Desafios do plantio de Mudas Pré-Brotadas (MPB) em cana

Com o advento da nova tecnologia de plantio de Mudas Pré–Brotadas (MPB) de cana-de-açúcar, se ampliam as oportunidades, ao mesmo tempo em que as pesquisas se intensificam para acompanhar o ritmo das demandas geradas pelo sistema. Uma delas se refere ao manejo químico de plantas daninhas. 

Figura 1 – Fotos da parte aérea e radicular de MPB de cana-de-açúcar.
Figura 1 – Fotos da parte aérea e radicular de MPB de cana-de-açúcar.

Qual a diferença de MPB e da cana convencional? Ou seja, o que muda entre plantar uma muda de cana e um colmo de cana? Apesar de parecer uma simples pergunta, para ser devidamente respondida se faz necessário envolver todas as diferentes áreas agronômicas. Incluindo-se fitopatologia (estudo de fungos, bactérias e vírus); física e conservação do solo; fertilidade do solo, entomologia (estudo de insetos-pragas), irrigação, melhoramento genético e, dentre outras, a fitotecnia.

Diferente do plantio da cana convencional, MPB chega ao campo como uma muda e, como possui folhas e raízes novas e sensíveis, essa é a principal e radical mudança. Não há mais um colmo submerso no solo (que se torna uma barreira física em alguns casos). Diferentemente, as mudas pré-brotadas, por sua juvenil idade (muda nova), possuem folhas com cutículas finas, o que as predispõe a uma perda de água por evapotranspiração. Além de permitir com mais facilidade a entrada menos seletiva de solutos de produtos químicos aplicados. 

Figura 2 – Plantio e uniformidade das mudas pré-brotadas de cana-de-açúcar no campo.
Figura 2 – Plantio e uniformidade das mudas pré-brotadas de cana-de-açúcar no campo.

Dentro da fitotecnia há a área de matologia, que é responsável pelos estudos de manejos de controle de plantas daninhas em diversas culturas. Assim como na maioria das culturas, MPB de cana-de-açúcar estão sendo lançadas para ocupar extensas áreas, o que inviabiliza manejos físicos no controle de daninhas. Com isso, direcionam-se estudos exploratórios sobre manejos químicos (herbicidas), devido aos bons resultados de controle já conhecidos com a adoção desses produtos, além do rendimento de operação.

Em se tratando de manejo químico de plantas daninhas no plantio e início do ciclo em MPB, há duas principais diferenças comparando à cana convencional. No plantio de MPB, além da parte aérea predisposta a receber aplicações, existe presença de raízes e pelos radiculares com alta taxa de absorção de solutos da solução do solo nos primeiros cinco centímetros. O que se distancia fortemente da característica do plantio convencional de cana-de-açúcar, onde o colmo é enterrado entre 20cm e 40cm de profundidade. Essa discrepância de características de plantio e início de ciclo leva a uma nova área, que pode ser chamada de manejo químico de plantas daninhas em MPB de cana-de-açúcar.

Como toda inovação e início de trabalho, não se tem, ainda, resultados concretos para montar uma recomendação de controle adequada. Porém, há propostas para testes de manejos químicos com base em formulações técnicas científicas. Isso significa que é possível usar informações da biofísica dos herbicidas a serem aplicados, para prever um possível resultado positivo ou não no controle das plantas daninhas, com o objetivo de minimizar sua interferência negativa em MPB.

Uma aplicação prática é a escolha do herbicida consultando o seu Kow, que é o coeficiente de partição entre octanol e água, ou seja, qual será a facilidade desse produto penetrar na folha da planta. Quanto maior o valor de Kow, maior será a absorção do produto pelas folhas das plantas cultivadas e daninhas. Normalmente herbicidas de Kow alto são usados para aplicações em pós-emergência das plantas daninhas, e herbicidas de Kow baixo em pré-emergência. Outra variável a ser considerada é o Koc, que é o coeficiente de adsorção no solo, determinando a força de ligação da molécula química do herbicida aos coloides do solo. Em uma linguagem popular, quanto maior for o valor de Koc, maior será a retenção do produto pelo solo, ou seja, ele ficará menos disponível na solução do solo (água disponível no solo). Valores de Koc baixo fazem o inverso, grudam-se menos ao solo e permanecem livremente na solução do solo. No plantio, a solubilidade do herbicida é de suma importância, pois comanda a permanência da molécula do produto nos primeiros centímetros ou o direcionamento para as camadas subsuperficiais.

