Cultivares de milho para silagem

Apesar da técnica de ensilagem de milho ser bastante conhecida, a definição de qual híbrido será adotado em determinado local, o pacote tecnológico da propriedade, manejo adequado da cultura e um processo de confecção e conservação são importantes para obtenção do rendimento esperado.

A cultura do milho é importante fonte de alimento para a produção de leite, carne e derivados. Amplamente adaptada às diversas condições climáticas, integra grande parte dos sistemas produtivos de exploração agrícola. Além dos grãos produzidos pelo cereal, também sua utilização na confecção da silagem a partir da parte aérea da planta, em momento adequado, contribui para aumentos dos índices produtivos da bovinocultura, especialmente na de leite. Períodos de escassez de alimento volumoso ocasionados por prolongada ausência de precipitação e baixo crescimento de pastos nativos são as épocas mais exigentes em alimentos alternativos conservados, produzidos em outros períodos.

Embora existam várias espécies de plantas agrícolas forrageiras anuais ou perenes que possam ser destinadas para a produção de volumoso, a cultura do milho é a mais empregada. Características como rendimento de matéria verde, qualidade de fermentação, manutenção do valor nutritivo do alimento após sua estabilização, aceitação pelos animais, baixo poder tampão, teor de matéria seca superior a 30% e palatabilidade fazem com que a silagem de milho seja a mais utilizada pelos produtores na alimentação dos animais.

Apesar da técnica de ensilagem de milho ser bastante conhecida, a definição de qual híbrido será adotado em determinado local, o pacote tecnológico da propriedade, manejo adequado da cultura e um processo de confecção e conservação são importantes para obtenção do rendimento esperado. Além disso, a técnica pode e deve ser ajustada para cada propriedade, permitindo assim maior eficiência do processo.

TECNOLOGIA NA SEMENTE

A semente é um dos componentes fundamentais no sucesso do processo produtivo, por isso é necessária a escolha de forma mais adequada do híbrido a ser semeado. Características como potencial produtivo, resistência a pragas e doenças, adaptação ao sistema produtivo, adaptabilidade às condições edafoclimáticas são indispensáveis para que a lavoura se torne mais competitiva.

Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), para a safra 2013/14 foram ofertadas 467 cultivares de milho, destas 253 cultivares transgênicas e 214 cultivares convencionais. Essa grande oferta de híbridos com novos adventos biotecnológicos tem possibilitado resistência e/ou tolerância a determinadas doenças foliares, lepidópteros-praga (lagartas) e herbicidas específicos, o que vem contribuindo para um manejo mais racional da lavoura, tornando-a com maiores potenciais produtivos. Outro ponto chave no segmento de tecnologia de sementes é a sua base genética empregada (híbridos simples, triplos, duplos e variedades de polinização aberta) (Figura 1). Atualmente, com as alterações na dinâmica dos programas de melhoramento, os híbridos simples dominam o mercado de sementes da cultura do milho. Estes genótipos são altamente exigentes a condições favoráveis de cultivo, manejo, fertilidade, precipitação hídrica e insolação para poderem expressar seu potencial produtivo.

A textura do grão influencia na qualidade do volumoso alterando o seu valor energético e reduzindo a necessidade de alimentos concentrados. Existem basicamente dois tipos de textura de grãos e suas transições no mercado de sementes: grãos tipo Dent (Zea mays ssp. Indentata) e grãos do tipo Flint (Zea mays ssp. Indenduro) (Figura 1). Os grãos do tipo dentando (dent) possuem um amido mole, farináceo, poroso, de fácil ataque enzimático com baixa densidade pela perda de umidade do grão. Esta região central do grão se “encolhe” conferindo uma conformação de dentado. Os grãos do tipo duro (flint) apresentam, como o nome já sugere, endosperma duro ou cristalino ocupando quase todo o seu volume, apresentando baixa proporção de endosperma farináceo. Esta vitreosidade em grãos duros é definida pela proporção de endosperma duro (vítreo) em relação ao endosperma total, reduzindo a susceptibilidade à hidrólise enzimática, diminuindo sua digestibilidade do carboidrato presente. Contudo deve-se considerar que a partir do manejo do híbrido x textura pode-se utilizar adequadamente ambas as texturas para a confecção de silagem.

