Descompactação do solo na semeadura

A semeadura direta utilizando guilhotina ou facão em maior profundidade se torna uma das soluções para se resolver emergencialmente a descompactação do solo, além de garantir maior absorção de água para a cultura implantada.

O setor agrícola nos últimos 20 anos sofreu muitas mudanças benéficas, que contribuíram não só para o aumento da produtividade, mas também para a praticidade do agricultor. Associou-se essa afirmação lembrando dos tempos em que o solo era cultivado no sistema de cultivo mínimo ou sistema convencional, como é conhecido, pois era necessário passar um bom tempo revolvendo o solo e preparando-o para implantar alguma cultura, sem contar o uso de alguns defensivos, como a trifluralina, que necessitava ser incorporada com a grade.

Atualmente convive-se com o manejo Sistema de Plantio Direto (SPD), que proporciona vários benefícios ao solo, e, principalmente, ao meio ambiente, pela redução da erosão hídrica, embora atualmente existam problemas de erosão também em SPD, em face do uso inadequado deste manejo.

O SPD em comparação com o sistema de preparo convencional (SPC) retém mais umidade, possibilitando à cultura uma maior resistência a estiagens e a períodos de seca; há redução da erosão do solo, diminuindo a perda de solo e fertilizantes, que contribuem para sustentabilidade ambiental do sistema, aumento da matéria orgânica, que desencadeia melhorias na estrutura física e CTC (capacidade de troca de cátions).

Há pouco tempo, as semeadoras vinham dotadas de sistemas que visavam uma abertura maior de sulco, podendo usar este em diferentes profundidades com o objetivo de resolver um problema constatado em vários experimentos, a compactação do solo. Em muitas regiões onde se encontra a prática de silagem e da integração lavoura-pecuária, é mais agravante esse problema, isso em função do tráfego de máquinas e implementos agrícolas descontrolado e da presença de animais em excesso, principalmente nos dias de chuva. Essa compactação ocorre também nas práticas rotineiras de manejo da cultura, por exemplo: uso de uma colhedora agrícola de alto porte, em umidade elevada sem controlar o seu tráfego.

Em solos compactados há menor desenvolvimento do sistema radicular, isso resulta em menor volume de solo explorado pelas raízes e, consequentemente, menor absorção de água e nutrientes. Nos anos de estiagem o problema é mais observado devido à falta de água disponível para as plantas, gerando diminuição expressiva de produtividade.

Tais problemas se estendem para a área de mecanização agrícola, pelo aumento da força de tração, visualizado pelo aumento da patinagem do trator, o aumento no consumo de combustível, a redução da profundidade de semeadura, o corte irregular da cobertura vegetal ocasionado pela redução do desempenho do mecanismo sulcador, se estiver mal regulado.

O solo pode ser correlacionado com um banco, porém, de tensões, que recebe a ação da pressão, seja via rodado ou pisoteio, vai armazenando até chegar um ponto que há restrições ao desenvolvimento das plantas.

Há alguns anos a equipe do Laboratório de Relação Solo Máquina e Planta do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – Campus Sertão vem estudando essas questões visando buscar técnicas que auxiliem na manutenção dos princípios do sistema de plantio direto. Analisando os dados obtidos em boa parte nas pesquisas com propriedades físicas do solo, percebe-se que o problema da compactação está entre 7cm e 15cm e, diante disso, o emprego do sulcador guilhotina ou facão afastado em maior profundidade pode melhorar o ambiente de desenvolvimento das raízes, resultando no aumento da produtividade. Pesquisas vêm sendo realizadas buscando quantificar e qualificar os efeitos de tal técnica.

Conjunto trator e semeadura utilizado na realização do experimento.
Conjunto trator e semeadura utilizado na realização do experimento.
A palhada de aveia branca foi dessecada 30 dias antes da semeadura.
A palhada de aveia branca foi dessecada 30 dias antes da semeadura.

DESCOMPACTAÇÃO

Quando se fala em diferentes profundidades de trabalho do sulcador de fertilizante, as primeiras coisas que vêm em mente são o consumo de combustível, a potência exigida para tracionar a mesma e se irá repercutir na produtividade. Frente a isso, três tipos de manejo foram testados pela equipe de pesquisa. Um dos manejos é o sistema plantio direto com a haste sulcadora de fertilizante na semeadura atuando a 7cm, chamado de SPD7 e considerado como testemunha. O outro manejo atuou a uma profundidade de 11cm, SPD11, considerado como estratégia de melhoria física, e o terceiro foi um solo subsolado há 14 meses, chamado como cultivo mínimo (CM), sendo que tal operação foi realizada com implemento dotado de disco de corte de palha, haste curva regulada para 25cm de profundidade e rolo destorroador.

