Depreciação de máquinas agrícolas

Muitos fatores influenciam na depreciação que as máquinas agrícolas sofrem durante a sua vida útil. Pesquisas com tratores buscaram determinar o modelo de depreciação que melhor representa o valor de mercado em função das marcas comerciais e das faixas de potência disponíveis.

A agricultura é um importante setor econômico, pois além de gerar empregos, é grande responsável por exportações. O agronegócio é estratégico para a economia brasileira, principalmente em época de crise econômica, representando 23% do PIB e sendo único setor com crescimento notável em 2014 (Cepea, 2014). A venda de máquinas agrícolas tem papel fundamental no PIB do agronegócio. Segundo dados da Anfavea (Associação Brasileira de Veículos Automotores, 2014), no ano de 2014 foram comercializados 55.623 tratores de rodas dos fabricantes cadastrados à associação.

As máquinas agrícolas usadas sofrem depreciação, que é o valor que o trator perde durante a sua vida útil, influenciado pela maneira como o mesmo é utilizado, operado e mantido ao longo de sua vida (Machado, 2010). A maneira mais simples de calcular a depreciação do trator é pelo método da “linha reta”, o qual consiste em amortizar o capital empregado na aquisição do bem em parcelas iguais durante a sua vida estimada (Custódio et al, 2013). Porém, o método mais adequado disponível é o preço de mercado, que está baseado na pesquisa do valor da maquinaria junto aos revendedores (Consentino, 2004).

O objetivo desse trabalho é determinar o modelo de depreciação que melhor represente o valor de mercado em função das marcas comerciais e de faixas de potência.

A coleta de dados ocorreu entre os dias 1º de março e 30 de agosto de 2014. Os dados foram coletados de sites específicos de venda na internet e agrupados em uma planilha Excel.

Os dados foram coletados levando em consideração a marca comercial, o modelo, a potência bruta do motor, o ano de fabricação, o número de horas trabalhadas (se informado), se o trator é específico para alguma cultura, o estado dos pneus e a pintura (se informado pelo vendedor), o tipo de tração (4x2, 4x2 TDA ou 4x4), se possui cabine, algumas observações como caixa de mudança de marcha de 12 velocidades, se o trator possui lâmina dianteira, tipo de pneu, a cidade e o estado (UF) onde se encontra o trator, o nome do site de vendas e o link do veículo, o preço de venda da máquina usada e o preço de venda da máquina nova, que foi obtido através do IPMA - Índice de Preços de Máquinas em 11/9/2014.

Com os dados de valores dos tratores novos junto com seu valor de venda obteve-se a porcentagem do preço em relação ao valor novo, que é basicamente o valor do modelo usado dividido pelo valor do modelo novo. Quando o modelo de trator ou marca não existe mais, utilizaram-se preços de marca semelhante com um modelo de mesma potência do motor.

Houve a divisão em faixas de potência para tentar melhorar a correlação dos dados e assim encontrar uma função que melhor se adequasse. A divisão em faixas de potência foi em função ao número de tratores e não seguiu uma distribuição igual. As faixas adotadas foram em cv, até 59, 60 a 75, 76 a 90, 91 a 110, 111 a 130, 131 a 150, 151 a 180 e maior que 180cv.

Foram encontrados 346 tratores de sete diferentes marcas. 100 unidades da marca Valtra/Valmet, 86 unidades da marca Ford/New Holland, 66 unidades da marca Massey Ferguson, 31 unidades da marca Case IH, 28 unidades da marca John Deere, 28 unidades da marca Agrale e sete unidades da marca CBT. Os tratores estavam distribuídos em 16 estados brasileiros, onde a maioria se encontra no estado de São Paulo. Também foram avaliados os tratores identificados como usados na cultura da cana-de-açúcar sendo comparados aos demais.

De acordo com os dados obtidos de idade e porcentagem do preço em relação ao valor do trator novo foram construídas curvas divididas em marcas comerciais, como demonstra a Figura 1, que é um exemplo de uma das marcas comercias.

Figura 1 - Preço relativo das máquinas em relação ao preço inicial, em função do tempo de uso
Figura 1 - Preço relativo das máquinas em relação ao preço inicial, em função do tempo de uso.

Conforme a curva de regressão, encontrou-se um coeficiente de correlação igual a 0,65, sendo a melhor função, que se ajustou ao modelo proposto, é y = 76,62e-0,031x, onde “y” é a porcentagem do trator em relação ao valor de um novo e “x” a idade em anos para todas as marcas analisadas. As demais equações para diferentes marcas se encontram na Tabela 1.

Observa-se pela Figura 1 que alguns dados extrapolam o valor de 100%, isso devido à fonte de dados para obtenção de valores novos realizar uma média nacional dos preços das máquinas novas, onde o preço das máquinas novas varia em função do Estado.

Conforme a curva de regressão encontrou-se um coeficiente de correlação igual a 0,845, sendo a melhor função, que se ajustou ao modelo proposto, é y = 85,423e-0,035x, onde “y” é a porcentagem do trator em relação ao valor de um novo e “x” a idade em anos na faixa de potência de 44,1 a 55,2kW. As demais equações para diferentes faixas de potência se encontram na Tabela 1.

Observa-se pela Tabela 1 que somente a faixa de potência de 151cv a 180cv teve coeficiente de determinação (R²) relativamente baixo, pois nessa faixa de potência apresentada houve maior divergência entre os tratores no que se refere às variáveis analisadas, como, por exemplo, a existência de tratores com e sem cabines e os tratores que operam em diferentes culturas, como os chamados “canavieiros”, que pelo seu trabalho intensivo podem depreciar mais do que aqueles que operam em grãos, por exemplo.

Análise semelhante foi feita com as diferentes marcas comerciais (Tabela 2), aqui apresentadas sem serem identificadas, exceto a extinta CBT. 

Observa-se que somente a marca CBT apresenta uma correlação muito baixa, isso devido aos tratores analisados apresentarem divergências, como conjunto lâmina dianteira, rodado duplo, cabine, e alguns serem comercializados como itens de coleção, exigindo preços muito acima do valor de mercado em comparação com outras marcas.

Para a atividade canavieira, a equação determinada foi y = 84.776e-0.081x (R² = 0,816), para as demais atividades foi y = 87,69e-0,04x (R² = 0,396), indicando maior depreciação dos tratores canavieiros.

Conclusões

As diferentes situações a que os tratores são impostos influenciam o comportamento do modelo. A estratificação por marcas e a divisão por faixas de potência permitiram maiores coeficientes de determinação (R²) dos dados, na maioria dos casos, com um melhor ajuste do modelo. A faixa de potência que apresentou maior depreciação nos primeiros anos foi a de até 59cv, porém com o decorrer do tempo a faixa de potência com maior depreciação foi de 151cv a 180cv. A marca que sofre maior depreciação é a E, a que sofre menor é a D. Tratores operando em cana-de-açúcar depreciam mais que aqueles que operam em outras atividades.


Thiago L. Romanelli, USP/Esalq; Giovani A. Ghirardello, USP; Leandro M. Gimenez, USP/Esalq


Artigo publicado na edição 159 da Cultivar Máquinas. 

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