Atualmente se encontra maior oferta de sementes com a textura dura no comércio de sementes, com exceções para a região sul do Brasil, em que sementes do tipo dentado ainda são ofertadas. Um dos motivos dessa maior presença pode estar no aumento da produção de grãos que esse tipo de textura confere.

Figura 1. Características das cultivares de milho com base na sua base genética e textura do grão. Adaptado: Embrapa (2014).
Figura 1. Características das cultivares de milho com base na sua base genética e textura do grão. Adaptado: Embrapa (2014).

DISTRIBUIÇÃO ESPACIAL DE PLANTAS

A melhoria do ambiente de desenvolvimento para a planta de milho permitiu a utilização de densidades populacionais maiores juntamente com a modificação na distribuição espacial de plantas. Esta metodologia está associada ao melhoramento genético e manejo mais específico, conferindo plantas com arquitetura de folhas mais eretas, plantas menores com menores inserções de espigas e menor sombreamento das folhas mais baixas conferindo assim um maior aproveitamento da insolação incidente sobre as plantas, e/ou por melhorias no manejo cultural da cultura com um melhor emprego de tecnologias de irrigação e adubação.

A distribuição espacial de plantas no Brasil é muito variada ainda (Ritchie et al., 2003), onde são observados variações de espaçamento entre fileiras de 0,35m a 1,20m e densidades populacionais de 35 mil plantas/ ha a 100 mil plantas/ ha. Esta variação está relacionada às características de cultivo, a tecnologia empregada, manejo fitossanitário disponível e poder aquisitivo dos produtores. Incrementos na distribuição e por vezes densidade de plantas são uma das alternativas mais fáceis e eficientes de se aumentar as produtividades pelo melhor aproveitamento dos recursos produtivos (Demétrio et al., 2008). O aumento da densidade de plantas deve ser ajustada para cada híbrido x local x ambiente, de forma a obter-se a maximização dos recursos locais.

A redução do espaçamento entre fileiras também é uma alternativa para proporcionar incrementos na produtividade (Penariol et al., 2003). Com menores espaçamentos entre fileiras, até determinado limite, obtem-se ampliações de produtividades de grãos pelo melhor aproveitamento de água e luz. A partição da matéria seca exportada via silagem provém 90% através da fixação dos elementos atmosféricos pelo processo da fotossíntese (Ueno et al., 2011). Dessa forma, a maximização de estratégias que possam ampliar o aproveitamento dos recursos do ambiente torna-se uma importante estratégia para melhorar o rendimento da silagem. Com isso, a luz incide por mais tempo sobre as folhas baixeiras, a planta fica menos estressada e essas folhas ficam ativas por mais tempo, podendo ser aproveitadas para o processo de silagem. Caso haja uma competição intensa dentro da fileira de semeadura as plantas irão priorizar as folhas mais jovens e as mais velhas (baixeiras) irão senescer antes e consequentemente a altura de corte será maior e haverá uma menor produção de silagem por área.

EXIGÊNCIA NUTRICIONAL DA LAVOURA

O planejamento de uma determinada área para a silagem deve levar em consideração as exigências nutricionais da cultura, teto produtivo e exportação de matéria seca e consequentemente nutrientes. Dessa forma, os nutrientes mais exportados são o nitrogênio (N) e o potássio (K). Quando se ensila uma lavoura de milho e se armazena em silo, renova-se sua integridade dos minerais da parte aérea da planta colhida, ao contrário quando só se retira os grãos.

