Corte seguro

Quando analisamos uma economia industrializada moderna, o produto motosserra está inserido no ciclo de produção e é parte fundamental do processo produtivo em diferentes setores, como siderurgia, indústria moveleira, agricultura e papel e celulose, entre outros.

A imagem negativa e anti-ecológica da motosserra dentro da sociedade brasileira contrasta com o papel importante que ela ocupa em atividades econômicas distintas, em todas as regiões do país.

Do uso como ferramenta doméstica, muito comum nos estados do Sul, onde é utilizada como uma ferramenta auxiliar de trabalho em construções e obras rurais, passando pelo uso no reflorestamento por grandes empresas florestais, nos estados do Sul e Sudeste, e chegando às atividades extratoras em mata nativa, no Norte e Centro-Oeste, a motosserra é empregada em escala produtiva, colocando o Brasil entre um dos grandes mercados mundiais deste produto.

Além do uso florestal, a motosserra adquire crescente importância no setor agrícola para limpezas de áreas, podas e produção de lenha, aumentando também seu uso nas cidades para o cuidado de parques e jardins, bem como nas atividades de bombeiros e outras ações de salvamento. Apesar da sua associação como responsável pela derrubada de nossas florestas, o real vilão na devastação das florestas é o fogo: o país perde sua reserva florestal nas queimadas para abertura de pasto e para agricultura tecnificada, muito comuns nas regiões Centro-Oeste e Norte.

Dados divulgados na mídia informam que são detectados 600 focos de incêndio por dia no estado do Pará, por exemplo. Isto decorre também da pobreza existente em nosso meio rural, onde não existem recursos financeiros para que o pequeno produtor possa adquirir uma motosserra e a partir daí, selecionar as áreas de corte e aproveitar melhor a matéria-prima florestal. A motosserra constitui-se na ferramenta mais difundida na atualidade, em toda atividade florestal mundial, sendo um equipamento indispensável nas operações de derrubada, desgalhe e traçamento, tanto em mata nativa quanto em reflorestamentos.

OPERAÇÃO DA MOTOSSERRA

Não basta somente comprar a primeira motosserra que se encontra e colocá-la para trabalhar, confiando apenas na sorte. São inumeráveis os casos em que estas máquinas, por seu desenho e construção muito especial, sofrem danos em pouco tempo, por desconhecimento das regras mínimas de manejo e manutenção. Outras vezes esta falta de conhecimento é o motivo da baixa durabilidade do produto: a motosserra não rende como esperado e o custo operacional é mais alto que o normal.

Por outro lado, o fato de a corrente de corte ter uma velocidade superior a 70 km/h, podendo cortar uma árvore em segundos, a faz extremamente perigosa, podendo levar a acidentes muito graves.

COMO COMPRAR

Ao escolher uma motosserra deve-se levar em conta os seguintes quesitos:

• Marcas e modelos disponíveis no mercado, suas características e prestígio.

• Tipos de máquinas segundo sua potência, cilindrada e se estão aptas a realizar o trabalho necessário.

• Existência de um eficiente serviço de manutenção e de peças de reposição. Mesmo nos modelos mais avançados e robustos, o desgaste do produto é grande devido às extremas condições de uso e um serviço de assistência técnica eficiente é fundamental.

• Desenho e acessórios que permitam oferecer maior segurança e proteção à saúde do operador.

• Tecnologia empregada no produto, visando aumentar a segurança do usuário.

• Diâmetros médios das árvores à cortar, a fim de eleger uma máquina com comprimento de sabre adequado.

• Peso da motosserra, para evitar fadiga desnecessária do operador e maiores riscos de acidentes.

• As peças de uso mais comum que se devem ser adquiridas junto com a motosserra.

• Os equipamentos e roupas de segurança que o operador deve utilizar.

OPERAÇÃO SEGURA

Os conhecimentos que seguem são necessários para tornar a operação segura:

• Os elementos e sistemas da máquina, suas características e especificações.

• O funcionamento normal de seus sistemas e partes.

• A manutenção adequada e oportuna de seus sistemas e partes.

• A detecção e reparação de falhas mecânicas ou elétricas simples.

• A técnica de afiação da corrente.

• Sua correta operação e normas de segurança para prevenir acidentes.

• Os riscos que encerra seu uso e como preveni-los.

• As técnicas corretas para realizar as diferentes operações.

Os acidentes no trabalho florestal podem ser causados pelas motosserras ou pela floresta. Além destes acidentes, existem as enfermidades ocupacionais, devido principalmente a posição de trabalho, ruído e vibrações.

ACIDENTES DE CORTE

Uma das causas de acidentes mais freqüentes é o rebote ou retrocesso da motosserra conhecido em inglês como “kick back”. Quando a corrente desliza ao redor da ponta do sabre, se desloca mais ou menos perpendicular ao eixo do sabre. Se neste momento, a ponta entrar em contato com a madeira ou um ramo, ocorre o rebote da motosserra que pode alcançar então os ombros, perna ou outra parte do operador. Ao recorrer à parte superior da ponta do sabre, a corrente não pode cortar eficientemente: somente um ou dois dentes cortantes atacam a madeira, fazendo com que a potência da corrente em movimento ocasione um movimento violento da lâmina em direção ao operador. Este movimento se produz em fração de segundo, impossibilitando a defesa do operador. Mesmo com o uso de equipamentos de segurança, o resultado pode ser fatal.

