Cultivo intensivo

Plantadores de algodão estão buscarem alternativas mais rentáveis para a produção.

Sistemas de produção de algodão de sulco ultra-estreito (SUE) parecem ser uma técnica pela qual isto se pode obter. Embora a definição de SUE varie, esta técnica consiste em semear algodão com um espaçamento entre sulcos de 30 a 40 cm ou menos. A imperiosa necessidade de reduzir custos de produção é a força que move o interesse pelo uso de sulcos ultra-estreitos. Além disso, a disponibilidade de cultivares transgênicas tolerantes a herbicidas tem aumentado o interesse por esta tecnologia.

Há outras razões pelas quais os produtores se interessam em usar sulcos ultra-estreitos para aumentar a rentabilidade de seus cultivos de algodão. Eles esperam reduzir o número de seus equipamentos, a ponto de usarem a mesma semeadora, aspersora e outros implementos em diversos cultivos como algodão, milho, sorgo e soja. Os produtores podem eliminar o uso de caros equipamentos usados no passado em um cultivo específico. Se bem que, para algodão, necessitarão de uma colheitadeira especial. A boa notícia é que esta nova colheitadeira pode custar uma terça parte do custo de uma de algodão convencional.

Densidade de semeadura

A densidade de semeadura, em sistemas de produção SUE, normalmente está na ordem de 125.000 a 380.000 plantas por hectare, com uma distância entre sulcos de 35 a 40 cm (15 ± 1.0 polegadas). Embora pesquisadores estejam avaliando configurações na ordem de 20 a 50 cm, os fabricantes de implementos agrícolas estão se concentrando em 38 cm como um “standard” para este sistema. Em muitas universidades dos Estados Unidos (Texas, Mississipi, entre outras), pesquisadores têm demonstrado que os benefícios que se obtém reduzindo-se o sulco a menos de 30 cm são mínimos. Os dados dos pesquisadores mostram que a eficiência de uso da água se perde, à medida que a distância aumenta de 38 a 70 cm.

Plantas de algodão semeadas com 38 cm entre os sulcos produzem uma folhagem capaz de fechar o sulco em aproximadamente 40 dias da semeadura. Este mesmo processo levaria mais ou menos 70 dias em um cultivo com espaçamento convencional. Esta rápida cobertura do solo, em cultivos SUE, favorece o controle de ervas daninhas, diminuindo a possibilidade de desenvolvimento das mesmas. Além disso, reduz-se a evaporação de água do solo. Embora a maior interceptação de radiação solar em sistemas SUE aumente a transpiração, a mudança na proporção de evaporação do solo à transpiração através das plantas aumenta a eficiência no uso da água. Esta eficiência deve ser entendida como a quantidade de água que um cultivo de algodão usa para produzir um quilograma de produto.

Plantas no sistema de produção SUE desenvolvem uma intensa concorrência entre elas. Esta concorrência, que começa cedo no ciclo do cultivo, modifica o hábito de crescimento das plantas, transformando-o em um cultivo muito precoce. As plantas resultantes são mais curtas que aquelas semeadas em sulcos com espaçamento convencional. Elas atingem uma altura de 50 a 70 cm e produzem um número menor de nós na haste principal. A acirrada concorrência entre plantas causa uma cessação prematura de crescimento vegetativo, alcançando o estado fisiológico conhecido na língua inglesa como “cutout”, muito mais cedo que em plantas produzidas em sistemas convencionais. A retenção de frutas em algodões SUE freqüentemente é limitada às primeiras posições frutíferas das cinco ou sete ramas reprodutivas inferiores. Esta carga reprodutiva normalmente desenvolve-se em duas ou três semanas de floração. A maturação do cultivo, definida como o estado em que 60% dos frutos maduros estão abertos, se obtém mais ou menos 10 a 15 dias mais
cedo que no sistema convencional de produção.

A precocidade obtida nos sistemas de produção SUE pode ser utilizada pelo produtor como uma vantagem para escapar das altas populações de bicudos e outras pragas lepidópteras que se encontram ao final da temporada. Sistemas de produção SUE permitem a produção de um cultivo de algodão em 100 a 120 dias desde sua germinação. Isto pode ser importante para o Brasil, porque permite a produção de algodão, durante a “safrinha”, em áreas onde a soja ou o milho são colhidos em meados de janeiro e fevereiro.

A seleção de uma variedade adequada para sistemas de produção SUE não é tão crítica. A maioria das variedades de algodão adapta-se muito bem a este ambiente de altas densidades. Apesar disto, há evidência de que variedades colunares com hábitos de frutificação compacta são mais adequadas para estes sistemas de produção.

Uma das características principais de redução de custos em sistemas de produção de algodão SUE é que se pode colher com colheitadeiras tipo “stripper”, que, além de serem mais baratas que as convencionais, são as únicas – por ora – que permitem colher algodão SUE (devido à reduzida estatura das plantas e ao sulco estreito). Dois tipos de “stripper” estão disponíveis para cultivos com sulcos estreitos: (1) “stripper” com dedos e (2) “stripper” com escovas com os cabeçotes ajustados para sulcos de 38 cm. “Strippers” com dedos estão disponíveis na atualidade nos Estados Unidos a um custo muito baixo. Estes cabeçotes, que se podem comprar até por US$ 2000, são muito fáceis de instalar em colheitadeiras existentes. Uma desvantagem de “strippers” com dedos é que podem reduzir a qualidade do algodão, aumentando o conteúdo de casca na fibra. “Strippers” com escovas acham-se em estado de desenvolvimento, prometendo colher algodão sem afetar parâmetros de qualidade de fibra nem o grau do produto final.

