Controle químico da ferrugem asiática em soja

Com o registro do grupo químico carboxamida para auxiliar no combate à ferrugem asiática, produtor passa a contar com mais opções de mistura para manejar a doença, o que constitui excelente estratégia antirresistência para evitar ou retardar a perda de sensibilidade de fungos à aplicação de fungicidas. 

Apesar da ampla expansão, os sistemas de exploração da cultura da soja, em geral, ainda não são estáveis. Entre os diversos fatores que contribuem para as variações no rendimento, merecem destaque as doenças. Aproximadamente 40 doenças causadas por fungos, bactérias, nematoides e vírus já foram identificadas no Brasil.

Nesse contexto, a ferrugem asiática constitui-se na principal doença foliar da cultura da soja em todo o mundo. O primeiro relato da presença do fungo no continente Americano ocorreu no Paraguai em 2001, seguido de Argentina e Brasil na safra 2001/02, sendo que atualmente encontra-se presente em todos os estados produtores de soja.

Os sintomas iniciam-se nas folhas inferiores e são caracterizados pelo aparecimento de pontos de coloração cinza-esverdeada mais escuros que o tecido sadio da folha. No lado abaxial da folha, no local correspondente observam-se protuberâncias que são as urédias, onde encontram-se as estruturas propagativas do fungo, os uredosporos. Esses necessitam de seis a dez horas de molhamento foliar com temperaturas entre 15ºC e 30°C, sendo a ótima de 22°C para penetrar na planta. As urédias formam-se após o período de incubação do fungo de aproximadamente nove dias, enquanto os uredosporos são formados em três semanas.

O controle das doenças de plantas mais eficiente, duradouro e econômico é obtido pelo somatório de medidas de manejo disponíveis e nunca de uma prática isolada, sendo que para essa doença, as estratégias recomendadas são: a utilização de cultivares de ciclo precoce, as semeaduras no início da época recomendada, a eliminação de plantas de soja voluntárias, a ausência de cultivo de soja na entressafra (vazio sanitário), o plantio de cultivares resistentes e a utilização de fungicidas preventivamente ou no início dos sintomas. O controle químico de ferrugem asiática teve início no Brasil na safra agrícola de 2002/03, utilizando-se mistura de triazol + estrobilurina ou triazol isoladamente. A mistura de fungicidas, de forma geral, apresentava melhor eficiência de controle e maior rendimento da cultura quando comparada com fungicidas isolados. A partir da safra 2007/08 foi observada menor eficiência dos triazóis em ensaios realizados em semeadura tardia no estado do Mato Grosso. Isso ocorreu devido à seleção de população menos sensível do fungo a esse grupo químico, que provavelmente foi ocasionado pelo uso de fungicidas isolados, pela redução de dose do fungicida e pela aplicação com alta severidade da doença. A perda de sensibilidade do fungo causador da ferrugem asiática também já foi confirmada para as estrobilurinas na safra 2013/14, sendo que isso pode ser monitorado determinando-se a Concentração Inibitória (CI50) do fungicida, que é a quantidade em mg/L capaz de inibir 50% da germinação do esporo ou do crescimento micelial de um fungo. Comparando-se o valor da CI50 do fungicida azoxistrobina e da azoxistrobina + benzovindiflupyr (Figura 1), verificou-se que o primeiro apresentou valor 39 vezes maior do que para o fungicida contendo carboxamida. Isso é bastante preocupante, uma vez que muitos fungicidas registrados estão em mistura com o grupo químico estrobilurina, por isso o uso racional de fungicidas é fundamental.