Conforme Coelho (2006), produção de silagem de aproximadamente 18 toneladas de matéria seca exportam na sua composição 230 kg/ ha de nitrogênio e 265 kg/ ha de potássio. Para Oeno et al. (2011) esta quantidade de nutrientes removida pela parte aérea causa prejuízos ao balanço de nutrientes e rápido empobrecimento do solo, tendo como consequência a queda de produtividade e baixa qualidade da silagem em cultivos posteriores quando não submetidos constantemente à reposição destes elementos minerais através de análises de solo. Segundo Cruz et al. (2010), para este sistema é necessário elevar a saturação de bases para 70% e o teor de K para 5% da capacidade de trocas de cátions do solo. Além disso, a adubação deve ser realizada no momento ideal para o desenvolvimento da cultura para a produção de silagem, em que os componentes da massa verde da planta (folhas e colmo) além dos grãos, também são importantes. Em geral, para estes sistemas são utilizadas doses superiores de 30% a 50% quando comparados com a produção de grãos devendo ser realizados em ao menos duas adubações de cobertura em que na primeira aplicação (quatro a cinco folhas) deve-se aplicar em torno de 30% da adubação de cobertura. Essa quantidade limitada é suficiente para ampliar / preparar o sistema radicular para a segunda aplicação, assim como auxiliar na definição do potencial produtivo para tetos mais elevados. A segunda aplicação (aproximadamente 70%) deve ser realizada a partir de uma maior formação do sistema radicular da planta do milho, reduzindo-se assim as possibilidades de perdas de nitrogênio ou falta de cobertura do sistema radicular na absorção dos nutrientes. A segunda aplicação do nitrogênio em cobertura é recomendada quando a planta estiver com 7 folhas a 8 folhas.

MOMENTO DE CORTE

O ponto de colheita é outro fator muito importante no sucesso desta atividade, afetando diretamente a qualidade e a produtividade da cultura no processo de ensilagem. Sua determinação preconiza o máximo rendimento de matéria seca e com a melhor qualidade nutricional da planta, perfazendo teores entre 30% a 35% de MS na sua constituição.

Este momento é caracterizado quando a planta apresenta uma linha do leite visível nos grãos, ou seja, 2/3 do endosperma se apresenta duro e 1/3 está em consistência mole ainda. Esta fase compreende na escala fenológica da cultura a R4 e R5, aproximadamente 35 dias a 45 dias após o florescimento da cultura. Para Nussio e Manzano (1999), estes teores de MS são obtidos nas plantas de milho no momento em que a consistência dos grãos estiver variando entre o estádio pastoso e o farináceo duro, o que corresponde à visualização da linha de leite.

Segundo Cruz et al. (2008), a colheita do milho com teores de MS acima de 35% a 37% não são desejáveis, pois aumentam a resistência da massa de silagem à compactação. Mas em contrapondo, teores mais elevados de umidade do material estão relacionados com a menor produção de MS, perdas por lixiviação de compostos, baixa qualidade final do volumoso e redução do consumo pelos animais. Para Dermachi (2001), o valor da umidade do material deve se concentrar entre 65% a 70% de umidade, pois valores abaixo e acima desse intervalo indicam perdas por efluentes e fermentação do material.

A altura de corte normalmente situa-se entre 25cm a 30cm acima do solo, mas podendo sofrer alterações conforme as condições fitossanitárias das folhas mais baixeiras da planta. Segundo Dias (2002), o aumento da altura de corte no momento da ensilagem acarreta na redução da relação colmo/espiga, o que faz com que haja melhorias nas características nutricionais do volumoso.

A densidade final é uma característica muito afetada pela escolha correta do momento de colheita, pois está diretamente relacionada pelo tamanho de partícula, muito dependente do implemento mecânico utilizado e teor de MS. Com isso afeta a porosidade do volumoso, que estabelece a taxa de aeração da silagem do material, e posteriormente, seu grau de deterioração no armazenamento e na sua desensilagem (Bolsen & Bolsen, 2004). Uma densidade ideal para uma boa silagem está localizada entre 550 kg/ m-3 a 700 kg/ m-3, pois valores muito acima disto não são recomendados, uma vez que, geralmente, resultam de silagens com teores mais baixos de matéria seca, colhidas mais verdes ou com má compactação.

Compactação de silo trincheira.
Compactação de silo trincheira.

