Cuidados com o manejo de nematoides

A escolha de culturas para rotação ou sucessão deve levar em conta a presença de pragas de solo, como o nematoide das lesões radiculares Pratylenchus brachyurus. O uso de plantas suscetíveis, ao longo de cada ano agrícola, poderá contribuir significativamente para o aumento populacional na área, além de favorecer interações com outros microrganismos parasitas.

Atualmente, as novas tecnologias utilizadas na agricultura, têm contribuído significativamente para o aumento da produção de alimentos. Este cenário deve-se aos inúmeros investimentos realizados por empresas de vários segmentos agrícolas que buscam, de modo insistente, gerar soluções aplicáveis aos principais problemas existentes no campo, relacionados à ocorrência de pragas e doenças, que colocam em risco a produção. Neste contexto, podem ser agrupados problemas que ocorrem na semente, raízes e parte aérea das plantas.

Raízes de plantas de feijão com sintomas do ataque de nematoides.
Raízes de plantas de feijão com sintomas do ataque de nematoides.

Se forem analisados apenas os organismos que podem atacar as raízes das plantas, já há motivo para preocupação, pois as soluções para estes problemas, geralmente, passam por medidas conjuntas de extremo sincronismo. Nos últimos anos, a incidência de nematoides tem sido crescente, o que potencializa problemas de incidência de outros patógenos de solo, a exemplo dos fungos, acarretando anualmente frequentes perdas de diversas magnitudes. Como a sintomatologia pode ser variada, em função da complexidade da interação das espécies de fitonematoides e das culturas, diversos problemas observados acabam, erroneamente, atribuídos a outros fatores, minimizando algo que na verdade tem dimensões preocupantes. Um exemplo bem claro desta dimensão é a incidência do nematoide das lesões radiculares Pratylenchus brachyurus que, de acordo com estudos recentes, apresenta-se amplamente disseminado por vários estados produtores. Microrganismo biotrófico (depende exclusivamente das raízes das plantas para completar seu ciclo biológico) possui um alto grau de polifagia, (capacidade de parasitar um vasto número de plantas de diferentes famílias botânicas), atrelado ao seu hábito de parasitismo (endoparasita migrador). Alimenta-se, nos estádios iniciais de desenvolvimento, das plântulas causando inúmeras lesões que servem de porta de entrada para fungos parasitas de solo, infectam concomitantemente as radicelas e acabam por comprometer o desenvolvimento das plântulas e o estande inicial. Esse processo, de maneira geral, causa interferência nos processos fisiológicos da planta, compromete a absorção e translocação de nutrientes e reduz, posteriormente, a produtividade. Cuidados na rotação ou sucessão de culturas devem ser seguidamente analisados, pois trata-se de um microrganismo extremamente polifago que é dependente restritamente da planta para seu desenvolvimento. O sequenciamento, sem o devido cuidado, poderá potencializar o aumento desta praga de solo, ao longo dos anos.

Em 2015 todas as plantas coletadas nos pontos de amostragem apresentaram um quadro um pouco mais severo de sintomas que no ano anterior.
Em 2015 todas as plantas coletadas nos pontos de amostragem apresentaram um quadro um pouco mais severo de sintomas que no ano anterior.
Em 2015 todas as plantas coletadas nos pontos de amostragem apresentaram um quadro um pouco mais severo de sintomas que no ano anterior.
Em 2015 todas as plantas coletadas nos pontos de amostragem apresentaram um quadro um pouco mais severo de sintomas que no ano anterior.

Embora este problema tenha sido alertado por muitos pesquisadores e instituições de pesquisa, o reflexo disso são os inúmeros casos, onde o potencial produtivo depende do bom convívio com esta praga de solo. Vale lembrar que a sua erradicação ou eliminação, quando estabelecida em quaisquer áreas de cultivo a níveis de dano, é praticamente impossível, principalmente pela questão dos custos ou pelo tempo de operacionalização.

