Cuidados na lubrificação de máquinas agrícolas

Máquinas e implementos agrícolas necessitam de lubrificantes específicos conforme as condições de uso e recomendações do fabricante.

A crescente demanda mundial por alimentos, aliada à expansão das áreas de cultivo, depende diretamente dos processos mecanizados, exigindo sistemas mecânicos cada vez mais complexos, visando atender os atuais padrões de produção.

Muitos destes sistemas compreendem mecanismos que, quando em funcionamento, trabalham sob atrito direto, devendo este ser reduzido por meio da lubrificação, prolongando, desta forma, a vida útil dos componentes e, por consequência, da máquina agrícola. Por se tratar de um dos principais itens que compõem a manutenção periódica, a lubrificação deve ser entendida e praticada para que sejam mantidas as características ótimas de funcionamento das máquinas e dos equipamentos agrícolas.

Como já mencionado, as superfícies de inúmeros componentes das máquinas agrícolas estão em constante contato umas com as outras e com movimento relativo produzindo atrito, gerando calor e, como consequência principal, o desgaste. Em função disso, a lubrificação visa reduzir o atrito entre os componentes dos sistemas das máquinas e dos equipamentos agrícolas, fazendo com que elas atinjam a durabilidade máxima para a qual foram projetadas, evitando assim a perda de rendimento e interrupção de seu funcionamento. Além de diminuir o atrito, a lubrificação possui, em determinados casos, a função de limpar e vedar alguns mecanismos, bem como arrefecer determinadas partes da máquina como, por exemplo, o óleo lubrificante presente nos motores de combustão interna.

Simplificadamente, os componentes que exigem lubrificação são engrenagens, articulações, correntes, pistões, eixos, árvores, bombas, rolamentos, mancais de atrito e mancais de rolamento. Para a realização da lubrificação é utilizada uma substância denominada lubrificante, a qual é disposta entre os componentes em contato a fim de reduzir a fricção e o calor e proporcionar um funcionamento suave, mantendo a temperatura normal de trabalho e provocando o menor desgaste possível.

O óleo lubrificante deve ser sempre utilizado com a viscosidade correta e recomendada pelo fabricante da máquina ou implemento agrícola.
O óleo lubrificante deve ser sempre utilizado com a viscosidade correta e recomendada pelo fabricante da máquina ou implemento agrícola.

LUBRIFICANTES LÍQUIDOS

Os lubrificantes podem ser classificados em diferentes formas, em função da sua origem, viscosidade, estado físico, densidade, dentre outros fatores. Em função da origem, a maioria dos lubrificantes utilizados é oriunda de derivados do petróleo obtidos a partir de síntese química. Em menor uso temos os lubrificantes de origem orgânica, obtidos de óleos vegetais e gordura animal, como o óleo de mamona, sendo sua utilização restrita à melhoria da qualidade de alguns tipos de lubrificantes. Os lubrificantes de origem mineral são provenientes do petróleo, sendo classificados de acordo com a sua estrutura molecular, com ampla utilização em máquinas e equipamentos agrícolas. Já os lubrificantes de origem sintética desenvolvidos em laboratório, empregando diversas substâncias químicas, têm como principal objetivo fornecer características superiores aos lubrificantes minerais, porém, apresentam custos maiores.

Em relação ao estado físico, os lubrificantes comumente utilizados são classificados em líquidos (óleos lubrificantes em geral), pastosos e sólidos.

Os óleos lubrificantes utilizados em motores e transmissões apresentam origem orgânica, mineral, sintética, compostos (mistura de óleos orgânicos e minerais, porém, devido à oleosidade, apresentam facilidade de forma de emulsão na presença de vapor) e os óleos aditivados, os quais apresentam aditivos (produtos químicos), cuja função é aumentar a qualidade do óleo lubrificante. Esses aditivos possuem diferentes funções, como antioxidantes, dispersantes, anticorrosivos, ampliadores de viscosidade, antiespumantes, entre outras.

Os óleos lubrificantes utilizados, principalmente em motores de combustão interna e em transmissões com engrenagens, devem possuir determinada qualidade e características específicas. Para que as normas de fabricação desses óleos sejam atendidas, existem entidades certificadoras, como é o caso da Sociedade de Engenheiros Automotivos (SAE), do Instituto Americano do Petróleo (API), da Organização Internacional para Normalização (ISO), Associação dos Construtores Europeus de Automóveis (Acea), dentre outros.

