Dados e estratégias para aplicação de defensivos

Os produtos fitossanitários, embora desempenhem um papel importante no sistema de produção agrícola, têm sido alvo de crescente preocupação por parte dos diversos segmentos da sociedade, em virtude de seu potencial de risco.


Uma das maneiras de maximizar a eficiência da aplicação e minimizar as perdas e os riscos de contaminação provocados por defensivos agrícolas pode ser a utilização de técnicas de aplicação adequadas a cada situação, a fim de melhorar o depósito no alvo.

Além de estudar fatores inerentes às plantas daninhas a serem controladas, como a espécie, a fase de desenvolvimento, a arquitetura, a densidade e a forma de reprodução das mesmas, é imprescindível também estudar fatores inerentes à aplicação, como o produto a ser aplicado, o tamanho e a densidade de gotas, as perdas para o solo e por deriva, o equipamento pulverizador, o volume de calda e as pontas de pulverização (Souza et al, 2007; Viana et al, 2007).

Atualmente, existem no mercado pontas de pulverização hidráulicas de vários tipos e usos definidos para diferentes condições operacionais. Outra informação de grande importância para condições de campo refere-se à possibilidade de redução dos volumes de calda atualmente empregados, pois dessa forma seria possível aumentar a capacidade operacional e a autonomia dos pulverizadores. Isso reduziria o custo da aplicação, no entanto, requer o estudo sobre o não comprometimento da eficiência do processo de aplicação.

Pesquisadores da Universidade Federal de Uberlândia realizaram ensaios para avaliar a dessecação de plantas daninhas, a deposição de calda de pulverização no alvo, as perdas para o solo e a deriva promovidas pela aplicação de herbicida, com a utilização de diferentes volumes de calda e pontas de pulverização.

COMO A AVALIAÇÃO FOI FEITA

Com intuito de avaliar o processo de aplicação de herbicida em dessecação de plantas daninhas, foi utilizado o ingrediente ativo 2,4-D Amina (produto comercial DMA 806 BR, na concentração de 806g/L de i.a.) na dose de 1L/ha de produto comercial, conforme recomendação do fabricante, tendo como referencial teórico a instalação futura da cultura do milho. O experimento constou de seis tratamentos conforme descrito na Tabela 1.

Para a aplicação dos tratamentos foi utilizado um pulverizador de barra hidráulico acoplado a um trator, modelo Jacto AM-14, com barra de 14m, espaçamento entre bicos de 0,50m e capacidade do tanque de 600L. A pressão de líquido empregada foi de 207kPa e as velocidades de deslocamento, para os volumes de aplicação de 80L/ha e 130L/ha, foram de 10km/h e 6km/h, respectivamente.

Para avaliar a aplicação do herbicida, foi realizado um estudo de deposição da calda nas plantas daninhas, perdas para o solo e perdas por deriva. Também foi realizada a avaliação da eficácia de controle das plantas daninhas presentes na área experimental. O estudo de deposição, perdas para o solo e deriva foi realizado quantificando-se o herbicida depositado sobre os alvos por cromatografia líquida.

Após a aplicação do herbicida, a avaliação da deposição foi realizada com a retirada das plantas daninhas de cada parcela. Elas foram cortadas rente ao solo e acondicionadas em sacos plásticos. Posteriormente, as amostras foram levadas ao laboratório para extração e determinação da quantidade de ingrediente ativo depositado. A determinação do ingrediente ativo perdido para o solo foi realizada por meio da distribuição ao acaso de lâminas de vidro (37,24cm2) por parcela.

Para a determinação da deriva, foram colocados a cinco metros de distância paralelamente e externamente às parcelas, no sentido de deslocamento do vento, fios de nylon de 2mm de diâmetro. Após a aplicação, os fios foram recolhidos, acondicionados em sacos plásticos e levados ao laboratório para determinação do ingrediente ativo.

Na análise da eficácia de controle das plantas daninhas, foi realizada uma avaliação visual de controle, aos 20 dias após a aplicação do herbicida (DAA), mediante a escala percentual de notas de controle de plantas daninhas (Alam, 1974).

OS RESULTADOS OBTIDOS

Os dados de deposição do herbicida nas plantas daninhas estão apresentados na Tabela 2. O volume de 80L/ha proporcionou maior deposição nas plantas quando comparado ao volume de 130L/ha. A redução do volume de aplicação, aliada à utilização de ponta com característica de gotas média e grossa, não comprometeu a eficiência e a cobertura do alvo.

