Culpa de quem?

Na última década, a agricultura brasileira passou por enormes transformações em se tratando de tecnologias empregadas para cultivar plantas. Os métodos tradicionais utilizados, segundo modelos europeus, caracterizavam-se pelo excessivo revolvimento do solo, resultando em gravíssimos problemas de erosão hídrica e eólica, tornando as áreas improdutivas e sem valor. Os novos e modernos sistemas produtivos, diga-se Plantio Direto, passaram a exigir máquinas mais eficientes e com alto grau tecnológico. Neste aspecto, as semeadoras foram as máquinas que mais sofreram alterações para a operação em Plantio Direto, tendo em vista, principalmente, a necessidade de cortar a cobertura vegetal existente na superfície do solo.

No processo produtivo de qualquer cultura, a semeadura constitui-se em um dos fatores fundamentais para o sucesso no estabelecimento e posteriormente na produtividade da lavoura. Em se tratando de PD, acentua-se sobremaneira a importância de uma semeadora que atenda alguns parâmetros básicos, tais como a homogênea e precisa distribuição de sementes e fertilizantes, o corte eficiente da cobertura existente e a deposição da semente e fertilizante em profundidades constantes e adequadas.

A semeadura deve possibilitar o estabelecimento rápido e uniforme da população de plantas desejada. Para isso, a semeadora deve formar um ambiente propício para que a semente entre em íntimo contato com o solo, possibilitando a absorção de água, essencial para o início do processo de germinação, além de promover a dosagem apropriada de sementes para que se obtenha a população ideal de plantas/ha. A distribuição de sementes tem sido considerada como uma das principais funções da semeadora, pois possui uma influência direta sobre o rendimento das culturas, tanto pela competitividade entre plantas por água, luz e nutrientes quanto pelo espaço vital.

A densidade ótima de plantas a ser utilizada por alguma cultura é determinada pelas exigências da própria espécie considerada e por fatores ambientais que influenciam diretamente no desenvolvimento das plantas e, conseqüentemente, na produtividade final da lavoura. Sabe-se que as culturas apresentam respostas diferentes à variação na população de plantas. Alguns autores afirmam que a cultura da soja, por exemplo, suporta variações de até 15% na densidade de semeadura, sem afetar o rendimento. Por outro lado, estudos mostram que a desuniformidade na distribuição espacial de plantas pode resultar em perdas de até 15% ou mais na cultura do milho; 35% ou mais no girassol e 10% ou mais na cultura da soja.

A importância da distribuição das sementes é tão grande para algumas culturas ditas sensíveis à população de plantas por unidade de área, que as máquinas que realizam a semeadura destas culturas são chamadas de Semeadoras de Precisão. Neste tipo de máquinas, destaca-se a importância dos mecanismos dosadores de sementes, pois são os responsáveis pela precisão da máquina. Esses mecanismos têm por função individualizar as sementes contidas no reservatório, sem danificá-las, e distribuí-las uniformemente de acordo com a necessidade específica de cada cultura.

De maneira geral, pode-se dizer que os mecanismos dosadores de precisão das semeadoras são classificados em dois tipos: a) mecânicos (discos alveolados; dedos prensores,...) e b) pneumáticos (pressão negativa ou positiva).

O sistema mais difundido no Brasil, portanto o mais comum utilizado na grande maioria das semeadoras de precisão, é o sistema mecânico do tipo Disco Alveolado. Nesse sistema a individualização da semente é realizada através de um disco perfurado. Existe uma gama enorme de discos disponíveis, com diferentes espessuras, tamanhos de alvéolos e com diferentes números de alvéolos, o que faz com que o sistema se adapte às mais diversas culturas e às mais diversas formas e tamanhos de sementes.

Porém, verifica-se que na maioria das vezes tais semeadoras perdem o caráter de precisão devido a alguns fatores que influenciam diretamente na performance do mecanismo dosador. Dentre outros fatores, pode-se destacar principalmente a velocidade de deslocamento da semeadora e a qualidade física das sementes.

Com relação à velocidade de deslocamento, a ideal é aquela em que o sulco abre e fecha com mínima remoção de solo e está associada à capacidade da semeadora em distribuir as sementes nas quantidades desejadas e na capacidade da máquina em manter a regularidade de distribuição longitudinal das sementes, evitando ao máximo a ocorrência de “grãos duplos” e “falhas”. Segundo a ABNT, considera-se “duplo” quando a distância entre sementes é menor que 0,5 vezes o espaçamento nominal; “falhas” quando a distância entre sementes é maior que 1,5 vezes o espaçamento nominal e, “aceitáveis” quando os espaçamentos estiverem entre 0,5 a 1,5 vezes o espaçamento nominal.

Em avaliações técnicas realizadas pela Embrapa (1997/98), com diferentes velocidades de plantio de milho, concluiu-se que o percentual de falhas passou de 7,1% para 24,9%, quando a velocidade passou de 4,5 km/h para 8,0 km/h. Já o percentual de duplos passou de 8,2% para 14,1%, para a mesma variação de velocidade. O percentual de “aceitáveis” caiu de 84,7%, na velocidade de 4,5 km/h, para 61,0%, quando a velocidade passou para 8,0 km/h.

Pesquisas realizadas por NIELSEN (1997), em Indiana (EUA), mostram que para cada 1,5 km/h de aumento de velocidade, as perdas na produtividade de milho podem variar de 125 a 325 kg/ha. Isto ocorre devido ao fato de que, conforme aumenta a velocidade diminui o tempo para que ocorra o preenchimento dos alvéolos e também a capacidade do dosador individualizar as sementes, aumentando o número de falhas e duplos,e resultando em uma má distribuição espacial de plantas.