QUALIDADE DO VOLUMOSO

Ao final do processo de fermentação e armazenamento é esperada a obtenção de um material com alta qualidade, boa aceitabilidade pelos animais e nenhuma perda por deteorização. Valores médios mais encontrados na literatura ressaltam como uma boa silagem aquela que possuir 30% a 35% MS, 5,8% a 7,5% de proteína bruta, 23% a 28% de fibra detergente ácida, 38% a 43% de fibra detergente neutra e com nutrientes digestíveis totais acima de 68%.

A qualidade de silagem está diretamente relacionada a inúmeros fatores já descritos anteriormente, mas sempre se encontra atrelada ao rendimento da cultura a ser empregada na confecção do volumoso. Híbridos com bons rendimentos de grãos ou MS no ponto de silagem, nem sempre apresentam as melhores qualidades para a produção animal, mais especificamente a produção de leite.

No cenário do mercado de sementes são encontrados vários híbridos específicos para produção de grãos, outros mais destinados à produção animal, e aqueles considerados de dupla aptidão. Em trabalho desenvolvido na safra 2014/15 na região central do Rio Grande do Sul, avaliando-se cinco híbridos específicos de milho foi constatada uma distribuição espacial apurando a especificidade de cada material genético testado.

Os componentes de rendimento dos híbridos de milho avaliados estão apresentados na Tabela 1.

Esta sua maior resposta está diretamente associada a menos perdas em seu ciclo produtivo causado por insetos-praga e sua genética, conferindo-lhe maior rendimento com maior sanidade. Utilizando-se uma metodologia proposta pela Universidade de Wisconsin (MILK 1997 - Undersander et al., 1993), baseada em um sistema de modelagem numérica que leva em consideração os parâmetros pré estabelecidos de um animal padrão tem-se: massa corporal da vaca: 509 kg; produção de leite da vaca 18,9 L/ d; percentual de gordura no leite 3,42%; estágio de lactação intermediário; percentual de perdas na silagem de 10%, e fibra detergente neutro da silagem 49,44% e digestibilidade “in vitro” da matéria seca 67,9%. A partir dos parâmetros de entrada dos diferentes híbridos obtém-se a produção possível de leite por área. Com isso, podem-se caracterizar os híbridos de milho quanto a sua aptidão. Em se tendo a produção de grãos e a produção de leite por área é possível unir essas duas informações e obter um gráfico com quatro áreas distintas. Híbridos situados na região A são mais indicados para a produção de leite, região B indicados para a dupla aptidão e na região D para a produção de grãos. Contudo, essas comparações somente são válidas se forem considerados os híbridos contrastantes para as avaliações bem como o ambiente produtivo, pois, cada híbrido possui uma complexidade de opções para o seu desenvolvimento.

Figura 2. Caracterização de híbridos de milho em relação a sua produtividade de grãos e leite. Santa Maria, 2015.
Figura 2. Caracterização de híbridos de milho em relação a sua produtividade de grãos e leite. Santa Maria, 2015.

Quando maior a qualidade e quantidade do volumoso produzido, menor será a necessidade de suplementação desta alimentação. Assim consequentemente é possível alcançar índices produtivos elevados com redução de custos, seja na cadeia leiteira ou na produção de carne. A resposta produtiva do animal confere a melhor maneira para determinar sobre qualidade do volumoso produzido.

Outros itens ainda devem ser considerados para a produção de silagem de qualidade, como o tipo de silo, o tamanho das partículas, a utilização de equipamento capaz de reduzir o tamanho das partículas, a vedação e o tempo de conservação antes da abertura do silo.

A) Muita matéria seca, da parte mais baixa do colmo e folhas secas; B) tamanho de partícula grande; C) silagem adequada bem misturada.
A) Muita matéria seca, da parte mais baixa do colmo e folhas secas; B) tamanho de partícula grande; C) silagem adequada bem misturada.


Thomas Newton Martin, Paulo Eugênio Schaeffer, Thânia Maria Müller, Alex TagliaPietra Schönnell, UFSM


Artigo publicado na edição 207 da Cultivar Grandes Culturas.

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