É sempre importante utiliar óleo da mesma marca, isso garante que não corra mistura de elementos químicos diferentes para uma mesma finalidade de aditivação.
É sempre importante utiliar óleo da mesma marca, isso garante que não corra mistura de elementos químicos diferentes para uma mesma finalidade de aditivação.

CLASSIFICAÇÃO SAE

A classificação SAE é a mais utilizada atualmente, considerando faixas de viscosidade, sendo uma medida que indica a resistência de determinado líquido ao escoamento, apresentando uma classificação específica para óleos de motores e outra para transmissão. A sociedade americana classifica os óleos em dois tipos: óleos de verão e óleos de inverno. Conforme Márquez (2012), no caso de motores, os óleos de verão são classificados de acordo com uma categorização estabelecida em função da viscosidade cinemática medida a 100ºC, apresentando quatro categorias que vão do mais fluido (SAE 20) ao considerado mais viscoso (SAE 50), divididos em intervalos de dez em dez. Já para os óleos de inverno, conforme o mesmo autor, definem-se quatro categorias que vão desde o zero até o 25, divididos em intervalos de cinco em cinco, identificados pela letra W, de “winter”, o que se traduz como inverno na língua portuguesa. Nas condições de baixa temperatura, o óleo deve manter as características exigidas de viscosidade cinemática a 100ºC, podendo ser bombeado no caso do SAE 0W a -35ºC e a -10°C se for um óleo lubrificante SAE 25W.

A classificação, segundo Márquez (2012), não resulta em indicação de que os óleos de verão somente possam ser utilizados nos períodos quentes do ano, e os de inverno apenas nos períodos frios. Apenas são maneiras de diferenciar a viscosidade dos óleos, sua adaptação ao clima em que irá ser utilizado e as baixas temperaturas que dificultariam a colocação do motor em funcionamento.

Os óleos que apresentam apenas uma classe de viscosidade são conhecidos como monoviscosos e devem ser substituídos, caso ocorram modificações nas condições climáticas. Já os que possuem mais de um grau de viscosidade SAE são conhecidos como multiviscosos, e podem ser empregados durante todo o ano, porque sua viscosidade é satisfatória a alta ou a baixa temperatura. Neste sentido, um óleo SAE 15W-40 se comporta a alta temperatura como um SAE 40 e a baixa temperatura como um SAE 15W.

Os lubrificantes utilizados nos sistemas de transmissões utilizam uma classificação semelhante à dos óleos para motor, empregando-se quatro graus de óleos de inverno (SAE 70W a SAE 85W) e três de verão (SAE 90, 140 e 250), sem que tenham relação os graus estabelecidos com os definidos para os motores. Também, podem ser utilizados óleos multiviscosos nas transmissões, como é o caso de SAE 80W-90 e 85W-140.

CLASSIFICAÇÃO API

Já o sistema de classificação API especifica a “qualidade” dos óleos lubrificantes em função das condições em que estes devem ser utilizados.

Para a classificação dos óleos utilizados em motores empregam-se duas letras, sendo que a primeira indica o tipo de motor (S para motores a gasolina e C para motores ciclo diesel) e a segunda o nível de qualidade, utilizando a ordem sequencial do alfabeto, sendo A a primeira letra. A especificação mais utilizada pelos fabricantes de motores ciclo diesel é o CF-4. Ainda, no sistema API existem outras classificações para motores mais modernos que utilizam combustíveis com baixos teores de enxofre CG.

Não se recomenda utilizar óleos de especificação anterior ao recomendado pelo fabricante da máquina agrícola, por exemplo, um API CF-4 ou inferior, quando o fabricante indica a utilização do API CG. Da mesma forma que os óleos para motores, quanto à qualidade, os óleos lubrificantes para transmissões se estabelecem em seis níveis, que são designados sequencialmente entre o API GL-1 e o API GL-6. As categorias GL-4 e GL-5 são as mais utilizadas nos sistemas de transmissões de máquinas agrícolas.

As especificações da classificação do óleo lubrificante que deve ser utilizado nas máquinas agrícolas são sempre fornecidas pelos fabricantes, e a especificação do tipo de óleo lubrificante está contida na embalagem de qualquer óleo utilizado.

LUBRIFICANTES PASTOSOS

Os lubrificantes pastosos, mais conhecidos como graxas, resultam da mistura entre um agente espessante (sabões metálicos ou argila) e lubrificantes líquidos (de origem mineral ou sintética). São utilizados para a lubrificação de pontos onde a aplicação de um óleo não seria eficiente devido à sua fluidez, aos fatores construtivos e de manutenção como, por exemplo, cruzetas, mancais, rolamentos etc. Este tipo de lubrificação é feito através de elementos conhecidos como pinos graxeiros ou “graxeiras”.

