De onde vêm os patógenos

A hidroponia surgiu, em boa parte, da necessidade de evitar o aparecimento de doenças provocadas por patógenos de solo que sempre ameaçaram a produtividade de algumas hortaliças. A princípio, acreditava-se que, com a eliminação do solo do sistema, e por conseqüência dos patógenos nele contidos, seria preservada a integridade dos órgãos subterrâneos, principalmente as raízes, que assim manteriam seu potencial de absorção de nutrientes essenciais ao desenvolvimento normal da planta.

Explorada há algumas dezenas de anos, a hidroponia é hoje usada com muito sucesso para a produção de alface, embora possa ser usada para a maioria das hortaliças folhosas e de frutos. Tem sido até recomendada para a produção de batata-semente pré-básica.

Passada a euforia dos primeiros cultivos onde os problemas fitossanitários geralmente são menores que as dificuldades de ajuste do sistema hidropônico, percebe-se que a freqüência com que as doenças aparecem aumenta em proporção ao tempo de uso e às práticas de manejo do sistema. Daí as perguntas freqüentes, algumas com respostas ainda não bem elucidadas: Como é que a doença aparece no sistema? De onde vêm os patógenos que iniciam as infecções? Como a doença se espalha dentro do sistema? O que fazer para evitar a entrada de patógenos no sistema? Como reduzir as perdas depois que a doença aparece? Como eliminar os patógenos após eles terem se instalado no sistema para evitar a contaminação do próximo cultivo?

Antes que essas perguntas possam ser respondidas, é necessário um alerta: Não existem dois sistemas iguais funcionando ao mesmo tempo e nenhum sistema funciona o tempo todo da mesma maneira. Por esse motivo, não existe uma receita básica que funcione para todas as situações. Cada combinação sistema x época x variedade da planta tem suas peculiaridades e deve ser manejada diferentemente, de acordo com alguns dos fatores:

Construção da estufa

Independente do tipo, o sistema hidropônico deve ser bem planejado, levando-se em conta a posição da estrutura construída, o tipo de plástico usado, os materiais empregados em cada uma das partes, os filtros etc. Informações sobre esse tema poderão ser encontrados com detalhes em outras publicações da Embrapa Hortaliças. Atentar para o fato de que cada sistema afeta sobremaneira a sua forma de limpeza;

Variedade de hortaliças

Deve ser a adequada para cada época de plantio. Variedades não adaptadas ficam estressadas, principalmente pela alta temperatura, tornando-se muito sensíveis a doenças;

Preparo da solução nutritiva

Levar em conta que plantas da mesma espécie, porém de outras variedades, com diferentes idades e em climas distintos, absorvem os nutrientes de maneira diferenciada. Qualquer desbalanço nutricional levará a perdas que vão desde distúrbios imperceptíveis até o comprometimento total da cultura;

Produção de mudas

Mudas podem ser produzidas na própria solução nutritiva ou em substrato sólido. Portanto, estão sujeitas a diferentes riscos de contaminação externa.

1. Doenças e agentes causadores

Os agentes causadores de doenças em sistemas hidropônicos, ou patógenos, são os mesmos que afetam as plantas cultivadas em campo aberto. A diferença é que, para os cultivos hidropônicos, a cultura está mais isolada de patógenos associados ao solo e daqueles disseminados pelo vento. Constituem-se de bactérias, fungos, vírus e nematóides. Destes, os nematóides são os menos importantes, pois são normalmente dependentes da presença de solo para sua locomoção, infecção e multiplicação. Os microorganismos mais comumente encontrados são o fungo Pythium sp., que causa morte de raízes e murcha da planta, e a bactéria Erwinia sp., que causa a podridão mole.

2. De onde eles vêm e como evitá-los?

Em sementes: Várias espécies de bactérias, fungos e vírus fitopatogênicos são transmitidos pela semente. Por isso, é fundamental que as sementes usadas para a produção de mudas sejam de boa qualidade. Devem ser adquiridas de companhias idôneas, que garantam sua qualidade através de testes de comprovação de sanidade. É comum uma doença transmitida por semente se manifestar somente na fase adulta, sendo por isso difícil diagnosticar a sua procedência.

Em mudas: É cada vez mais comum a oferta de mudas preparadas por produtores especializados. A sanidade dessas, além dos pontos comentados acima para o caso de sementes, deve ser conferida através de visita ao lote durante sua produção.

Em substrato: Substratos sólidos, tanto no sistema definitivo como os usados para produção de mudas, podem ser fontes de inóculo, desde que não tenham sido esterilizados ou que tenham sido armazenados em condição inadequada. Devem ser adquiridos de firma idônea ou esterilizados na propriedade.

