Culturas Bt e as Boas Práticas Agrícolas

Um dos fatores que podem comprometer o rendimento e a qualidade da produção é a incidência de pragas, as quais podem determinar prejuízos à lavoura, com importante impacto econômico. Os produtos transgênicos (milho, soja, algodão), já liberados ou em processo de liberação para uso comercial no Brasil, constituem uma ferramenta importante para o manejo de plantas daninhas e de insetos-praga.

Asproteínas inseticidas Cry e Vip, derivadas da bactéria Bacillusthuringiensis, e que possuem propriedades inseticidas específicas, devem ser ingeridas para que ocorra a morte do inseto alvo, ou seja, estas proteínas são letaissomente quando ingeridas pelas larvas de certos lepidópteros considerados pragas, e sua especificidade de ação é devida à presença de sítios específicos de ligação no trato digestivo dos insetos alvo. A utilização de toxinas produzidas por B. thuringiensis é desejável em programas de Manejo Integrado de Pragas devido essa sua alta especificidade. O mecanismo de ação das proteínas Cry de Bt envolve a solubilização do cristal no intestino médio do inseto, a ação de proteases sobre a protoxina, a aderência da toxina Cry aos receptores do intestino médio e a sua inserção dentro da membrana apical criando canais de íons ou poros. A degradação dos cristais protéicos por enzimas proteolíticas libera proteínas tóxicas menores e sua atividade estão restritas ao trato digestivo dos insetos(TOJO; AIZAWA, 1983). Devido a sua especificidade,que resulta em alta seletividade na sua atividade, as proteínas Bt afetam menos a comunidade dos insetos que utilizam as culturas Bt como hospedeiro do que a utilização de inseticidas de amplo espectro, por exemplo. A tecnologia Bt é então mais uma importante ferramenta no Manejo Integrado de Pragas (MIP) não só pelo amplo espectro e consistência no controle das principais pragas,mas também por ser uma tecnologia de baixo impacto sobre inimigos naturais e outros organismos benéficos. Trabalhos publicados na literatura científica concluíram que a presença das proteínas Crynão afeta de forma significativa a microbiota e os animais que vivem no solo (DROTTAR; KRUEGER, 1999; MUCHAONYERWA, 2004). Estudos com culturas Bt (milho, soja e algodão), nas condições brasileiras, mostraram que as mesmas não causaram efeitos adversos em organismos não-alvo, como os artrópodes benéficos, entre eles a tesourinha (Doruluteipes), joaninha (Cycloneda sanguinea) e abelhas (Apis mellifera). Além disso, a combinação de diferentes toxinas Bt (Cry1F, Cry1A.105, Cry2Ab2, Vip3A) na mesma planta contribui no Manejo de Resistência de Insetos.

Os benefícios do uso do milho Bt por exemplo, incluem ainda, segundo SIEGFRIED (2000), significante incremento de produtividade a longo prazo e maior qualidade e estabilidade da produção na agricultura global. A tecnologia Bt por si só não aumenta a produtividade, mas por se tratar de uma tecnologia protetora, na qual as proteínas inseticidas são expressas durante todo o ciclo da cultura, os materiais (híbridos) têm a possibilidade de expressar todo seu potencial genético. No Brasil, Michelotto et al (2001) e Manfroi et al (2011), demonstraram, por exemplo, que híbridos de milhocontendoa proteína Cry1F tiveram produtividade cerca de 5% maior quando comparado aos seus respectivos isohíbridos convencionais. O manejo eficiente das principais pragas alvo pelas proteínas Bt protege o potencial produtivo dos híbridos de milho e contribui para a racionalização do uso de inseticidas na cultura. A utilização de culturas Bt pode ser considerada então como mais uma excelente tática adicional de controle em programas de MIP. Entretanto, devido à expressão contínua das proteínas Bt ao longo do período de desenvolvimento, as plantas Bt exercem uma elevada pressão de seleção sobre as populações de insetos praga alvo. Deste modo, a preservação da suscetibilidade nas populações de insetos às protreínas Bt presentes depende da adoção de programas adequados de Manejo de Resistência de Insetos. O MIP e o Manejo de Resistência de Insetos estão inseridos dentro do conceito de Boas Práticas Agrícolas.

As Boas Práticas Agrícolas consideram as melhores estratégias para prevenir ou retardar a seleção de indivíduos resistentes, como a prática do refúgio, que garante o equilíbrio na biodiversidade e a produtividade das lavouras, permitindo que o produtor usufrua dos benefícios da tecnologia por mais tempo. A utilização de refúgio é fundamental na durabilidade da tecnologia Bt. Além disso, as boas práticas recomendam ainda a rotação de culturas com diferentes eventos de transgenias para também diminuir a pressão de seleção e aumentar a longevidade da tecnologia Bt.

Outras medidas a serem adotadas para o adequado manejo, são:

a) Dessecação antecipada, seguida de aplicação de inseticida, caso se detecte presença de lagartas em número significativo na área;

b) Tratamento de sementes que tem como objetivo controlar as pragas e doenças iniciais da cultura; os danos dessas pragas e doenças resultam em falhas na lavoura devido ao ataque às sementes, danos às raízes e à parte aérea das plantas recém-emergidas;

c) Controle de plantas daninhas e voluntárias; começar a cultura no limpo, utilizar a dose e o momento correto de aplicações dos herbicidas no sistema de manejo e fazer o manejo pós-colheita;

d) Monitoramento de pragas seguido de aplicação de inseticida seletivo se necessário. No milho Bt por exemplo, adota-se, para a maioria dos produtos comercializados, o nível de 20% de plantas com danos igual ou maior que 3 (três) na escala Davis como gatilho para aplicação. Importante levar em consideração que o objetivo da área de refúgio é fornecer insetos suscetíveis que possam cruzar com eventuais indivíduos resistentes às proteínas Bt e neste caso o recomendável é que se faça no máximo duas aplicações de inseticidas até o estágio V6. Para as culturas de soja e algodão devem ser seguidas as recomendações específicas para estas culturas. O manejo de inseticidas também deve levar em consideração as táticas de Manejo de Resistência, sendo a principal delas a rotação de produtos com modo de ação diferentes.

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Antonio Cesar S. dos Santos

Dow AgroSciences

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