A medida da qualidade de uma graxa é feita a partir de sua consistência, a qual é mensurada em laboratório por meio de normas de ensaios ASTM (Sociedade Americana para Teste de Materiais). A partir de um número significativo de medidas de penetração de um cone de peso conhecido, em uma graxa contida em um copo padrão, em condições de tempo e temperatura específicas, o NLGI (Instituto Nacional da Graxa) criou nove diferentes graus de consistência, que servem como base para a classificação das graxas encontradas no mercado e que variam de 00 a 6. Quanto menor o número, mais “macia” é a graxa.

De acordo com a exigência, as graxas mais recomendadas pelos fabricantes de máquinas e implementos agrícolas (dependendo de aspectos construtivos e materiais) enquadram-se na classe de consistência 00 a 3 e devem suportar temperaturas da ordem de 150ºC sem prejuízo da sua qualidade lubrificante.

Em altas rotações e pequenas folgas dos mancais, e onde há necessidade de maior fluidez nos condutos, são aplicadas graxas lubrificantes mais fluidas, que competem às classes 00 até 1. Para folgas maiores dos mancais, necessita-se de uma vedação contra agentes externos (poeira, água e solo) que podem penetrar, devendo-se, neste caso, ser utilizadas graxas nas consistências 2 e 3.

Em rolamentos, geralmente, são utilizadas graxas NLGI 1, 2 ou 3. No entanto, a graxa deve oferecer: resistência à água e à carga, proteção contra corrosão e oxidação, boa capacidade de vedação, boa aderência e validade por longo período.

LUBRIFICANTES SÓLIDOS

Os lubrificantes sólidos, como o grafite e o bissulfeto de molibdênio, entram como aditivos na formulação dos lubrificantes líquidos e pastosos, oferecendo grande resistência à temperatura e pressões elevadas. Na agricultura o grafite é utilizado na lubrificação no depósito de sementes das semeadoras, com o propósito de melhorar o processo de distribuição e reduzir danos mecânicos às sementes.

O lubrificante deve ter sempre a viscosidade recomendada pelo fabricante.
O lubrificante deve ter sempre a viscosidade recomendada pelo fabricante.
As trocas devem ser realizadas nos prazos estipulados pelo fabricante.
As trocas devem ser realizadas nos prazos estipulados pelo fabricante.

Recomendações para uso dos fertilizantes

- Não fazer a lubrificação com a máquina ou o equipamento em funcionamento.

- Verificar o nível do óleo dos depósitos (cárter e sistema hidráulico) das máquinas diariamente, em terreno plano, com o motor desligado e com o equipamento “frio”. Completar o nível com óleo lubrificante apenas quando o nível estiver abaixo do nível mínimo, verificando e respeitando o tempo de utilização do óleo. Ainda, se a troca estiver próxima de ser efetuada, a adição de mais óleo lubrificante não irá prolongar o tempo de utilização dele.

- O óleo lubrificante deve ser sempre utilizado com a viscosidade correta e recomendado pelo fabricante da máquina ou implemento agrícola.

- Respeitar os períodos indicados pelo fabricante para a lubrificação dos componentes de máquinas e equipamentos agrícolas e a troca do óleo lubrificante.

- Não misturar óleos lubrificantes de marcas diferentes, pois a utilização de elementos químicos diferentes para uma mesma finalidade de aditivação, por exemplo, pode ocasionar problemas de incompatibilidade entre as substâncias presentes nos óleos, provocando danos aos componentes a serem lubrificados.

- Verificar se existem vazamentos de óleo e, na existência, corrigi-los, pois poderá ocorrer a possibilidade de penetração de contaminantes externos e perda desnecessária de lubrificante.

- Antes da verificação do nível do óleo lubrificante, sua substituição, bem como da lubrificação com graxa, deve-se fazer a limpeza do pó ou de impurezas existentes sobre as superfícies (deixando-as limpas e secas) para impedir a entrada de contaminantes nos componentes internos das máquinas, evitando assim um desgaste prematuro.

- Na realização da substituição do óleo (período de troca) deve-se sempre realizar a troca do filtro de óleo.


Marcelo Silveira de Farias, José Fernando Schlosser, NEMA/UFSM; Alexandre Russini, Unipampa – Campus Itaqui


Artigo publicado na edição 165 da Cultivar Máquinas.

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