Na água: A água usada no preparo da solução nutritiva pode estar contaminada antes de chegar ao sistema, distribuindo os propágulos na solução circulante. Portanto, deve ser de boa qualidade, tanto química como física e biologicamente. De preferência, deve ser retirada de poços artesianos ou deve ser filtrada antes de entrar no sistema. É essencial também que a água seja armazenada em caixas limpas e sanitizadas regularmente.

Nas mãos: Após tocarem em plantas doentes, as mãos ficam contaminadas e podem espalhar diversas doenças, como no caso de desbrota de tomateiro. Por isso, devem ser periodicamente lavadas em água e sabão, principalmente após tocarem plantas doentes fora ou dentro da estufa. Pessoas fumantes devem ter cuidado especial para não transmitirem o vírus TMV, presente no fumo, que afeta várias hortaliças.

Em ferramentas: As usadas para desbrota, por exemplo, transmitem principalmente vírus e bactérias, após o contato com planta doente. Essas ferramentas devem ser desinfestadas com solução de hipoclorito de sódio ou detergente cada vez que plantas suspeitas de infecção tenham sido tocadas.

Em caixas: Caixas de colheita podem estar infectadas durante o transporte e comercialização, provocando risco de contaminação se não passar por uma limpeza e desinfestação eficientes antes de serem introduzidas na estufa.

No solo: Muitos são os patógenos de solo que, pelo vento ou através de aerossóis provocados por respingos de água que caem das bancadas, contaminam o sistema. Para evitar esse problema, o solo deve ser cimentado ou coberto por brita, para desfavorecer a sobrevivência dos patógenos. As raízes de algumas espécies, como o tomateiro, quando plantadas em sacos posicionados no chão, podem furar os sacos contendo substrato e ser infectadas por patógenos presentes no solo. Nesse caso, deve-se cuidar para que os sacos não fiquem em contato direto com o solo.

Em calçados: Principalmente quando o solo está úmido, partículas de solo podem ser introduzidas na hidroponia através de calçados sujos, aí liberando propágulos de patógenos que chegarão às plantas através de correntes de vento. Antes de entrar nas estruturas, os calçados devem ser limpos e desinfestados em caixa contendo cal virgem. Alternativamente, pode-se deixar um par de calçados para ser usado somente no interior da estrutura.

De estufas ou campos vizinhos: Em especial os fungos que afetam a parte aérea das plantas, como Cercospora lactucae da alface e Phytophthora infestans do tomateiro, são facilmente carregados pelo vento para dentro da estrutura a partir de fontes próximas de inóculo. Estruturas para cultivo hidropônico devem ser afastadas de campos de produção e de estruturas que possam conter plantas mais velhas sendo manuseadas. Folhas velhas de alface descartadas durante a toalete (limpeza) são eficazes fontes de inóculo para plantas mais novas. Embora devam ser evitadas, as pulverizações, com fungicidas especificados para cada doença, podem ser usadas para controlar patógenos introduzidos pelo vento, com os cuidados que a aplicação de agrotóxicos requer, principalmente em ambientes fechados.

De plantas daninhas: Muitos patógenos de hortaliças e vetores, principalmente de vírus, sobrevivem e multiplicam-se em plantas daninhas. Os arredores da estrutura devem ser mantidos limpos e a estrutura fechada, sem rasgos no plástico.

Quando se perceber que o sistema hidropônico está contaminado por um fungo como Pythium ou uma bactéria como Erwinia sp., que são patógenos que encontram ambiente altamente favorável em água livre, o sistema deve ser submetido à limpeza de antes de se iniciar nova safra. Plantios de lotes de mudas de diferentes idades dentro da mesma estrutura dificultam esse processo, já que a presença constante da hospedeira impede que se quebre o ciclo infeccioso do patógeno.

A limpeza do sistema NFT é a mais fácil, bastando deixar correr por uma noite uma solução de hipoclorito de sódio com 40 ppm de cloro ativo (2 litros de água sanitária comercial contendo 2% de cloro por 1000 litros de água). É importante que o sistema seja enxaguado no dia seguinte com água pura antes de se colocar as mudas, pois o cloro apresenta alta fitotoxicidade. Quanto mais suja a água, menos eficiente será o tratamento com cloro. Para outras soluções desinfestantes, um agrônomo deve ser consultado.

Carlos A. Lopes,
Embrapa Hortaliças

* Este artigo foi publicado na edição número 18 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de fevereiro/março de 2003. ver mais artigos
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