Controle químico contra cigarrinha do milho

– Foto: Dirceu Gassen

Uma das mais sérias pragas de milho na América Latina, a cigarrinha Dalbulus maidis, além de perdas na produtividade tem poder de fogo para causar efeitos indiretos, através da transmissão de patógenos como viroses e enfezamentos. O controle químico, via tratamento de sementes e aplicação de inseticidas, é uma das ferramentas recomendadas para o combate ao inseto associada a um conjunto de medidas de manejo integrado.

O avanço tecnológico na cultura do milho no Brasil promoveu ganhos significativos em produtividade. O agroecossistema utilizado no Centro-Oeste é um ambiente favorável à multiplicação de pragas, pois prevalece sistema de produção em que se cultiva poucas culturas na grande maioria das áreas, muitas vezes sem a rotação e sucessão necessárias à maior diversidade de inimigos naturais. Desta forma, o cultivo sucessivo destas culturas faz com que muitas pragas se adaptem ao sistema. Aliado a isto outros fatores como condições climáticas favoráveis, altas temperaturas e inverno ameno tornam-se ideais para a multiplicação dos insetos.

A cultura do milho está sujeita ao ataque de diversos insetos desde a germinação à colheita. Dentre a diversidade de pragas, a cigarrinha do milho (Dalbulus maidis) (HEMIPTERA: CICADELLIDAE) teve sua ocorrência constatada no Brasil há vários anos e tem aumentado a frequência nas lavouras de milho em todo o país, causando danos significativos às plantas e exigindo ações de controle.

Este hemíptero, quando na fase adulta, mede de 3mm a 4,5mm de comprimento, sendo de coloração amarelo-palha. É frequentemente encontrado no cartucho do milho. O ovo, amarelado, apresenta um período embrionário em torno de nove dias, sendo colocado dentro dos tecidos das plantas, preferencialmente na nervura central da folha. As ninfas passam por cinco instares, por um período médio de 17 dias -20 dias. O ciclo completo varia de 23 dias a 40 dias. 

Plantas com enfazamento tendem a apresentar estrias amareladas nas folhas.
Plantas com enfazamento tendem a apresentar estrias amareladas nas folhas.
Plantas com enfazamento tendem a apresentar estrias amareladas nas folhas.
Plantas com enfazamento tendem a apresentar estrias amareladas nas folhas.

D.maidis se caracteriza por sugar a seiva, o que consequentemente resulta na diminuição do desenvolvimento das plantas. Outro fator importante é o efeito indireto através da transmissão de patógenos, sendo viroses e enfezamentos (corn-stunt). Ainda, ao sugarem a seiva, quando em altas populações, em alguns casos se pode observar a presença de fumagina nas folhas. Mas é importante salientar que outras pragas também levam a este sintoma na cultura.

Este inseto é considerado como uma das mais sérias pragas de milho na América Latina devido à sua capacidade de transmitir, de forma persistente e propagativa, o vírus da risca do milho (maize rayado fino vírus - marafivirus – MRFV) e dois molicutes associados aos enfezamentos, Spiroplasma kunkelii (corn stunt spiroplasma – CSS, também chamado de enfezamento pálido) e o fitoplasma (maize bushy stunt phytoplasina – MBSP, conhecido ainda como enfezamento vermelho) (NAUT, 1990) (OLIVEIRA et al, 2003) (MARTINS et al, 2008). Os prejuízos de modo geral levam a perdas médias em algumas regiões na ordem de 10% a 30% de produtividade. No entanto, pode se chegar a 100% de prejuízos com ataque das viroses e enfezamentos.

De modo geral a região Centro-oeste do Brasil apresenta uma grande diversidade de ambientes onde se observa áreas com cultivos de verão e 2ª safra (“safrinha”), áreas somente com o cultivo de verão, e áreas com até 2,5 safras (áreas irrigadas onde o produtor, em função do mercado, faz a escolha do período a semear a cultura do milho, diante da condição econômica).

Em regiões com sistemas de produção em que a cultura do milho é mais intensiva, tem-se observado aumento generalizado de D.maidis. 

A cigarrinha do milho apresenta ocorrência nas diversas fases da cultura. No entanto, pode ser considerada como uma praga inicial. É interessante relatar que na grande maioria dos casos, as altas populações têm ocorrido na fase inicial. Nesta fase é importante salientar que a planta de milho apresenta o seu colmo com menor diâmetro, e desta forma a cigarrinha consegue alcançar os vasos de condução de seiva (floema) com estilete. Consequentemente estes vasos são em parte obstruídos, causando menor desenvolvimento às plantas.  Plantas com enfezamentos (a forma como é chamada a planta com sintoma do ataque de D.maidis) tendem a apresentar estrias amareladas nas folhas, avermelhamento de folhas (iniciando pelo ápice e nas margens), amarelecimento, diminuição no porte da planta, ocorrendo também a diminuição no tamanho de espigas. As plantas adquirem normalmente os vírus e fitoplasmas na fase inicial, mas mostram os sintomas nas fases posteriores como pendoamento e mesmo próximo a colheita.

Vários estudos mostram que a planta, ao adquirir a doença na fase inicial, tende a mostrar maiores prejuízos, levando até mesmo a não produzir a espiga. Já foi observado em alguns casos no Brasil que, com este menor desenvolvimento as plantas tendem a cair em função do vento, levando a prejuízos por ocasião da colheita e a dificuldades para a operação mecanizada.  