Aumento de rendimento

Pesquisadores, nos Estados Unidos, relataram incrementos de rendimento da ordem de 10 a 20% em sistemas SUE, comparados com sulcos com espaçamento convencional. A redução na concorrência de ervas daninhas e a melhora na eficiência de uso da água em SUE parecem ser os principais fatores responsáveis por este aumento do rendimento. Por outro lado, a redução no custo e a manutenção de equipamentos de semeadura e colheita, a redução no número de operações de campo, o escape às altas populações de insetos e reduções no custo de controle de ervas daninhas são os principais fatores que contribuem para a diminuição de custos dos sistemas SUE. O incremento na produtividade, com um custo de produção menor, leva a um atrativo resultado: menos custo por unidade de produto, ou seja, menos custo por quilograma de algodão.

Todavia, estes benefícios não estão livres de problemas. Um deles é o fato de que a uniformidade no estabelecimento do cultivo é essencial para o êxito da produção em sulcos ultra-estreitos. A falta de uniformidade no estabelecimento do cultivo em sistemas SUE normalmente provém do uso de semeadoras de grãos não adequadas para semear algodão, trazendo como resultado uma inadequada distribuição de sementes e controle da profundidade de semeadura. A falta de uniformidade causada por germinação desigual e a existência de falhas nos sulcos podem criar problemas de controle de ervas daninhas difíceis de solucionar, porque, em sistemas SUE, o uso das cultivadoras não é uma opção. Além disso, falhas no sulco podem causar o desenvolvimento de plantas muito grandes, adjacentes a estes espaços vazios, as quais são mais difíceis de colher com “strippers” e são a causa principal de altos níveis de casca em fibras de algodão colhidas com este tipo de colheitadeira.

O fato de que os algodões SUE são mais precoces significa que o desenvolvimento do cultivo ocorre com mais rapidez que em algodões convencionais. Por esta razão, é necessário um manejo integral mais ágil para se obter máxima vantagem deste sistema de produção. Levando-se em conta que a produção de frutas está limitada entre a quinta e a sétima ramas inferiores, o controle antecipado de insetos é fundamental. Visto que o enchimento dos frutos ocorre em um período de tempo pequeno, a disponibilidade de nutrientes, em particular nitrogênio, fósforo e potássio, é crítica durante as quatro semanas depois da floração. Isto significa que o uso de SUE não é um substituto de bom manejo integral do cultivo. Tem o potencial de incrementar rendimentos e reduzir custos de produção, porém somente quando se lhe dá o manejo adequado e as práticas de produção se fazem em seu devido tempo.

Dadas as vantagens do sistema de produção SUE, este parece ter um lugar perfeito no Brasil. Na atualidade, os produtores de algodão brasileiros estão expostos a altos custos de produção devido à desvalorização do Real em relação ao dólar americano. O custo é alto e a disponibilidade de capital para semear algodão é escassa. O preço internacional e local do algodão apenas cobre os custos de produção em sistemas convencionais. A produção de algodão em sistemas SUE oferece a oportunidade de aumentar rendimentos e reduzir custos de produção. Em zonas do país onde o bicudo é um problema, a precocidade resultante de sistemas SUE pode ser usada para escapar de períodos com altas populações, eliminando, desta maneira, a necessidade de realizar aplicações de inseticidas ao final da campanha . Este sistema parece ter um lugar ideal em áreas do país onde a soja ou o milho são colhidos em meados de janeiro ou fevereiro e a água continua estando disponível durante os três ou quatro meses subsequentes. As zonas de produção de soja do Estado de Mato Grosso podem ser ideais para o êxito deste sistema. Como nestas zonas se deve plantar o algodão imediatamente depois da soja, com pouco tempo para preparar solos, algodões SUE se adequam muito bem a plantio direto ou cultivo mínimo. O uso de sementes deslintadas de alta qualidade, adequadamente tratadas com fungicidas e inseticidas, é uma necessidade nestes campos.

De qualquer modo, necessita-se de pesquisa, no Brasil, para determinar a população e sistemas de produção adequados para maximizar retornos com esta técnica. Nossa equipe de pesquisa na Delta Pine – Brasil está realizando experimentos para avaliar densidades, manejo de “pix” e variedades adequadas para este sistema de produção. Nossa pesquisa, realizada em vários lugares do país, tem como meta obter informação sobre onde e como se pode utilizar este sistema no Brasil.

Dicas para a produção

Uniformidade – Use equipamentos de semeadura adequados, para obter uma distribuição uniforme de sementes. O controle de profundidade e bom contato da semente com o solo são importantes para se conseguir uma boa germinação. Use sementes de alta qualidade, deslintadas com ácido, adequadamente tratadas com fungicidas e inseticidas.

Plantas Curtas – Plantas entre 50 a 70 cm são ideais para este sistema. Embora a concorrência entre plantas em SUE origine plantas menores, o uso de reguladores de crescimento como “pix” é também uma necessidade, para controlar a altura. Aplicações múltiplas de “pix”, começando cedo no ciclo do cultivo, são necessárias.

Plantas Delgadas - Uma densidade uniforme de 250.000 plantas por hectare produzirá plantas delgadas, sem ramas vegetativas laterais, adequadas para serem colhidas com “stripper”. Isto assegura a colheita de um cultivo precoce de alta qualidade.

Rendimento – Um cultivo uniforme, sem “stress”, adequadamente manejado para produzir plantas curtas, com 5 a 7 frutos, tem o potencial de produzir entre 2.500 a 3.500 quilos brutos de algodão, em aproximadamente 110 a 120 dias depois da germinação.

Juan A. Landivar e Maria Consuelo Donato,
Delta & Pine Land Co. Brasil

* Este artigo foi publicado na edição número 23 da revista Cultivar Grandes culturas, de dezembro de 2000. ver mais artigos
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