Desafios na colheita mecanizada do café

A colheita mecanizada do café de primeira safra é um desafio, já que a planta ainda possui uma estrutura reduzida e as máquinas têm maiores dificuldades para atingir os galhos com frutos.

Atualmente existe, em áreas aptas à mecanização (revelo com declividade inferior a 20%), o predomínio da colheita mecanizada na cultura do café. No entanto, as lavouras de primeira safra ainda não estavam sendo colhidas mecanicamente. Segundo a Conab (2014) o Brasil possuía 291,2 mil hectares de café Arábica em fase de formação (zero a 18 meses), de forma que no ano de 2015, todas estas lavouras estavam aptas a serem colhidas. Ou seja, aproximadamente 10% do parque cafeeiro nacional não poderia ser colhido mecanicamente, em vista dos possíveis males que a mecanização nesse tipo de lavoura poderia ocasionar.

As lavouras de primeira safra possuem ramos muito próximos do solo, são mais frágeis e apresentam grande quantidade dos frutos próximas do tronco. Tais fatos, além de reduzirem a eficiência de colheita, poderiam danificar demasiadamente os cafeeiros e reduzir a produtividade na safra seguinte.

Leia também:

Atualmente, algumas empresas terceirizadas realizam modificações na constituição das colhedoras para adaptá-las à situação de colheita de café de primeira safra. Normalmente é feito o rebaixamento da colhedora, utilização de varetas de maior comprimento, redução da distância entre os cilindros, elevação da largura dos elevadores, rebaixamento das placas justapostas que são posicionadas em torno dos pés de café, dentre outras modificações. Esse aperfeiçoamento pode elevar a eficiência de colheita e reduzir os danos às plantas.

Colhedora de café adaptada colhendo lavoura de primeira safra
Colhedora de café adaptada colhendo lavoura de primeira safra

Diante disto, Santinato et al (2014) testaram no município de Buritizeiro (MG) a colheita do café de primeira safra, utilizando colhedora convencional e colhedora adaptada. Foram utilizadas duas lavouras da cultivar Catuaí Vermelho IAC 144, espaçadas em 4 x 0,5, irrigadas por pivô central. As lavouras A e B apresentavam em média 1,52m e 1,61m de altura e produtividade semelhante, de 46,59 e 50,37 sacas de café ben/ha, respectivamente. A lavoura A apresentava 30,12% de frutos no estádio de maturação verde, 22,79% de cereja, 28,49% de passa e 18,56% de seco, e a lavoura B apresentava 20,88%, 23,08%, 25,13% e 30,91% de frutos nos estádios verde, cereja, passa e seco, respectivamente.

Os resultados mostraram que com relação à quantidade de café colhido a colhedora convencional obteve, nas duas lavouras, os menores valores. Isto refletiu na maior quantidade de café remanescente. As quantidades de café colhido e remanescente obtidas por esta colhedora não se diferenciaram nas duas lavouras, ou seja, independentemente do estádio de maturação dos frutos da lavoura a colhedora de café comum não obtém quantidade de café colhido satisfatória (Tabela 1).

Houve diferença entre as quantidades de café colhido pela colhedora adaptada, nas duas lavouras. Tal diferença foi de 29,15% de café colhido a mais na lavoura B, devido aos frutos se desprenderem mais facilmente em decorrência do estádio de maturação mais avançado. Esta colhedora colheu 61,15% e 130,67% a mais de café que a colhedora convencional, nas lavouras A e B, respectivamente (13,75 e 26,50 sacas de café ben/ha a mais) (Tabela 1).

Isto ocorreu devido à maior proximidade das hastes vibratórias ao ramo ortotrópico, elevando o contato delas com os frutos, possibilitando maior derriça. Esta maior proximidade foi devido ao encurtamento da distância entre os cilindros e utilização de hastes de mesmo comprimento nos terços médio e superior das plantas.

Quanto à eficiência de colheita, a colhedora convencional obteve, nas duas lavouras, valores em torno de 43,52%, sendo considerado baixo. A colhedora adaptada, por sua vez, obteve valores elevados nas duas lavouras. Na lavoura B a eficiência foi, na média dos dois níveis de exposição, de 92,87%. 

A Tabela 3 mostrou que independentemente do tipo de colheita utilizado, não houve diferença entre as produtividades da safra subsequente à execução dos tratamentos. Ou seja, a colheita mecanizada do café de primeira safra pode ser realizada mecanicamente sem que haja prejuízos na produtividade da safra seguinte.

