Cuidados com a utilização da colhedora de cana

Com a legislação que proíbe a queima da cana-de-açúcar, as usinas precisam estar atentas a todas as mudanças que a colheita da cana crua exige. O corte, processamento, carregamento e transporte da matéria-prima sofreram grandes modificações com o novo sistema e exigem atenção.

Até recentemente, o sistema de colheita predominante era o semimecanizado, que ocorre com a queima prévia da cana-de-açúcar. Nesse sistema, o corte é manual e o carregamento da cana inteira nos veículos de transporte é realizado por meio de máquinas, denominadas carregadoras. Atualmente vem sendo adotado o sistema de colheita mecanizado, que ocorre plenamente com a utilização de máquinas, desde o corte da matéria-prima até o carregamento dela.

O sistema semimecanizado faz uso do homem (cortador) em posse de foice/facão ou homem (operador) com máquina cortadora, após a cana ter sido previamente queimada, assim denominando de corte manual. Já o carregamento e transporte são mecanizados, utilizando-se de máquina carregadora, que realiza o carregamento da matéria-prima diretamente nos caminhões, que transportam a cana até a moenda da usina. Nesse sistema, predomina no País o espaçamento de cultivo em fileira simples, sendo de 1m na região Nordeste, de 1,5 e 1,8m na região Sudeste, porém, adota-se também o espaçamento duplo alternado, com maior predomínio na região Sudeste.

O sistema mecanizado realiza toda a colheita de cana crua, por meio de máquinas, utilizando-se da colhedora e do conjunto trator e transbordo. A colhedora realiza o corte e processamento (fracionamento e limpeza) da matéria-prima colhida, colocando-a no transbordo, que faz o carregamento interno no talhão e transborda a cana nos caminhões do sistema de transporte, localizado nos carreadores e, daí, a matéria-prima é conduzida até a moenda da usina. Esse sistema tem sido adotado não somente pela viabilidade operacional e econômica, que foi comprovada em estudos, como também devido aos aspectos legais, de ordem trabalhista e ambiental, que induzem a adoção da colheita mecanizada nas usinas do País. Severo & Cardoso (2009) e o Centro Nacional de Referência em Biomassa (2008) expressam essa determinação que está contida no protocolo agroambiental, que dispôs sobre o fim da queima da cana em áreas planas até 2014 e declivosas até 2017.

Para implantação do sistema de colheita mecanizado em uma usina, segundo Benedini & Donzelli (2007), deve ocorrer inicialmente a sistematização da área. Para isso, se faz necessário realizar o nivelamento pantográfico do terreno (altimetria), eliminando impedimentos, tais como pedras, paus, formigueiros, cupinzeiros e ajustar os talhões em formatos geométricos, a fim de aumentar o comprimento das fileiras de cultivo e reduzir as manobras de cabeceiras. O formato geométrico de talhão é considerado um dos fatores mais relevantes na sistematização, devido à influência direta no aumento da eficiência de campo (EFC) e no desempenho operacional do sistema de colheita mecanizado de cana. No entanto, demonstra ser mais viável, o formato geométrico retangular e a faixa sinuosa, por proporcionar um maior comprimento das fileiras de cultivo, Figura 1.

Figura 1 - Formatos geométricos de talhão: 1a - Retangular; 1b - Faixa sinuosa. (Figura esquerda A e figura direita B)
Figura 1 - Formatos geométricos de talhão: 1a - Retangular; 1b - Faixa sinuosa. (Figura esquerda A e figura direita B)

Quanto à compactação no solo pelo sistema de colheita mecanizado de cana, segundo Benedini & Donzelli (2007), o nível de compactação causado tem sido inferior ao do sistema semimecanizado. Dentre as máquinas do sistema de colheita mecanizado, a colhedora de esteiras apresenta menor compactação em relação à de pneus, da mesma forma, ocorre com o transbordo, que utiliza pneus de alta flutuação e também provém menor nível de compactação, quando comparado aos caminhões, que são utilizados no carregamento e transporte da cana no sistema semimecanizado.

