Desafios de manejo da lagarta Helicoverpa armigera no Brasil

Passados quase quatro anos desde a identificação oficial da lagarta Helicoverpa armigera no Brasil, o desafio representado por esta praga segue muito longe de solução definitiva. Experiências negativas em outros países e o registro recente de casos não esporádicos do inseto em campos de soja, especialmente cultivos não Bt, áreas de pousio e soqueiras de algodão, principalmente em Mato Grosso, bem como relatos de ataques em outros estados como Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais, dão o tom da dimensão do problema. É preciso redobrar os esforços conjuntos, para que erros cometidos no passado com outras pragas, como a mosca branca, não se repitam no país.

Em 2013 notificou-se pela primeira vez a ocorrência de Helicoverpa armigera no Brasil, e a exceção de alguns órgãos que mantiveram suas pesquisas em torno do assunto, pouca coisa de concreto foi feita em relação ao manejo dessa praga.

Mesmo com toda importância dada a este inseto nos anos que se seguiram, a partir do registro de moléculas inseticidas para controle da lagarta e o aumento das áreas cultivadas com soja Bt, os estudos em relação a H. armigera diminuíram, e o que é pior, o Brasil ainda se encontra  na dependência de portarias do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) para manutenção do “estado de emergência fitossanitária” e com isso obter a autorização para uso emergencial de alguns produtos ainda não registrados para a praga em questão.

O mais curioso é que apenas cinco estados brasileiros (o que é incoerente devido a ampla distribuição da H. armigera no país) pediram essa liberação, e desde então sua prorrogação ocorre anualmente.

A dificuldade em se registrar agroquímicos e, neste caso, não só para H. armigera, se dá por vários motivos, entre eles a morosidade com que órgãos públicos emitem registros no Brasil. Atualmente, são necessários de cinco a dez anos para que um produto possa ser comercializado no país. Muito longe de desmerecer as exigências dos órgãos responsáveis pelo processo e tampouco a necessidade dos estudos em relação aos produtos químicos (fases extremamente importantes) a modernização dessa legislação torna-se necessária e urgente, uma vez que a falta de opções pode levar os produtores a adoção de defensivos não registrados e/ou contrabandeados, que não possuem controle de qualidade, e por desconhecimento do que está sendo pulverizado coloca-se em risco a própria agricultura brasileira, seus usuários e o ambiente, além da perda de arrecadação de impostos para o país. Essa é uma questão que se espera seja discutida em breve, pois está em tramitação no Congresso Nacional um Projeto de lei (nº 3200/2015) que reduz para até 180 dias o prazo para este tipo de registro.

O monitoramento de modo contínuo antes, durante e depois do plantio é medida que se impõe no combate ao inseto.
O monitoramento de modo contínuo antes, durante e depois do plantio é medida que se impõe no combate ao inseto.

Passados quase quatro anos da constatação oficial de H. armigera no Brasil, os problemas decorrentes da presença da praga nos cultivos agrícolas infelizmente foram sendo minimizados, uma falha, considerando a importância mundial deste inseto e a necessidade de estudos aprofundados em território brasileiro, principalmente, relacionados a sua dispersão, biologia, comportamento em diferentes hospedeiros e regiões, táticas de controle, entre outros. Essa falta de informação arrisca comprometer o entendimento da praga e seu controle, e a possibilidade de que se enfrente novos ataques passa a ser iminente, já que se tem a sensação equivocada de que o problema “H. armigera” foi superado.

Entretanto, acredita-se que a não ocorrência de surtos da praga nas últimas safras se deve ao empenho da cadeia produtiva em controlá-la e, portanto, não se pode deixar de reconhecer a contribuição das instituições públicas e privadas de Ensino e Pesquisa, em informar e orientar o produtor sobre como enfrentar esse inseto no campo. Sem essa contribuição, que muitas vezes foi vista como alardes exagerados, provavelmente o sucesso da lagarta em detrimento dos cultivos no Brasil seria bem maior.

Casos de ataques de Helicoverpa armigera estão se multiplicando nas regiões produtoras à medida que o plantio da nova safra avança.
Casos de ataques de Helicoverpa armigera estão se multiplicando nas regiões produtoras à medida que o plantio da nova safra avança.