O teste foi realizado na área de experimento do IFRS Campus Sertão, em um solo classificado como Nitossolo Vermelho que possui mais de 60% de argila, sendo que esse estava com uma palhada de aveia-branca dessecada 30 dias antes da semeadura.

A semeadora estava configurada para verão, com sete linhas espaçadas a 45cm, haste sulcadora de adubo do tipo guilhotina, a popular botinha. O trator para tracionar o implemento tinha 95cv de potência nominal, com tração dianteira assistida (TDA) ligada. A rotação do motor no teste foi mantida constante em 1.600rpm, sendo que  a velocidade média resultou em 5,3km/h.

A patinagem, o consumo de combustível e a produtividade da soja na Tabela 1, que demonstra que a patinagem no SPD11 foi bem superior ao SPD7 e próxima do CM, o que evidencia a ação da elevada resistência do solo nos mecanismos rompedores na profundidade acima da comum utilizada (7cm todos anos). Comparando o SPD11 com o CM, não houve muita diferença, sendo que ambos estão acima dos 12% considerados máximos para tratores 4RM (4x2TDA), popular traçado. A redução da patinagem é conseguida com adição de peso metálico, pois o trator do teste não possuía. 

O cultivo mínimo apresentou uma patinagem intermediária entre os três manejos com 15,37% de patinagem, mas muito superior ao sistema plantio direto a 7cm, que apresentou patinagem de 4,88%, isso por apresentar um solo mais “leve”, com menor resistência, gerando um consumo um pouco superior à semeadura, a 11cm.

Analisando como um todo, o sistema plantio direto com guilhotina a 11cm gera um consumo mais elevado e maior patinagem, mas se tratando de custo/benefício, o consumo de diesel foi maior, mas a produtividade também aumentou. Considerando o preço da soja de R$ 60,00/saco, o SPD11 resultaria em R$ 279,54 a mais do que o SPD7, e R$ 405,13 a mais do que o CM, isso é uma renda bem atrativa ao agricultor, haja vista que não chega a R$ 3,00/h a diferença no consumo diesel.

Quando a compactação está presente na lavoura e se torna um problema no desenvolvimento das culturas implantadas, a semeadura direta com guilhotina ou facão em maior profundidade se torna uma das soluções para se resolver em primeiro momento a descompactação do solo. Com isso, se gera um maior custo inicial quando comparado à semeadura mais superficial, mas melhora as condições físicas deste solo gradativamente, através do uso da semeadura direta em maior profundidade.

Além da maior produtividade no manejo SPD11, este  influenciou diretamente no acúmulo de água em profundidade, isto é, conseguido com a quebra da camada compactada, conforme pode ser visualizado na Figura 1, que demonstra o comportamento do teor de água do solo após dois dias de chuva, medindo sempre a umidade por cinco dias consecutivos, pegando, assim, a secagem do solo.

Figura 1 – Teor de água do Nitossolo Vermelho durante o desenvolvimento da soja submetida a diferentes estratégias de melhoria física do solo. ¹ SPD7 – sistema plantio direto com sulcador atuando a 0,07m de profundidade; SPD11 – sistema plantio direto com sulcador atuando a 0,11m de profundidade; e CM – cultivo mínimo
Figura 1 – Teor de água do Nitossolo Vermelho durante o desenvolvimento da soja submetida a diferentes estratégias de melhoria física do solo. ¹ SPD7 – sistema plantio direto com sulcador atuando a 0,07m de profundidade; SPD11 – sistema plantio direto com sulcador atuando a 0,11m de profundidade; e CM – cultivo mínimo

Um fato observado nesta pesquisa é a perda brusca de água pelo solo subsolado (CM), o que demonstra ação do implemento na estrutura; ele reduz a densidade e a resistência do solo, mas afeta a sua porosidade, o que resulta nesta condição. O SPD11, ao longo do todo o ciclo de desenvolvimento da soja, apresentou maior umidade, que deve ter sido um dos fatos que contribuíram com o aumento da produtividade.

Haste do tipo guilhotina utilizada com profundidade de 7cm a 11cm.
Haste do tipo guilhotina utilizada com profundidade de 7cm a 11cm.


David Peres da Rosa, Daelcio Vieira Spadotto, Diego Fincatto, Felipe Pesini, IFRS Sertão; Rodrigo Zeni, Fapeg

 

Artigo publicado na edição 165 da Cultivar Máquinas.

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