Na colheita mecanizada do País são adotados espaçamentos de cultivo em fileira simples de 1m, comum na região Nordeste e, na região Centro-Sul, de 1,4m e 1,5m, sendo este último o mais predominante. Segundo Benedini & Conde (2008) o espaçamento de 1,5m é o adequado, porque a colhedora não pisoteia as fileiras de cana, enquanto que no espaçamento de 1,4m ocorre o pisoteio e choque mecânico do transbordo com o elevador da colhedora. Há certo tempo, as usinas também têm adotado o espaçamento duplo alternado de 2,4m e 2,5m onde a cana é colhida com máquina de duas linhas.

A colheita mecanizada tem enfrentado dificuldades no que diz respeito ao aspecto agronômico da perda de matéria-prima no campo, que em muitos casos não é oriundo apenas da colhedora, mas sim da variedade cultivada. Isso tem sido um gargalo que as usinas vêm enfrentando, devido à falta de variedades com predominância de porte ereto e aptas (recomendadas) às diversas condições impostas para a colheita mecanizada, como topografia do terreno, espaçamentos de cultivo, velocidade de operação e outras. Entretanto, ainda sobre o tal gargalo, segundo Santos et al (2015) é certo ser sanado, com agricultura de precisão, através de um monitor de produtividade para colhedora de cana.

No estudo realizado por Santos et al (2014) comprovou-se que a colheita mecanizada em espaçamento duplo, que utiliza máquina de duas linhas, apresenta melhor desempenho operacional e econômico em relação à de uma linha, pois trafega menos e processa mais matéria-prima. Todavia, aumenta a capacidade de campo operacional (ha/h), de produção operacional (t/h), reduz a distância total trafegada no talhão, de forma que diminui o custo com o combustível, reparo e manutenção. Ao final, a colhedora de duas linhas proporciona um menor custo operacional (R$/ha) e produção operacional (R$/t).

Portanto, o sistema de colheita mecanizado também tem mostrado uma grande virtude quanto ao semimecanizado, pois o palhiço de cana que é deixado no campo pela colhedora serve também para aumentar a produção energética da usina para as concessionárias de energia elétrica da localidade. Ademais, como as usinas já fazem uso do bagaço de cana para a produção energética, tem-se despertado, ainda mais, o interesse do setor sucroalcooleiro quanto à cogeração de energia com palhiço.

As máquinas utilizadas no sistema de biomassa, que são destinadas ao recolhimento do palhiço de cana para a cogeração, são o ancinho enleirador, a enfardadora e a carreta recolhedora, todos do tipo tratorizados, sendo apenas os caminhões de transporte do palhiço do tipo motorizado. O ancinho enleirador tem a finalidade de enleirar, colocar em linha o palhiço que foi deixado no talhão pela colhedora, enquanto que a enfardadora tem por função enfardar o palhiço enleirado, em fardos prismáticos ou cilíndricos, e a carreta recolhedora, de encaminhar os fardos prontos para o carregamento nos caminhões, que os transportam até a fornalha da usina.

Contudo, o sistema de colheita mecanizado é uma nova era na mecanização canavieira em relação ao sistema semimecanizado, de modo que exigirá das usinas um conhecimento avançado sobre mecanização agrícola, com a adoção de métodos de gestão para o planejamento e gerenciamento das máquinas, como também dos equipamentos do sistema de biomassa.

O sistema mecanizado realiza toda a colheita de cana crua, por meio de máquinas, utilizando-se da colhedora e do conjunto trator e transbordo.
O sistema mecanizado realiza toda a colheita de cana crua, por meio de máquinas, utilizando-se da colhedora e do conjunto trator e transbordo.
O sistema mecanizado realiza toda a colheita de cana crua, por meio de máquinas, utilizando-se da colhedora e do conjunto trator e transbordo.
O sistema mecanizado realiza toda a colheita de cana crua, por meio de máquinas, utilizando-se da colhedora e do conjunto trator e transbordo.


Neisvaldo Barbosa dos Santos, UFPI; Casimiro Dias Gadanha Júnior, Esalq/USP


Artigo publicado na edição 159 da Cultivar Máquinas. 


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