Figura 3 – Aplicação agroquímica em cana-de-açúcar.
Figura 3 – Aplicação agroquímica em cana-de-açúcar.

Outro ponto importante é a época de aplicação do herbicida. Atualmente há três opções: o Plantio Pré-Incorporado (PPI), Pré-emergência (PRÉ) e Pós-emergência (PÓS). Em uma primeira instância não é possível classificar uma das três opções como melhor ou pior, mas, sim, pensar na interação para que cada uma ajude a cultura no momento certo. O PPI consiste na aplicação do herbicida no solo 60 dias em média antes do plantio. Isso significa que quando as MPB chegarem ao solo, o período em que a molécula estava mais ativa no solo passou e controlou fortemente o banco de sementes que emergiria sem a presença desse defensivo. Com essa característica, teoricamente é possível inferir que haverá um plantio e início de cultura no limpo, sem uma pronunciada absorção radicular de herbicida e, consequentemente, fitotoxidez.

Em relação à PRÉ, a aplicação ocorre logo em seguida ao plantio das mudas pré-brotadas, na intenção de evitar a germinação das sementes de plantas daninhas que estão presentes na área da cultura. Esta aplicação deve ser feita com herbicidas seletivos à cana-de-açúcar, ou seja, que causem pouco ou nenhum dano fitotóxico às mudas pré-brotadas recém-plantadas, sobre as quais ocorre a aplicação, antes da emergência de daninhas.

O método de PÓS poderá ser uma alternativa para combater plantas daninhas que não foram controladas pelos herbicidas aplicados em PPI e PRÉ. Popularmente é possível dizer que a PÓS é usada para controlar as plantas que escaparam, seja por conta do espectro de ação dos herbicidas (quantidade de espécies que o produto controla) aplicados em fases anteriores não incluir essas plantas que estão presentes na área, ou mesmo por questões bióticas, como pluviosidades regulares e temperaturas que estimulem a quebra de dormência de espécies presentes no rico banco de sementes dos solos cultivados no Brasil. 

Figura 4 – Aplicações de herbicidas em PPI, Pré-emergência e Pós-emergência.
Figura 4 – Aplicações de herbicidas em PPI, Pré-emergência e Pós-emergência.

Sistema MPB

Mudas pré-brotadas (MPB) é um sistema de produção de mudas veloz, com elevado padrão de fitossanidade (livre de doenças, insetos etc), vigor e uniformidade de plantio. Essa nova tecnologia foi desenvolvida pelo Programa Cana do Instituto Agronômico – IAC, com a intenção de aumentar a eficiência e diminuir gastos na instalação de viveiros, replantio de falhas de áreas comerciais e quem sabe até renovação e expansão de áreas de cana-de-açúcar. Algumas vantagens do sistema MPB são: redução de falhas, diminuição do número de gemas por metro linear, diminuição do gasto de toneladas cana-de-açúcar para plantio de 20t ha-1 para 2t/ha, facilidade de transporte, sanidade da muda, plantio mecanizado, uniformidade da lavoura, entre outros. O tempo que se gasta para produzir uma muda pré-brotada é de 60 dias.


Tácio Peres da Silva, Centro de Cana do IAC, Ribeirão Preto – SP; Renan Vitorino, Centro de Cana do IAC, Ribeirão Preto – SP; Ana Regina Schiavetto, Unesp Jaboticabal, SP; Ivo Soares Borges, Centro de Cana do IAC, Ribeirão Preto – SP; Andrea Aparecida de Pádua Azania, Centro de Cana do IAC, Ribeirão Preto – SP; Carlos Alberto Mathias Azania, Centro de Cana do IAC, Ribeirão Preto – SP

Artigo publicado em dezembro de 2014, na edição 187 da Cultivar Grandes Culturas. 

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