Atualmente, o Brasil dispõe de 114 fungicidas de uso comercial com registro para a ferrugem asiática, sendo que 68% são triazóis isolados, 35% misturas de triazol + estrobilurina, 3% estrobilurinas isoladas, 2% de mistura de estrobilurina + carboxamida e os demais são mistura de triazol + estrobilurina + benzimidazol, triazol + benzimidazol. Apesar de registrada recentemente pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), o grupo químico carboxamida (ISDH) não é novo, sendo comercializado desde a década de 1960. Porém, as moléculas registradas para a cultura da soja são novas e, nos últimos anos, a pesquisa tem lhes dedicado atenção especial, devido à necessidade urgente de novos grupos químicos. Essa necessidade ocorre principalmente devido à perda de sensibilidade do fungo causador da ferrugem asiática aos grupos químicos de fungicidas utilizados por décadas. Quanto ao mecanismo de ação dos fungicidas, o grupo químico triazol (IDM) atua na integridade da membrana plasmática, alterando sua permeabilidade, sendo conhecido como inibidor da desmetilação do C-14 (IDM). De forma análoga, a triazolintiona inibe a biossíntese do ergosterol na propriedade intrínseca das membranas, sendo que inibe a síntese do ergosterol e possui em sua composição uma molécula de enxofre em ligação dupla ao anel aromático. Fungicidas do grupo das estrobilurinas e das carboxamidas interferem em diferentes processos na respiração. A estrobilurina atua no complexo III da cadeia de elétrons, esse se dá através da inibição da quinona externa da mitocrôndia (IQe), sendo que dessa forma, ocorre o bloqueio da respiração mitocondrial, paralisando a produção de ATP. Já a carboxamida (ISDH) inibe a oxidação da enzima succinato desidrogenase indisponibilizando a respiração, no entanto, age no complexo II da cadeia de elétrons na mitocôndria.

Nos últimos anos, em experimentos na Universidade Federal de Passo Fundo (UPF), foram avaliados programas de controle da ferrugem asiática tradicionais (contendo somente triazol + estrobilurinas) e novos (contendo triazol + estrobilurinas alternado com estrobilurinas + carboxamida) (Tabela 1). Devido à ausência de grupos químicos para fazer a rotação com o triazol e estrobilurina, o produtor somente poderia optar por utilizar um desses grupos químicos ou a mistura dos dois em todas as aplicações. Com o registro da carboxamida, o produtor agora tem a opção de usar a mistura de triazol + estrobilurina alternada com estrobilurina + carboxamida, sendo uma excelente estratégia antirresistência, podendo evitar ou retardar a perda de sensibilidade de fungos a fungicidas, análogo ao que ocorreu com o triazol e a estrobilurina.

Com relação à severidade da doença (Figura 2) avaliada no estádio R.5.5 (vagens entre 76% e 100% de granação), verificou-se que a menor severidade da doença foi para o tratamento 9, em que duas das quatro aplicações foram compostas pela carboxamida benzovindiflupyr. Para o controle da doença, os tratamentos contendo duas aplicações de carboxamida alternadas com triazol + estrobilurina, o 9 (benzovindiflupyr) e o 8 (fluxapiroxade) destacaram-se dos demais com os maiores valores de controle.

Para rendimento (Figura 3), verificou-se que o tratamento 9 (benzovindiflupyr) foi estatisticamente superior a todos os demais, seguido do tratamento 8 (fluxapiroxade) que não diferiu estatisticamente dos demais tratamentos com fungicidas. O menor valor para os tratamentos com fungicidas foi o 2 (quatro aplicações de piraclostrobina + epoxiconazol), fungicida em uso desde 2001. 

Portanto, devido aos valores baixos da CI50, valores elevados de controle e rendimento da cultura da soja, os novos programas de controle químico da ferrugem asiática devem conter o grupo químico carboxamida alternado com os grupos químicos triazol + estrobilurina, pois, além de ter um ótimo controle da doença é uma excelente estratégia antirresistência, podendo evitar ou retardar a perda de sensibilidade de fungos a fungicidas.



Carolina Cardoso Deuner, Gustavo Visintin e Giovani Pastre, Universidade de Passo Fundo


Artigo publicado na edição 189 da Cultivar Grandes Culturas. 


ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura