Daninhas e resistentes

Quando se utilizam os mesmos herbicidas ou herbicidas diferentes, mas com mesmo mecanismo de ação, de forma repetitiva, está se exercendo uma pressão de seleção. Essa pressão sobre uma população suscetível seleciona constantemente os indivíduos com carga genética diferenciada, a qual impede a ação dos herbicidas em uso. Esses indivíduos sobreviventes constituem um biótipo resistente e, dependendo da herdabilidade, produzirão descendentes com carga genética semelhante. Ao longo do tempo, o número de indivíduos resistentes torna-se significativamente maior que o de suscetíveis. Em outras palavras, a resistência marca uma mudança genética na população da espécie de planta daninha, em resposta à seleção imposta pelos herbicidas usados nas doses recomendadas.

A resistência pode ser cruzada ou múltipla. A resistência cruzada ocorre quando o biótipo é resistente a dois ou mais herbicidas devido a um único mecanismo de resistência. A resistência múltipla ocorre quando o biótipo é resistente a dois ou mais herbicidas porque apresenta dois ou mais mecanismos distintos de resistência.

Tolerância e suscetibilidade, ao contrário da resistência, são características inatas de uma espécie. A tolerância é a capacidade da espécie em suportar aplicações de herbicidas nas dosagens recomendadas sem alterações marcantes em seu crescimento e desenvolvimento. Suscetibilidade é a sensibilidade de uma população às dosagens recomendadas de um herbicida, ocorrendo morte ou paralisação do crescimento da grande maioria dos indivíduos.

Situação brasileira

No Brasil, na cultura de soja, os biótipos com resistência confirmada a herbicidas, Amendoim-bravo (Euphorbia heterophylla), picão-preto (Bidens pilosa) e Capim- marmelada (Brachiaria plantaginea) foram relatados, respectivamente em 1992, 1993 e 1997. O número de locais com ocorrência desses biótipos bem como o tamanho dessas áreas tem aumentado. Alguns biótipos resistentes a herbicidas utilizados em soja foram encontrados em outras culturas.

Não há qualquer indicação de quais espécies, gêneros ou famílias botânicas de plantas daninhas são mais adaptadas à evolução de resistência. No entanto, podem ser destacados alguns fatores considerados de fundamental importância no desenvolvimento de resistência de plantas daninhas aos herbicidas. Esses fatores estão relacionados com as características da plantas daninhas, do herbicida e do sistema de cultivo.

As espécies que apresentam maior probabilidade de apresentarem biótipos resistentes são as de ciclo anual, ciclo de vida curto, vários ciclos durante o mesmo ano, produção de grande quantidade de sementes, sementes com curto período de dormência e que apresentam alta freqüência inicial do biótipo resistente.

A resistência tem maior probabilidade de ocorrer com o uso de herbicidas altamente eficientes sobre determinada espécie e com persistência prolongada. Na maioria das vezes, biótipos de plantas daninhas resistentes a herbicidas surgem em áreas onde é comum o uso repetido e subseqüente dos mesmos herbicidas ou de herbicidas diferentes, mas com o mesmo mecanismo de ação. Este tipo de situação geralmente ocorre em sistemas intensivos de monocultivo, onde os herbicidas são aplicados com o objetivo de eliminar quase toda a comunidade de plantas daninhas incidentes.

Prevenção da resistência

Há necessidade de se modificar algumas práticas agrícolas de modo a prevenir ou retardar o estabelecimento da resistência de plantas daninhas aos herbicidas. Entre as modificações, pode-se citar:

• Rotação de culturas - a rotação de culturas reduz o sucesso intrínseco das plantas daninhas, que estão sincronizadas com a cultura, e permite o uso de outros herbicidas. Técnicas que reduzem o banco de sementes de plantas daninhas podem ser aqui utilizadas: pastagem ou produção de forrageiras, períodos de pousio utilizando herbicidas não-seletivos, utilização de adubos verdes, queima de resíduos da cultura ou de plantas daninhas após a colheita.

• Manejo de herbicidas - o uso de herbicidas com pouca atividade residual no solo e a otimização de doses e número de aplicações reduzem a pressão de seleção, diminuindo os riscos de resistência.

• Rotação de herbicidas - o uso de herbicidas com mecanismos de ação diferenciados nas aplicações sucessivas é uma estratégia que contribui para a redução da probabilidade de surgimento de biótipos resistentes. No entanto, não se deve usar apenas um herbicida alternativo, para não criar resistência a ele.

• Mistura de herbicidas - o uso de misturas de herbicidas para o manejo e prevenção da resistência está baseado no fato que os ingredientes ativos controlam eficientemente os dois biótipos da mesma espécie. É importante ressaltar que a mistura de herbicidas de diferentes mecanismos de ação é mais eficiente quando o sistema de reprodução da planta daninha é a autogamia, pois a recombinação gênica de diferentes alelos que conferem resistência tem menor probabilidade de ocorrer do que em relação às plantas alógamas.

Demais alternativas

Outras alternativas podem ser: cultivo de culturas mais competitivas, espaçamento mais adensado, controle biológico e uso de cobertura mortal. É interessante manter um histórico de cada área da propriedade para se identificar a evolução da população de determinadas espécies, pois, normalmente, a ocorrência dos biótipos resistentes não pode ser detectada durante os primeiros anos de aplicação do agente de seleção.

Estudo de casos

Existem três casos confirmados de biótipos de Brachiaria plantaginea (capim marmelada) resistentes a herbicidas inibidores da ACCase, todos no Paraná. Na região de Três Capões, Município de Guarapuava, as suspeitas surgiram em 1989. Na propriedade, o controle das gramíneas vinha sendo feito sistematicamente com sethoxydim. Como o controle de capim-marmelada estava sendo abaixo do esperado, em 1992, substitui-se o sethoxydim por clethodim e fenoxaprop-p-ethyl.

Mesmo assim não se obteve controle efetivo. Em 1996/97, fez-se um teste com quizalofop-p-ethyl, que também se mostrou ineficiente. Em 1997/98, nicosulfuron e imazethapyr foram incluídos nos testes e foram eficientes no controle de capim-marmelada. A diferença é que esses herbicidas apresentam mecanismo de ação diferente dos demais. Nicosulfuron e imazethapyr são inibidores da ALS. É importante destacar que nicosulfuron não tem registro para soja, mas seu uso foi possível porque o agrônomo responsável tinha conhecimento de que a cultivar de soja Coodetec 201 é tolerante às sulfoniluréias.

Em Palmeirinha, município de Guarapuava, o caso foi semelhante. Entre 1992 e 1994, o controle de capim-marmelada por sethoxydim foi parcial. Em 1995 e 1996 o produtor substituiu o produto por clethodim. Em 1997, fez-se aplicação seqüencial de clethodim, sendo que a segunda aplicação foi feita somente nas rebrotas. Para 1998, planejou-se o uso da cultivar Coodetec 201 para pulverização de nicosulfuon ou imazetapyr.

O terceiro caso ocorreu na região de Covó, município de Mangueirinha, envolvendo o uso de fenoxaprop-p-ethyl e clethodim, entre 1994 e 1997, observando-se redução no controle de campim-marmelada.

Nos três casos, observa-se que a escolha do produto alternativo foi feita dentro do mesmo grupo de mecanismo de acão, sethoxydim, clethodim, fenoxapro-p-ethyl e quizalofop-p-ethyl (inibidores da ACCase) e que o sucesso no controle só foi observado quando se optou por produtos com outro mecanismo de ação, nicosulfuron e imazethapyr (inibidores da ALS).

Desses casos, conclui-se que é de fundamental importância o conhecimento da classificação dos herbicidas quanto ao seu mecanismo de ação para que possa planejar adequadamente a rotação do uso de herbicidas e de culturas visando evitar e retardar o aumento da freqüência do biótipo resistente na área.

Pedro Jacob Christoffoleti,
Esalq / Usp

* Este artigo foi publicado na edição número 21 da revista Cultivar Grandes Culturas, de outubro de 2000. ver mais artigos
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