Deformado e sem valor

A cultura do pimentão (Capsicum annum) vem sofrendo nos últimos anos um problema sério, que é a “cabeça de gato”. A síndrome foi constatada em 1994, em algumas regiões produtoras de pimentão, principalmente, na região de Lins no Estado de São Paulo, com perdas de aproximadamente de 2 a 3 % de frutos anômalos (achatados). Nos anos subsequentes o problema aparentemente diminuiu, entretanto, nos últimos anos voltou a ocorrer e acarretar perdas significantes, em torno de 70% para alguns produtores.

O sintoma característico é de deformação dos frutos, que foi denominado pelos produtores de “cabeça de gato”. Vários padrões de deformações são observados, que vai desde a redução do tamanho até o comprometimento total na comercialização do fruto. Órgãos florais bem desenvolvidos e a quantidade de sementes em frutos normais e com o problema são semelhantes e abundantes. Na mesma plantas são observados fruto deformados e com desenvolvimento normal. Foi possível recuperar plantas com a anomalia, com produção de frutos normais, após o transplante desta em um vaso contendo solo novo, autoclavado e adubado adequadamente para a cultura. O problema ocorre com maior freqüência e de forma mais grave nas épocas mais frias do ano, ou quando o ciclo da cultura do pimentão é estendido, ou seja, há cultivo do pimentão, praticamente, durante todo o ano. Também quando o produtor utiliza mudas consideradas velhas, mais de 25 dias cultivadas em bandeja.

As deformações de frutos podem ser provocadas por diversos fatores, sendo comum, os ocasionados por tripes, ácaros e vírus. Em cultivos protegidos, aparecem frutos com diferentes padrões de deformações, resultado do seu desenvolvimento em condições climáticas desfavoráveis, principalmente temperaturas elevadas. Entretanto, este fator mencionado, foi inicialmente descartado, por se tratar de um cultivo de campo e em uma região tradicional e propicia para o desenvolvimento da cultura.

Analisando o problema e acompanhando a sua evolução, algumas hipóteses que poderia explicar o fenômeno, foram levantadas, como: deficiência nutricional; nutrição x variedades; distúrbios fisiológicos; fitotoxicidade; distúrbios genéticos de variedades cultivadas na região; causa patogênica. A maioria das hipótese levantadas já foram testadas e apresentaram resultados negativos.

Durante estes anos foram realizados vários ensaios, levando como a hipótese a ocorrência de um agente patogênico. Foi constatada a ocorrência de Cucumber mosaic virus – CMV, que caracterizado, não reproduziu o sintoma característico de “cabeça de gato”, o mesmo resultado foi observados quando foi possível isolar e caracterizar outros vírus.

Consultando novas literaturas, técnicas modernas disponíveis (moleculares), sintomas nos campos melhores caracterizados, e por ser uma região que apresenta propriedades com extensa área de pastagem, já que também é uma região pecuária importante, e gramíneas são habitat de cigarrinha, levantou-se a hipótese de ser o agente causal um Fitoplasma. Até o momento não se tem resultado conclusivo sobre esta hipótese levantada. Outra suspeita seria o Tomato curly top virus (broto crespo do tomateiro).

Para o controle o produtor deve ser orientado no sentido de minimizar o problema, observando o seguinte: plantar sementes de boa qualidade, adquiridas de empresas idôneas; preferir cultivares bem adaptadas para a região; fazer adubação baseada em análise de solo; produzir ou adquirir mudas sadias e idade adequada para o transplantio; usar água de boa qualidade; no controle de ervas daninhas, pragas e doenças com defensivo, utilizar produtos adequados e com acompanhamento de um técnico responsável; rotação de cultura; destruir os restos culturais, que podem hospedar populações de insetos e patógenos. Pode ser feita através de enterrio profundo ou queima controlada; evitar o plantio de culturas intercaladas junto à cultura do pimentão, pois podem hospedar viroses e vetores.

Marcelo Agenor Pavan,
FCA/UNESP
Rômulo F. Kobori,
Sakata Seed Sudamerica LT.

* Este artigo foi publicado na edição número 22 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de outubro/novembro de 2003. ver mais artigos
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