Porém, apesar dos alertas, estão sendo repetidos os mesmos erros cometidos no passado em relação às pragas exóticas, como é o caso da mosca branca (Bemisia tabaci biótipo “B”). Após 20 anos desde a sua identificação em território brasileiro as pesquisas pouco avançaram e atualmente, com raras exceções, os produtores tem como única ferramenta de controle os inseticidas, dos quais, muitos perderam eficácia ao longo dos anos e além disso, o país já está enfrentando um novo biótipo de B. tabaci.

Entender o porquê desse equívoco talvez não seja tão difícil, já que, também em relação a H. armigera, os produtores brasileiros se encontram na dependência quase que exclusiva de ferramentas químicas para seu controle. Embora tenham sido apresentadas outras formas de manejar essa praga (Vide Quadro 1 com a exposição das diferentes táticas de manejo disponíveis para os produtores conforme a evolução da praga e da cultura). Sem contar as frequentes epizootias de fungos entomopatogênicos e a significativa presença de lagartas e pupas parasitadas de H. armigera observadas em vários cultivos e em diferentes estados, que  se apresentam como importantes agentes naturais de controle biológico.

Quadro 1
Quadro 1

Contudo, sempre se escolheu a ferramenta química como principal forma de controle, talvez por se apresentar ao produtor de forma mais cômoda, com resultados rápidos e “dispensar” mão-de-obra especializada. Um erro grave, pois em um país onde a agricultura é base de sustentação para a economia, manter-se tão dependente de uma única ferramenta pode ser no mínimo perigoso, tanto sob o ponto de vista socioambiental como econômico, ainda mais quando se trata de uma praga como a H. armigera.

Basta lembrar que as perdas anuais causadas por insetos-pragas chegam a 12 bilhões de dólares no Brasil, sendo que 1,6 bilhão de dólares é consequência dos ataques de pragas quarentenárias. Além disso, segundo a Defesa Agropecuária/Mapa, a H. armigera pode gerar, somente nas culturas de soja, milho e algodão, um prejuízo em torno de R$ 2 bilhões/ano, sem contar os danos ocasionados em hortaliças por esta praga. Em levantamento feito pelo mesmo órgão, no estado do Mato Grosso, para o controle desta praga há um acréscimo nos custos de produção de R$ 85,00/ha. Este valor corresponde até três aplicações de inseticidas a mais, podendo ainda aumentar dependendo da época e da intensidade do ataque.

A partir de 2013, o Mapa passou a considerar H. armigera presente em vários estados brasileiros e sua erradicação, com certeza nem pode ser aventada, já que casos de ataque da praga foram se multiplicando entre regiões e cultivos ao longo dos meses. Recentemente, estudos de genética de populações comprovaram que H. armigera está a mais tempo do que se preconiza no Brasil e sua detecção infelizmente, foi tardia. Suspeita-se da sua presença em território brasileiro desde 2005, pois surtos de Heliothinae foram observados nesse ano, porém as lagartas foram identificadas como Chloridea virescens ou H. zea devido a grande similaridade da forma jovem dessas espécies. Isso explica a impossibilidade de erradicá-la ou pelo menos impedi-la de se disseminar.

Levando em consideração o grande potencial de H. armigera como praga em Goiás, por meio de um esforço em conjunto com Agrodefesa, Lanagro/Mapa, Emater, Faeg e UFG, tendo como suporte financeiro a Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de Goiás (FAPEG) estão sendo mantidos vários estudos sobre este inseto e já é possível dizer que em Goiás, a H. armigera, tem sua presença comprovada de norte a sul, em diferentes regiões e sistemas agrícolas, tornando-se praga chave não só em cultivos de soja e algodão, mas também em cultivos irrigados de tomate, feijão e milho doce, e sendo provavelmente estas as culturas hospedeiras e multiplicadoras da praga nas entressafras.