Por tal razão, é muito perigoso cortar com a metade superior da ponta do sabre. Se por qualquer motivo houver necessidade de usar esta parte do sabre, inicie o corte com a parte inferior da ponta do sabre e com alta velocidade ao entrar na madeira.

As seguintes precauções contribuem para reduzir o perigo de rebote: 1) Não corte com a ponta, ou faça-o de forma segura; 2) Use uma motosserra com freio de corrente; 3) Esteja alerta ao rebote e observe a ponta do sabre; 4) Use calças de segurança; 5) Use correntes de segurança; 6) Use um sabre mas curto possível, que permite maior controle, e é menos provável que a ponta toque um ramo escondido; 7) Sustente o cabo anterior da motosserra com a mão esquerda com o polegar envolvendo-o; 8) Quando a altura de corte permite, apóie os cotovelos nos joelhos; 9) Finalmente, relembre que a melhor forma de evitar o rebote é estar atento às circunstâncias em que se produz e evitá-las.

Outra causa de acidente é a aproximação ou afastamento produzidos pelas motosserras quando desramamos ou traçamos, ambos provocados pela instabilidade de posicionamento do operador, baixa velocidade de corte ou fraca sustentação do equipamento.

A ruptura da corrente também pode produzir graves acidentes, se atingir o corpo ou mãos do operador. Para evitar estes acidentes as motosserras modernas, como os modelos produzidos pela Husqvarna, possuem um pino pega corrente e uma proteção para mão direita. As causas da ruptura da corrente são geralmente devido à falhas de manutenção, excesso de tensionamento e lubrificação da corrente.

Outra situação de risco se apresenta quando a máquina é acelerada involuntariamente, mas as modernas motosserras possuem dispositivos que impedem tal ato.

ENFERMIDADES OCUPACIONAIS

Já são muitos os riscos devidos aos elementos cortantes, mas a motosserra

apresenta outros que atentam contra a segurança e a saúde. Talvez mais perigosos, porque não são vistos e seu efeito é lento, mas irreversível, são o ruído e a vibração.

Ruído - O ruído produzido pela motosserra em funcionamento supera o tolerável pelo ouvido humano, afetando os terminais auditivos, provocando a perda da audição ao se expor durante tempo prolongado ao efeito da pressão sonora. O uso de protetores acústicos é norma de segurança e demonstra seriedade no trabalho com motosserras.

Vibração - A vibração produzida pela motosserra afeta os vasos capilares produzindo problemas de circulação do sangue. Uma exposição prolongada pode ocasionar a enfermidade conhecida como “dedos brancos” e traduz-se em perda da sensibilidade nas mãos, podendo ocasionar acidentes fatais, já que o usuário não tem a sensação de fadiga até o momento em que há perda de força para segurar a motosserra. Mesmo em modelos com redutores de vibração, recomenda-se intercalar períodos de descanso com os de trabalho.

As motosserras modernas dispõem de sistemas anti-vibratórios (amortecedores) que diminuem consideravelmente as vibrações nos cabos. Um exemplo é o sistema Low-vib, utilizado em todos os modelos de motosserras e em alguns modelos de roçadeiras produzidos pela Husqvarna.

OUTROS RISCOS

Posição do corpo - Uma posição correta do corpo garante significativa redução de esforços, fadigas e acidentes na atividade florestal. Devemos utilizar mais braços e principalmente pernas em detrimento do uso da coluna vertebral como alavanca de esforços.

Perigos do combustível - A gasolina é um produto muito inflamável, em contato com faíscas ou fonte de calor é início de incêndios muito rápidos. Para reduzir esses riscos, aconselhamos: a) Espere algum tempo antes de abastecer a motosserra; b) Arranque a máquina longe do local do abastecimento, c) Cuide para não derramar combustível no solo ou em suas roupas; e d) Não fume ao abastecer. Como vimos, a operação segura de motosserras e roçadeiras depende de inúmeros fatores. O treinamento para operação em florestas, principalmente em mata nativa, é de fundamental importância. Um usuário leigo ou pouco treinado jamais deve operar nestas condições: o risco de acidentes fatais é alto.

No caso de roçadeiras, por ser um produto aparentemente mais simpático e
que requer menos habilidade para uso, a situação se complica: em muitos casos, vários operadores trabalham em uma mesma área, não respeitando a distância de segurança (a Husqvarna recomenda 5 metros de distância entre cada operador). A falta de inspeção prévia do terreno pode ocasionar o arremesso de detritos, o que, nos casos graves, pode ocasionar a perda de visão (uma pedra pode ser lançada a 80 km/h contra o rosto de um operador).

O uso de equipamentos de proteção nunca deve ser descartado, independente da habilidade do usuário e das condições do local. Isto vale tanto para motosserras quanto para roçadeiras. E por último, ao escolher o produto adequado, o consumidor deve procurar uma loja especializada e informar-se sobre qual o modelo adequado e quais marcas agregam tecnologia de segurança passiva e ativa, como sistema anti-vibratórios, freios de corrente, protetores de mãos, sistemas de freio por inércia, válvulas descompressoras (facilitam a partida, minimizando o esforço e aumentando a vida útil do sistema de arranque), catalisadores para controle da emissão de gases e uma preocupação com a ergonomia aplicada, o que resulta em produtos mais confortáveis e fáceis de operar.

João Rocha e José Alves Lafayette
Electrolux do Brasil S.A.

* Este artigo foi publicado na edição número 07 da revista Cultivar Máquinas, de janeiro/fevereiro de 2002. ver mais artigos