Em áreas quentes e irrigadas, as plantas de café se desenvolvem mais rápido e por conta disto é viável, em grande parte dos casos a colheita mecanizada de lavouras de primeira safra. No entanto, em regiões frias, normalmente não existe essa possibilidade por conta da altura do ramo basal em relação ao solo ser pequena. Lavouras plantadas, tardiamente, como nos meses de fevereiro e março, lavouras com baixo nível de adubação ou algum outro impedimento do solo que dificultou seu crescimento, além de cultivares de porte muito baixo, não podem ser colhidas mecanicamente na sua primeira safra (30 meses).

Atualmente, para as lavouras de primeira safra cultivadas em regiões quentes e irrigadas, pode-se até mesmo ulilizar a colhedora mais de uma vez na lavoura. Isso ficou evidenciado pelo experimento de Santinato et al (2015), no município de Catalão (GO). Utilizou-se lavoura de café da cultivar Catuaí Vermelho IAC 144, plantada em 2013, em círculo, irrigada via pivô central e disposta no espaçamento de 3,7m entre linhas e 0,5m entre plantas, totalizando 5.405 plantas/ha. A lavoura apresentava 1,57m de altura, altura de inserção dos ramos plagiotrópicos basais de 29,2cm de altura, produtividade de 82,4 sacas de café ben. ha-1 e 44,4%, 47,1% e 8,5% de frutos nos estádios verde, cereja e seco, respectivamente.

Máquina adaptada com redução da altura de inserção
Máquina adaptada com redução da altura de inserção
As alterações foram feitas com adaptação das esteiras e redução e possibilidade de ajuste da distância entre cilindros
As alterações foram feitas com adaptação das esteiras e redução e possibilidade de ajuste da distância entre cilindros
As alterações foram feitas com adaptação das esteiras e redução e possibilidade de ajuste da distância entre cilindros
As alterações foram feitas com adaptação das esteiras e redução e possibilidade de ajuste da distância entre cilindros

Não houve diferença na quantidade de café caído entre as colhedoras avaliadas quando operadas uma e duas vezes. Quando operou-se a terceira vez, a colhedora adaptada permitiu que maior quantidade de café caísse no chão (Tabela 4). Como em ambas a velocidade operacional foi a mesma, pode-se apontar a causa deste aumento de café caído como sendo decorrente da elevação da quantidade de café derriçado. A maior quantidade de café derriçado interfere diretamente no sistema de recolhimento interno da máquina.

Os valores de café caído obtidos foram de 9,8% a 16,4% da carga total, corroborando com outros experimentos (Tabela 4). Os valores foram superiores aos obtidos em outro experimento de colheita mecanizada em lavoura de primeira safra. Isto porque a lavoura utilizada neste experimento apresentava 82,4 sacas de café ben/ha, aproximadamente 30% a mais que no experimento citado.

As adaptações realizadas na colhedora reduziram em 55% a quantidade de café remanescente quando operou-se a máquina apenas uma vez. Apesar disto, a quantidade remanescente ainda foi de 18,6% (15,3 sacas de café ben/ha), demandando o repasse manual ou ainda nova operação mecanizada (Tabela 5).

Quando operou-se a máquina duas vezes, a quantidade de café remanescente foi semelhante entre as duas colhedoras (12,6%) (Tabela 5). No entanto, com três operações a colhedora adaptada reduziu em 60% o café remanescente, em relação à convencional chegando a 8,2% (6,8 sacas de café ben/ha). Notou-se que, à medida que elevou-se o número de operações, reduziu-se a quantidade de café remanescente.

A colhedora adaptada colheu mais café que a convencional quando operada apenas uma vez (44% a mais) (Tabela 6). Com duas e três operações as máquinas colheram a mesma quantidade de café, chegando a colher na média das duas colhedoras 72,5% e 71,85%. Os valores obtidos encontram-se adequados para a operação de colheita mecanizada do café.

Do contrário do café remanescente, à medida que aumentou-se o número de operações da máquina não houve aumento na quantidade de café colhido para a colhedora adaptada (Tabela 6). Para a colhedora convencional notou-se que a utilização de duas operações aprimorou a colheita em relação a uma operação, mas três operações não elevaram o café colhido em relação a duas.


Felipe Santinato, Caio Fernando Eckhardt Souza e Victos Afonso Reis Gonçalves, Santinato Cafés; Paula Corsini Ribeiro e Rouverson Pereira da Silva, UNESP


Artigo publicado na edição 174 da Cultivar Máquina

ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura