Da raiz às folhas

A alface (Lactuca sativa L.) destaca-se como a principal hortaliça folhosa cultivada no Brasil. Ocupa uma área de aproximadamente 31.000 ha e constitui um agronegócio que movimenta R$ 2 bilhões / ano, com a geração de cinco empregos diretos por hectare.

Como apresenta alto valor econômico e possibilidade de plantio durante o ano todo, seu cultivo é feito de maneira intensiva, em sistema de monocultura, colhendo-se na mesma área até cinco safras no ano. A ocorrência de doenças radiculares veiculadas pelo solo aumenta de maneira gradativa ano após ano, devido ao cultivo intensivo e sucessivo.

Tradicionalmente, o alfacicultor não usa rotação de culturas e, quando é feita, são plantadas outras folhosas como almeirão, rúcula e chicória, que geralmente são suscetíveis às mesmas doenças radiculares que a alface.

Uma doença que vem ocasionando enorme preocupação entre os produtores de alface é a podridão negra das raízes, também conhecida como murchadeira. É causada pelo fungo Thielaviopsis basicola e foi constatada no Brasil, pela primeira vez, no ano de 1999, no Estado do Rio de Janeiro. Desde então, a importância da doença tem sido subestimada devido ao seu diagnóstico incorreto. Freqüentemente é confundida com distúrbios fisiológicos como falta de irrigação ou salinização devido ao uso abusivo de fertilizantes.

Atualmente, alfacicultores estão tendo grandes prejuízos em decorrência da murchadeira. A doença vem ocorrendo indiscriminadamente, tanto em campos de cultivo de alface como em sistemas hidropônicos.

Outras folhosas como almeirão, chicória e rúcula também têm sido afetadas. Além disso, a planta daninha Sonchus oleracea, conhecida como serralha e de ocorrência comum nos campos de hortaliças, é uma das hospedeiras alternativas do patógeno.

Sintomas da doença

As plantas de alface atacadas pelo fungo apresentam inicialmente manchas escuras nas raízes. Com o avanço da doença, principalmente as raízes laterais vão se tornando completamente apodrecidas. Em virtude disso, a planta emite novas raízes para tentar se restabelecer. Em plantas severamente atacadas, ocorre redução do crescimento e murchamento nas horas mais quentes do dia.

Disseminação do patógeno

Thielaviopsis basicola produz dois tipos de esporos (“sementes” do fungo). O clamidósporo, que é mais resistente, pode permanecer dormente no solo de três a cinco anos. O conídio, um esporo mais leve, é facilmente transportado pelo vento para áreas vizinhas não infestadas.

De maneira geral, ambos tipos de esporos do patógeno são disseminados através de mudas e solo contaminados, máquinas e ferramentas utilizadas nas práticas culturais e água de irrigação ou drenagem.

Existem fortes suspeitas que o patógeno tenha sido introduzido em nosso país através de turfa contaminada usada na formulação de substratos de mudas. A ocorrência da murchadeira no Brasil teve um padrão similar ao que aconteceu na Austrália. Especialistas australianos constataram que a ampla disseminação do patógeno na cultura de alface deveu-se ao uso de substrato com turfa contaminada na produção de mudas.

Como cerca de 95% de toda alface plantada no Brasil é proveniente de mudas produzidas com substrato, deve-se ter atenção especial com a procedência e qualidade do substrato a ser utilizado pelos produtores.

Controle genético

Várias cultivares de alface dos tipos lisa e americana são suscetíveis, enquanto que as alfaces do tipo crespa são resistentes.

Assim, o método mais eficaz, prático e barato para o controle da murchadeira é o emprego de cultivares resistentes, logicamente aliado a práticas de manejo adequadas à cultura, como uso de mudas sadias, substrato livre do patógeno, irrigação e adubação apropriadas. Além disso, rotação de culturas e solarização tanto do solo como do substrato são alternativas válidas para minimizar as perdas pela murchadeira da alface.

A murchadeira da alface é uma doença causada por um patógeno denominado Thielaviopsis basicola. Esta doença causa podridão do sistema radicular com redução do tamanho das plantas e sintoma reflexo de murcha. É uma doença introduzida no Brasil possivelmente através de turfa contaminada usada na formulação de substrato de mudas. As principais variedades do tipo lisa e americana cultivadas no Brasil são suscetíveis, enquanto que as do tipo crespa são resistentes.

Liliane De D.Teixeira Yañez, Fernando Cesar Sala, Cyro Paulino da Costa e Hiroshi Kimati,
ESALQ/USP

* Este artigo foi publicado na edição número 20 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de junho/julho de 2003. ver mais artigos
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