Ainda em Goiás, estudos, (dados ainda não publicados) demonstram a presença constante da praga ao longo de todo o ano, mesmo durante as estações secas (Figura 1), resultado preocupante, uma vez que isso pode comprovar a sobrevivência deste inseto sem maiores dificuldades apesar das condições climáticas desfavoráveis ao seu desenvolvimento. 

Figura 1 - Flutuação media da população de Helicoverpa armigera em 27 municípios de Goiás ao longo do ano de 2015 inicio de 2016 em dois sistemas de cultivo, irrigado e sequeiro.
Figura 1 - Flutuação media da população de Helicoverpa armigera em 27 municípios de Goiás ao longo do ano de 2015 inicio de 2016 em dois sistemas de cultivo, irrigado e sequeiro.

Este fato serve de alerta para que seja mantido de forma continua o monitoramento antes, durante e após os plantios. Essa praga, conforme comprovaram estudos no exterior e no Brasil, mesmo em populações reduzidas, é capaz de causar danos irreversíveis, pois tem preferência pelas partes reprodutivas das plantas (Quadro 2). Sem contar que em pesquisas recentes, desenvolvidas na Escola de Agronomia/UFG e ainda não publicadas, constatou-se uma taxa de aumento populacional de uma geração para outra acima de 50 vezes, podendo apresentar até sete gerações ao ano, conseguindo em uma cultura como a soja manter-se por até duas gerações ou mais.

É possível, ainda, que estas gerações possam se sobrepor, devido ao comportamento da praga em manter uma parte da população em diapausa conforme cita a literatura, o que dificultaria um controle satisfatório, principalmente se baseado somente na ação química. Além disso, essa espécie apresenta alto potencial para a evolução da resistência a inseticidas. De acordo com o IRAC (Comitê de ação a resistência a inseticidas) já existem relatos de resistência de H. armigera a piretroides, carbamatos, organofosforados, fipronil, spinosad e indoxacarb em 265 localidades, tais como Austrália, China, Índia, Paquistão, entre outros. Ainda sobre resistência, a literatura internacional relata a obtenção, na China, de população com razão de resistência de 24 vezes em apenas 15 gerações da praga.

O retorno da praga em surtos preocupantes

Evidenciou-se no início desta nova safra casos não esporádicos, da presença de H. armigera em campos de soja, especialmente cultivos não Bt, áreas de pousio e soqueiras de algodão, principalmente no estado do Mato Grosso. Algo preocupante, por ser este estado o maior produtor das culturas de soja (safra 15/16 foram plantados 9.140.000 hectares de soja), milho (3.800.100 hectares de milho) e algodão (660.400 hectares de algodão). Resta saber se é um prenuncio da volta em grande escala da H. armigera ou apenas a resposta comportamental da praga ao descaso com que está sendo tratado problema na região. Insetos da subfamília Heliothinae são conhecidos por persistirem em baixas densidades populacionais em plantas ou áreas que, aparentemente, não lhe são adequadas, como tigueras, soqueiras e plantas infestantes. Com isso, o aumento populacional e consequentemente, surtos da praga em cultivos agrícolas passam a ser inevitáveis.

Infelizmente, não somente no Mato Grosso, mas também em Mato Grosso do Sul, Goiás e Minas Gerais os casos de ataques de H. armigera estão se multiplicando, à medida que o plantio da nova safra avança, obrigando produtores a começar as aplicações logo após a emergência das plantas. Casos de até três aplicações consecutivas para controle da praga já foram relatados nesta nova safra, e médias de até quatro lagartas recém-emergidas/metro em soja convencional, foram quantificadas em monitoramentos, o que deixa muitos produtores em alerta, pois quem viveu o problema da “Helicoverpa” sabe que o seu descontrole pode causar danos irreversíveis.

Presença de adulto de Helicoverpa armigera em sorgo dessecado, no município de Palminópolis, em Goiás.
Presença de adulto de Helicoverpa armigera em sorgo dessecado, no município de Palminópolis, em Goiás.

A dinâmica populacional dessa praga envolve vários fatores dos quais se pode destacar a capacidade de realizar migrações de curto e longo alcance para encontrar hospedeiros adequados, ou mesmo seu alto potencial de sobrevivência às condições adversas, como nos longos períodos de seca que passam os mais importantes sistemas agrícolas do Brasil. É possível definir melhor esse comportamento como um processo de “estivação”, (estiva dos períodos de seca) pelo qual a H. armigera em épocas de adversidades ambientais, pode reduzir seu metabolismo para atingir um estado de dormência similar à hibernação que objetiva superar os períodos de calor e desidratação. Além disso, outros fatores como temperatura, umidade e até as fases da lua podem comprometer a dinâmica populacional dessa praga.

Há de se considerar também que nos países de origem da H. armigera foi comprovada sua presença em anos alternados, como na Austrália, pois o efeito migratório está condicionado às condições climáticas das regiões. Neste país, as chuvas de outono/inverno facilitam o crescimento de plantas nativas hospedeiras, as quais a praga se desenvolve aumentando sua população, e com isso provocando surtos nos cultivos de verão em diversas regiões. Considerando esse fato e os plantios consecutivos de verão e inverno no Brasil, esta praga pode se perpetuar na área aparecendo em surtos, decorrentes do escasso manejo ou mesmo do desmazelo com que o produtor conduz a área, antes, durante e após os cultivos.

Entretanto, é possível considerar que o relativo sucesso no controle da H. armigera nas ultimas safras, se deve a fatores como a comprovada eficácia dos químicos utilizados, tanto no tratamento de semente, como em pulverização e a adoção da tecnologia Bt. Porém, não são a solução para o problema da H. armigera no Brasil. Sendo assim, é importante ressaltar a necessidade de preservar essas ferramentas por meio da adoção e manutenção continua de áreas de refúgios e a rotação dos mecanismos de ação dos inseticidas, ou seja, um programa de manejo de resistência para inseticidas e para cultivos Bt se faz necessário, uma vez que não é possível dar-se ao luxo de perder essas tecnologias. Vale ressaltar que estudos devem ser mantidos e outros retomados, para que o país não seja novamente surpreendido por surtos altíssimos da praga, como no passado quando da ocasião da sua identificação oficial.

O que não pode se repetir são ataques disseminados e escalonados em diferentes regiões do Brasil, causando prejuízos incalculáveis, ou mesmo permitir um desastre como o ocorrido em 1973 na Austrália, no vale do rio Ord, região tropical norte do país, localizada a 15º ao sul do Equador, onde toda a indústria do algodão da região entrou em colapso devido a fatores como a resistência de H. armigera a inseticidas, que obrigaram os produtores a fazer até 40 pulverizações para controle da praga, o que tornou a atividade inviável econômica e ambientalmente. Coincidência ou não, esta região australiana se encontra em latitude semelhante a importantes regiões produtoras de Goiás e Mato Grosso.

É preciso juntar forças e definir metas, tanto para as pesquisas a serem desenvolvidas, bem como para manter os produtores em alerta no quesito detecção da praga, já que seu controle é facilitado quando a H. armigera é constatada ainda nos primeiros estágios. Além do mais, a conscientização dos produtores se torna fundamental, por meio de programas educacionais contínuos, pois somente a informação poderá levar os interessados na área a entender a importância do problema enfrentado. Vale ressaltar que a rapidez com que populações resistentes dessa praga evoluem torna o problema ainda mais grave. Portanto, produtores, consultores, pesquisadores, empresas e órgãos do governo devem se unir para preservar essas tecnologias por meio do estabelecimento de um programa de manejo integrado de pragas efetivo e contínuo, juntamente com um manejo de resistência eficaz e adaptado às diferentes regiões agrícolas brasileiras, mais precisamente retomar aquilo que foi discutido nas inúmeras reuniões feitas no ano da constatação da praga no Brasil.


Cecilia Czepak; Rafael F. Silvério; Matheus Le Senechal; Karina A C. Godinho; Humberto O. Guimarães; Tiago Carvalhais1; Mariana A. Ortega; Luis F. M. Lombardi, Escola de Agronomia/UFG; e Wanderlei D. Guerra, Superintendência Federal de Agricultura em Mato Grosso/MAPA


Artigo publicado na edição 210 da Cultivar Grandes Culturas.


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