Da batata ao fumo

O setor fumageiro do Brasil vem aguardando com grande expectativa a possibilidade de medidas internacionais a partir de 2006 visando o combate ao tabagismo através da diminuição do plantio do fumo. No cenário atual, a fumicultura brasileira depende bàsicamente do comportamento das exportações, uma vez que a produção nos últimos anos apresentou sensível redução e o consumo mundial do tabaco tem aumentado em torno de 1,5% ao ano. Não bastasse isso, há todo um quadro sócio-econômico a considerar, pois a atividade garante o sustento e a permanência de milhares de agricultores no campo, especialmente nos estados do Sul, que são responsáveis por mais de 90% da produção nacional, onde a agricultura familiar em integração com a indústria caracteriza o sistema. Além disso, a própria condução do cultivo gera preocupações desde a implantação, uma vez que na conta cultural do produtor constam gastos sistemáticos com insumos, principalmente àqueles destinados ao controle de doenças e pragas. Entre estas, deve-se considerar a presença, ainda que incipiente em algumas regiões, da “traça-da-batata”, que tem como hospedeiro alternativo principal a planta de fumo. Trata-se de uma espécie exótica introduzida no Brasil no início do século, disseminando-se pelas regiões produtoras de todo território nacional.

Caracterização da praga

Phthorimaea operculella (Zeller,1873) [=Gnorimoschema operculella (Zeller) e G.solanella Boisduval,1874], pertence à ordem Lepidoptera, família Gelechiidae e, está associada principalmente com a cultura da batata, originando daí o nome comum da espécie. Os adultos são microlepidópteros de coloração geral cinzenta com manchas escuras, medindo cerca de dez a 12 mm de envergadura, com asas posteriores mais claras. Os ovos de cor branca, lisos e globosos. As lagartinhas quando completamente desenvolvidas medem em torno de 12 mm de comprimento, de coloração branca-rosada, com manchas escuras na cabeça, protórax e final do abdomen. As crisálidas de seis mm, de cor branca ou cinza, são protegidas por um casulo de seda.

Hábitos e danos

Nas lavouras, as mariposinhas, de curta longevidade, têm hábitos crepusculares e colocam os ovos (100-300) de forma isolada ou em grupo, preferencialmente na face inferior das folhas ou junto às brotações novas das plantas de batata e fumo. Em armazéns e depósitos, a postura é realizada tanto nos sacos como nas paredes, janelas, luminárias, caixotes e outros locais próximos. A incubação a campo dura cerca de três a quatro dias e, as lagartinhas recém eclodidas penetram nas folhas ou brotações. Na batata, os danos inicialmente são caracterizados por minas e galerias nas folhas e brotos, estendem-se aos tubérculos nos depósitos onde podem produzir canais profundos, permitindo o surgimento de doenças fúngicas e bacterianas, depreciando o produto. No fumo, onde as folhas constituem a matéria-prima, seus danos são pronunciados, especialmente porque produzem “minas” tornando-as impróprias ao beneficiamento. Na lavoura, ao completarem o desenvolvimento (11-12 mm), quando passam por quatro ínstares (12-14 dias), as lagartinhas, através de fio de seda, abandonam as galerias e transformam-se em crisálidas protegidas por casulo, diretamente no solo ou entre folhas secas. Essa fase tem uma duração de 12 a 30 dias de acordo com as condições climáticas. Em regiões de temperaturas muito baixas a espécie hiberna no estágio de crisálida. Em condições apropriadas (25 a 300C) o ciclo pós-embrionário se completa em 21 a 25 dias, com até três gerações anuais. Logo após a emergência, os adultos efetuam o acasalamento e, de imediato, iniciam a postura. A detecção das mariposas é difícil durante o dia, pois as mesmas escondem-se nas partes baixas das plantas ou mesmo junto ao solo.

Antes de tomar a decisão de controle da praga, deve-se fazer o monitoramento da mesma com armadilha de feromônio, evitando-se assim o gasto desnecessário com produtos inseticidas.

Controle Cultural

• Como a densidade populacional da “traça-da-batata” depende de temperaturas acima de 25 0C, recomenda-se evitar o plantio nessas condições, associando-se sempre com bom preparo do solo;
• destruição de restos culturais;
• evitar sempre o cultivo do fumo com plantações vizinhas de batata;
• rotação cultural.

Controle Biológico

• Várias espécies de microhimenópteros auxiliam no controle da praga, especialmente Copidosoma koehleri e Apanteles subandinus, que parasitam lagartas. Bacillus thuringiensis em pulverização também constitui meio biológico de controle.

Controle Químico

Embora os produtos registrados no controle da praga sejam principalmente na utilização da cultura da batata, alguns também recomendados para o fumo podem ser empregados, como acefato, imidaclopride e clorpirifós nas dosagens recomendadas. Ao se realizar o monitoramento do inseto, a aplicação de qualquer produto deve ser realizada quando forem capturados 20 adultos/dia.

Rogério F. Pires da Silva,
UFRGS

* Este artigo foi publicado na edição número 29 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de dezembro/2004 - janeiro/2005. ver mais artigos
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