Também são observadas diferenças entre materiais no mercado em função do ataque desta praga, devendo o produtor estar atento à opção daqueles com melhor desenvolvimento-estabelecimento de colmo, o que pode diminuir os prejuízos.

Além dos danos diretos e indiretos desta praga, vale salientar que ao promover menor desenvolvimento das plantas, o inseto pode provocar alterações no manejo da cultura, pois espaços com plantas menores favorecem a emergência de daninhas, que além de serem competidoras por recursos diminuem a produtividade e afetam também a qualidade dos grãos produzidos.

O crescente aumento da população de D.maidis pode ser explicada, em parte, pela presença de tigueras de milho. Muitas delas, em função da adoção da tecnologia de resistência a herbicidas, acabam sobrando após a aplicação, na cultura da soja, e consequentemente a praga aumenta sua população por conta desta oferta de alimento. Além do milho existem diversos outros hospedeiros para D.maidis, como cana-de-açúcar, sorgo e plantas daninhas: Eleusine indica (Capim pé-de-galinha), Digitaria horizontalis (Capim-colchão) entre outras. Algumas destas culturas e plantas daninhas podem ser hospedeiras de fitoplasma.

Área de soja com tigueras de milho RR no meio
Área de soja com tigueras de milho RR no meio.

No manejo integrado desta praga devem ser levados em consideração todos os aspectos, como a eliminação de hospedeiros, definição de épocas de semeadura, controle biológico e controle químico. Entre as estratégias químicas o tratamento de semente com os inseticidas neonicotinóides (imidacloprid, thiametoxan e clotianidina) tem promovido controle de parte da população, sendo muito importante no manejo por fazer o controle da primeira população migrante no cultivo. Esta estratégia tem mostrado eficiências até os 15 dias e 20 dias após a emergência da cultura. O tratamento de sementes é uma modalidade de aplicação que apresenta algumas vantagens, como preservar parte dos inimigos naturais, não afetando a dinâmica nas culturas. Porém, apesar de ser um método eficaz, é preciso ter em mente que mesmo com o uso do melhor inseticida é esperado um certo nível de ataque da praga, pois como a plântula encontra-se tratada, haverá a necessidade de consumo para que ocorra o controle.

Em trabalhos realizados por Martins et al 2008, onde tratamento 1- Imidacloprido 45 +Tiodicarbe 135 g/ ha em tratamento de sementes – (TS); 2- Tiametoxan 42 g/ ha (TS); 3-  Clotianidina 210 g/ ha (TS); 4- Acetamiprido 70 g/ ha (TS); 5- Cipermetrina 25 g/ ha em manejo na dessecação anterior a semeadura e 6- Tiametoxan 28 + Lamdacihalotrina 26,5 g/ha em aplicação aos 10 dias após emergência do milho (estádio V2) observou-se que o tratamento de sementes promoveu supressão da praga na ordem de 70% a 80% de controle, com os diferentes inseticidas disponíveis no mercado.  A aplicação de manejo anterior à semeadura com o inseticida em questão apresentou a menor contribuição no trabalho e a aplicação após a saída do milho proporcionou eficiências semelhante ao tratamento de sementes (gráfico 1). 

Gráfico 1 - Efeito de alguns inseticidas em D.maidis na cultura do milho. Porcentagem de controle nas diferentes modalidades de aplicações e inseticidas com suas respectivas doses em ingrediente ativo por hectare (Tratamento de Sementes – T1, T2, T3 e T4 – Manejo na dessecação anterior a semeadura - T5 e Pulverização na cultura do milho após a emergencia – T6). Fundação Chapadão. Chapadão do Sul/MS - Safra 2004/2005.
Gráfico 1 - Efeito de alguns inseticidas em D.maidis na cultura do milho. Porcentagem de controle nas diferentes modalidades de aplicações e inseticidas com suas respectivas doses em ingrediente ativo por hectare (Tratamento de Sementes – T1, T2, T3 e T4 – Manejo na dessecação anterior a semeadura - T5 e Pulverização na cultura do milho após a emergencia – T6). Fundação Chapadão. Chapadão do Sul/MS - Safra 2004/2005.

Outra estratégia são as pulverizações com inseticidas a fim de promover controle até as fases de V8-V9, onde a praga diminui os seus prejuízos. Estas pulverizações tendem a complementar a estratégia do tratamento de sementes, sendo fundamental para o controle de populações migrantes de outras culturas.

Grafico 2 - Efeito de alguns inseticidas em D.maidis na cultura do milho. Porcentagem de controle com 1 dia após a aplicação por diversos inseticidas com suas respectivas doses em ingrediente ativo por hectare. Fundação Chapadão. Chapadão do Sul/MS - Safra 2015/2016. G.84.
Grafico 2 - Efeito de alguns inseticidas em D.maidis na cultura do milho. Porcentagem de controle com 1 dia após a aplicação por diversos inseticidas com suas respectivas doses em ingrediente ativo por hectare. Fundação Chapadão. Chapadão do Sul/MS - Safra 2015/2016. G.84.

Se não houver a integração de todos os métodos será possível vencer uma batalha, mas não a guerra contra esta importante praga na cultura do milho.


Josiane Oliveira, Patricia Mariano, Germison Tomquelski, Fundação Chapadão 


Artigo publicado na edição 205 da Cultivar Grandes Culturas.

ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura