glifosato, os produtos alternativos inibidores da ACCase (clethodim, sethoxidim, haloxifop, clodinafop entre outros) e os inibidores da ALS (iodosulfuron, nicosulfuron entre outros) são eficientes e, se aplicados de forma adequada, impedem que ocorram perdas de rendimento das culturas por competição. Já em situações de resistência múltipla (glifosato + ACCase ou glifosato + ALS) os herbicidas alternativos são  produtos não seletivos como o paraquate e paraquate + diuron para uso na dessecação pré-semeadura das culturas, com eficiência menor e possibilidade de perdas por competição por causa de falhas de controle.  

Milho voluntário

Na operação de colheita do milho safrinha é normal a ocorrência de perdas de grãos e espigas, que podem originar plantas voluntárias que competem com a soja cultivada em sucessão. Dessa forma, quanto menor a perda na colheita, menor será o problema. A germinação do milho voluntário pode ser desuniforme, dependendo se o grão está ou não desprendido da espiga, ou se está ou não enterrado ao solo. Isso pode resultar na necessidade do controle químico ser feito em mais de uma aplicação. No passado recente, o controle químico do milho voluntário era realizado com o herbicida glifosato, aplicado na operação de manejo de entressafra ou em pós-emergência da cultura da soja, nas cultivares RR. Essa aplicação não se mostra mais viável quando as plantas de milho voluntário são provenientes de híbridos também resistentes ao herbicida glifosato, cuja área de cultivo tem aumentado gradativamente. Por isso, a recomendação de controle químico do milho voluntário se baseia na aplicação de graminicidas pós-emergentes do grupo dos inibidores da ACCase.

Após a colheita do milho de segunda safra é preciso iniciar a eliminação das plantas daninhas da área.
Após a colheita do milho de segunda safra é preciso iniciar a eliminação das plantas daninhas da área.

Considerações finais

O período de entressafra não serve apenas para ajudar na redução do banco de sementes das plantas daninhas, mas também para manejar algumas espécies de difícil controle como o capim-amargoso e a buva. Essas duas infestantes não são controladas por um produto isoladamente, mas por um conjunto de ações e de produtos aplicados de forma sequencial. A disseminação de plantas daninhas resistentes aos herbicidas resultou em problema para o agricultor, tornando o controle mais trabalhoso e mais caro, podendo chegar, em alguns casos a aumento de 200% até 400% comparativamente as áreas sem esses biótipos. No entanto, existem práticas que podem auxiliar no controle, como o uso de culturas que produzem palhada na entressafra, especialmente as de trigo e aveia no Sul e as braquiárias no Centro-Oeste. A cobertura morta tem possibilitado a redução no uso de herbicidas em semeadura direta e diminuído a emergência das plantas daninhas entre 60% a 90% quando comparado com áreas não cultivadas na entressafra ou cultivadas com milho safrinha solteiro. 


Dionisio Luiz Pisa Gazziero, Fernando Storniolo Adegas, Alexandre Ferreira, Leandro Vargas, Decio Karan, Antonio Luiz Cerdeira, Elemar Voll, Embrapa


Artigo publicado na edição 207 da Cultivar Grandes Culturas.

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