As pontas avaliadas promoveram diferenças na deposição. A ponta de jato plano duplo de pré-orifício, com tamanho de gotas médio, gerou maior deposição nas plantas daninhas, quando comparada com a de jato plano defletor com indução de ar, com gotas extremamente grossas, porém, não se diferenciou da ponta de jato plano defletor, de gotas grossas. Os resultados sugerem que as gotas médias foram mais adequadas no que se refere à deposição no alvo, contudo, o fato de se ter trabalhado com uma ponta de jato plano duplo, com gotas médias, também pode ter corroborado com esse resultado. De qualquer forma, a magnitude de variação entre as pontas não foi grande.

Na Tabela 3, observa-se a massa do herbicida retida nas placas junto ao solo. O volume de 130L/ha proporcionou maiores perdas para o solo em todas as pontas, quando comparado ao de 80L/ha. Com esse volume, a ponta de jato plano duplo com pré-orifício levou à menor perda e a de jato plano defletor, com indução de ar, à maior. As gotas muito grossas têm maior peso e, por isso, maior dificuldade de retenção na folhagem, tendo como destino final, muitas vezes, o solo. Para o volume de 130L/ha, a ponta de jato plano defletor com indução de ar também ocasionou maior perda, porém, não se diferenciou da ponta de jato plano defletor.

A metodologia utilizada neste ensaio não proporcionou a detecção de deriva. O percentual de controle das plantas daninhas, avaliado aos 20 DAA (Tabela 4), foi satisfatório, com valores entre 87,50% e 92,50%, não havendo diferença entre os tratamentos.

Considerações finais

O volume de aplicação de 80L/ha e as gotas grossas podem ser utilizados na dessecação de plantas daninhas com o herbicida, sem comprometer a cobertura do alvo. Observou-se maior perda de herbicida para o solo quando se utilizaram as pontas de jato plano defletor com indução de ar. Contudo, as diferentes pontas de pulverização empregadas, com gotas médias, grossas e muito grossas, bem como os volumes de aplicação de 80L/ha e 130L/ha, não influenciaram o controle das plantas daninhas.

Tabela 1 - Descrição dos tratamentos avaliados

Tratamento

Ponta de pulverização

Volume de calda

(L ha-1)

Classificação do tamanho de gota*

Diâmetro de gotas - DMV (μm)*

1

Jato plano duplo de pré-orifício - DGTJ60 11002

80

Média

216

2

Jato plano duplo de pré-orifício - DGTJ60 11002

130

Média

216

3

Jato plano defletor - TT 11002

80

Grossa

380

4

Jato plano defletor - TT 11002

130

Grossa

380

5

Jato plano defletor com indução de ar - TTI 11002

80

Extremamente grossa

925

6

Jato plano defletor com indução de ar - TTI 11002

130

Extremamente grossa

925

* Classificação do tamanho de gota e diâmetro da mediana volumétrica (DMV), segundo o fabricante, a 200kPa de pressão.

Tabela 2 - Massa de 2,4-D Amina retida na folhagem das plantas daninhas (mg de 2,4-D kg-1 de matéria úmida), após a aplicação do herbicida com diferentes pontas de pulverização, em dois volumes de aplicação

Ponta

Volume de aplicação (L ha-1)

Média

80

130

Jato plano duplo de pré-orifício

45,08

42,39

43,73 a

Jato plano defletor

44,87

41,05

42,96 ab

Jato plano defletor com indução de ar

44,63

37,62

41,13 b

Média

44,86 A

40,35 B

Médias seguidas por letras distintas minúsculas, na coluna, e maiúsculas, na linha, diferem entre si, pelo teste de Tukey, a 0,05 de probabilidade.

Tabela 3 - Massa de 2,4-D Amina retida na placa junto ao solo (µg de 2,4-D cm-2), após a aplicação do herbicida com diferentes pontas de pulverização, em dois volumes de aplicação

Ponta

Volume de aplicação (L ha-1)

Média

80

130

Jato plano duplo de pré-orifício

0,99 cB

1,05 bA

1,02

Jato plano defletor

1,16 bB

1,36 aA

1,26

Jato plano defletor com indução de ar

1,22 aB

1,41 aA

1,32

Média

1,12

1,27

Médias seguidas por letras distintas minúsculas, nas colunas, e maiúsculas, nas linhas, diferem entre si, pelo teste de Tukey, a 0,05 de probabilidade.

Tabela 4 - Percentual de controle das plantas daninhas, avaliado aos 20 dias após a aplicação do herbicida, com diferentes pontas de pulverização, em dois volumes de aplicação

Ponta

Volume de aplicação (L ha-1)

Média

80

130

Jato plano duplo de pré-orifício

92,50

88,75

90,62

Jato plano defletor

92,50

87,50

90,00

Jato plano defletor com indução de ar

91,25

87,50

89,37

Média

92,08

87,92


Este artigo foi publicado na edição 143 da revista Cultivar Máquinas. Clique aqui para ler a edição.

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João Paulo A. R. da Cunha; Lélio A. Souza

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