O aumento da velocidade também provoca variação na trajetória das sementes, desde sua liberação do dosador até o solo, causado pelo “repique” dentro do condutor, atrasando ou antecipando a queda da semente. O excesso de velocidade também pode provocar o rolamento das sementes dentro do sulco.

Para ilustrar melhor a influência da velocidade de deslocamento no funcionamento dos dosadores de precisão, pode-se acompanhar o seguinte raciocínio: distribuir 60.000 sementes/ha a 5,0 km/h significa que o dosador deverá distribuir 7,6 sementes a cada segundo. Se a velocidade passar para 8,0 km/h, o mesmo dosador deverá distribuir 11,8 sementes/segundo.

O outro fator que também descaracteriza a precisão das semeadoras é a qualidade física e morfológica das mesmas. Daí, muitas vezes, nasce a idéia de que a máquina é a grande culpada quando o plantio não ocorre com a precisão desejada.

É evidente que os produtores de sementes devem se preocupar com as qualidades fisiológicas das sementes, pois são essas características que irão proporcionar o seu melhor aproveitamento e também irão influenciar na quantidade a ser distribuída, em função, principalmente, do poder germinativo das mesmas e, também, porque geralmente os agricultores consideram somente essas características no momento da aquisição da semente. Porém, de nada adianta uma semente com excelentes qualidades fisiológicas se fisicamente deixam a desejar apresentando-se com tamanho e forma irregulares impedindo a obtenção do stand desejado, de acordo com as exigências de cada cultura.

Até bem pouco tempo atrás, quando se falava em calibração de sementes, falava-se em milho, por ser uma cultura altamente exigente em população correta e precisa de plantas/ha que exige um plantio “grão a grão”, o que torna-se impossível de realizar com sementes mal calibradas. No caso da soja, esta preocupação não existia, pois as cultivares não eram tão exigentes em população de plantas e se utilizava um número alto de plantas/ha (600-700.000 plantas/ha), onde variações na população pouco influenciavam na produtividade da lavoura. Mais recentemente foram desenvolvidas novas cultivares de soja, que exigem baixas populações de plantas/ha (250-350.000 plantas/ha), portanto as variações na população de plantas não são mais aceitáveis nos percentuais que até então se admitiam. As cultivares requerem stands bastante precisos, pois caso contrário ocorrerá o surgimento de plantas débeis, suscetíveis ao acamamento, afetando sensivelmente o rendimento da lavoura. Por esse motivo, a classificação de sementes de soja por tamanho, semelhante ao milho, tornou-se uma necessidade técnica para a obtenção de lavouras com alto potencial de rendimento.

Como já foi dito anteriormente, a grande maioria das máquinas de precisão que está no campo trabalha com dosadores mecânicos do tipo discos alveolados e este sistema exige um padrão uniforme e regular de tamanho das sementes para que ocorra a individualização da semente nos alvéolos do disco selecionado. Sabe-se que para o bom funcionamento desse sistema somente uma semente deverá ocupar cada alvéolo, para obter a população de sementes desejada. Uma semeadura precisa prevê a distribuição de sementes no solo, de uma a uma, depositadas a uma distância previamente determinada com uma profundidade constante. Em culturas com população de plantas reduzida, como por exemplo o milho, a importância de uma correta distribuição das sementes é muito grande, pois a produtividade está diretamente relacionada à população de plantas por unidade de área.

O dosador deve selecionar, dentro de um lote de sementes, somente uma, que deverá ser distribuída por cada alvéolo do disco. Dessa operação dependerá a maior ou menor possibilidade de ocorrência tanto de “falhas”, que resultam em clarões nas linhas de plantio, como de amontoamento de plantas, devido à ocorrência de “grãos múltiplos”.

A escolha do disco a ser utilizado para o plantio de determinada semente está diretamente relacionada ao tamanho das mesmas. Deve-se observar sempre uma folga mínima entre a semente e o alvéolo do disco. O alvéolo deve ter um tamanho no máximo, 10% superior ao das sementes. O disco deve permitir a passagem livre das sementes pelos alvéolos, sem que as mesmas permaneçam retidas no disco e, ao mesmo tempo, não pode permitir que duas ou mais sementes ocupem o mesmo alvéolo. Vale lembrar que um disco distribuidor de sementes possui um tamanho único de furos e uma única espessura, portanto, para ocorrer a individualização das sementes é necessário que as mesmas tenham uniformidade quanto ao tamanho e/ou forma. Sementes com características físicas irregulares não resultam em boa semeadura, pois originarão altos índices de falhas e/ou duplos.

Outro fator a considerar, relacionado às características físicas das sementes, é o dano mecânico que pode aumentar significativamente com a utilização de sementes irregulares, pois as sementes grandes contidas dentro do volume total não conseguirão se alojar nos alvéolos e, conseqüentemente, serão danificadas pelo próprio mecanismo dosador.

Ressalta-se que a calibração das sementes tem influência direta no funcionamento do mecanismo dosador predominante nas semeadoras brasileiras, que é o Disco Alveolado. As características físicas da semente têm influência direta nos stands das lavouras e, conseqüentemente, nas produtividades das mesmas. É importante a conscientização e a preocupação dos produtores de sementes não somente com as características fisiológicas, mas também com as características físicas das sementes para que se possa obter stands adequados de plantas, de acordo com as exigências de cada cultura, visando a exploração total do potencial genético das plantas, com o intuito de atingir elevados índices de produtividadade.

Eduardo Copetti,
Semeato S.A.

* Este artigo foi publicado na edição número 18 da revista Cultivar Máquinas, de março/abril de 2003. ver mais artigos
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