Para melhor entender a dinâmica populacional do nematoide das lesões radiculares, Pratylenchus brachyurus em diferentes cultivos, o Instituto Phytus, em sua sede localizada no município de Planaltina, Distrito Federal, acompanhou uma lavoura de cultivo comercial de grãos (latitude 15°39'39.5"S, longitude 47°20'24.2"W e altitude média de 875m), com histórico da ocorrência deste nematoide desde o ano de 2014. O trabalho tem por objetivo observar o comportamento populacional deste nematoide, em diferentes cultivos ao longo de cada ano. Realizaram-se coletas de solo e raízes durante os anos de 2014 e 2015. Os pontos escolhidos para amostragem foram partes da lavoura, expressando os sintomas típicos do ataque deste nematoide, como “reboleiras” sobre a cultura do feijão. Estes pontos foram devidamente marcados, através de coordenadas geográficas. Realizadas as coletas, as amostras foram encaminhadas ao laboratório da Estação Experimental do Instituto Phytus, no Distrito Federal, onde foram realizadas as extrações e quantificações da população presentes no solo e nas raízes, nos anos de 2014 e 2015 (Figura 1). 

Figura 1 – Sequencia de cultivos implantando durante as safras de verão e inverno nos anos de 2014 e 2015.
Figura 1 – Sequencia de cultivos implantando durante as safras de verão e inverno nos anos de 2014 e 2015.

As contagens efetuadas no laboratório de nematologia do Instituto Phytus, apontaram um aumento gradual da população de P. brachyurus ao final de cada ano agrícola. Realizando uma média dos valores da população nos cinco pontos amostrados no ano de 2014, o número de 374 juvenis e 393 ovos evoluiu para 2776 juvenis e 1156 ovos no ano de 2015 (Gráfico 1). 

Gráfico 1 – Número de juvenis e ovos de P. brachyurus nos agrícolas de 2014/15.
Gráfico 1 – Número de juvenis e ovos de P. brachyurus nos agrícolas de 2014/15.

Analisado o sequenciamento de cultivo implantado pelo produtor no ano de 2014, observa-se que todas as opções de culturas ou plantas utilizadas (soja, feijão e milho) apresentaram suscetibilidade ao nematoide das lesões radiculares P. brachyurus, favorecendo desta forma o seu crescimento populacional no solo, o que explica o elevado valor diagnosticado no ano de 2015. 

Vale ainda ressaltar que, no ano de 2015, os sintomas em todas as plantas coletadas nos referentes pontos de amostragem apresentaram um quadro um pouco mais severo de sintomas que no ano anterior, observando um amarelecimento acentuado na parte aérea das plantas, seguido de forte subdesenvolvimento. Em função disso, realizou-se uma análise laboratorial nos tecidos de raízes e caule das plantas, onde foi identificada a presença do fungo de solo Fusarium solani f. sp phaseoli. Este fungo causa a podridão radicular seca, de grande importância na cultura do feijão e ocorre em praticamente todas as regiões produtoras do Brasil. Depois de instalado na cultura, apresenta estruturas de resistência na superfície ou enterradas no solo e possibilita a sobrevivência nos restos culturais de plantas hospedeiras, dificultando seu controle e manejo. O sintoma da podridão radicular seca é o aparecimento de lesões pardo-avermelhadas ou necróticas, com bordos bem delimitados nas raízes, levando à rápida deterioração dos tecidos localizados abaixo do nível do solo.

Lavoura de feijão com sintomas de reboleiras, típico do ataque de nematoides.
Lavoura de feijão com sintomas de reboleiras, típico do ataque de nematoides.

Sabe-se que a maioria dos nematoides parasitas de plantas podem predispor as plantas, mesmo que resistentes à ação de fungos fitopatogênicos habitantes do solo. Esta interação, embora complexa do ponto de vista de diagnose, deve ser um tanto comum em áreas onde exista a presença de ambos os patógenos, pois na maioria destes casos, os danos são atribuídos apenas a um dos agentes infecciosos. 

A rotação ou sucessão de culturas apresenta diversos benefícios. No entanto, a escolha das culturas utilizadas deve considerar a presença desta praga de solo. A utilização de plantas suscetíveis, ao longo de cada ano agrícola, poderá contribuir significativamente para o aumento populacional na área, com chances ainda de favorecer interações com outros microrganismos parasitas de solo.  


Janyne Moura dos Santos, Paulo Sergio dos Santos, Jéssika K. F. M. Lima, Iago Pereira Xavier, Instituto Phytus; Nédio RodrigoTormen, Univ. Federal de Brasília        


Artigo publicado na edição 210 da Cultivar Grandes Culturas. ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura