Desempenho de cultivares de soja em áreas de várzeas

Um grande número de fatores pode interferir na produtividade da cultura da soja, como clima, manejo fitossanitário, fertilidade do solo e o ambiente em que a soja é cultivada. No entanto, a reunião de todos estes fatores corresponde à periferia do manejo onde o ponto central é a planta e seu potencial de usar estes fatores para expressar seu potencial produtivo.

A base do cultivo da soja está, sem dúvida, na utilização das cultivares mais adaptadas ao sistema produtivo da propriedade. Diante de materiais com potenciais produtivos cada vez mais expressivos, a especificidade da região onde será cultivado passa a ser fundamental para a expressão da sua genética. Aspectos como a adaptação da cultivar à região, incidência de radiação, precipitação, vento, altitude, amplitude térmica, estabilidade produtiva, ciclo, tolerância a estresses e a doenças, resistência a herbicidas e a insetos devem ser levados em consideração no momento da escolha da cultivar.

Recentemente, com o avanço do cultivo da soja sobre a metade sul do estado do Rio Grande do Sul, solos historicamente destinados ao cultivo do arroz irrigado estão sendo cultivados com soja. Nestes solos de várzea ou também chamados de terras baixas, a soja tem surgido como alternativa para o orizicultor de diversificação de renda e manejo cultural para a monocultura do arroz até então. Segundo o Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), na safra 2012/13 foram cultivados com soja mais de 250 mil hectares de área de várzea, propícia para o cultivo do arroz irrigado.

Os solos de várzea possuem características de baixa infiltração e relevo plano, tornando-os de fácil encharcamento, pois a drenagem natural é muito deficiente, devido à proximidade com o lençol freático. Esse cenário confere um ambiente desfavorável à cultura da soja em função do longo período alagado e, portanto, sem oxigênio. Dessa forma, a adaptação da cultivar ao ambiente em que é submetida é fundamental para se obter êxito na produção da soja.

Nesse sentido, conduziu-se um trabalho de pesquisa na cidade de São Sepé, Rio Grande do Sul, na safra 2012/13 objetivando avaliar o comportamento de cultivares de soja em solo de várzea e coxilha.

As duas áreas experimentais localizavam-se próximas, cerca de 300m de distância, porém com características de solo bem distintas e que caracterizam perfeitamente a condição de várzea e coxilha (sequeiro). Os tratos culturais realizados foram os mesmos, portanto, avaliando apenas o efeito do ambiente de cultivo. Na várzea as cultivares foram semeadas em 14 de novembro, e na coxilha a semeadura ocorreu em 15 de dezembro. A população de plantas testada foi a mesma para todos os materiais, sendo utilizadas 15 sementes por metro de linha, e o espaçamento entre linhas foi de 0,5m.

Figura 1 – Cultivares de soja semeadas em área de várzea. São Sepé, 2013

Figura 2 – Cultivares de soja semeadas em área de Coxilha - sequeiro. São Sepé, 2013

O desempenho produtivo das 15 cultivares comerciais de soja nos diferentes ambientes de cultivo encontra-se na Figura 1.

Gráfico 1 - Produtividade de cultivares de soja em função do ambiente de cultivo. São Sepé/RS 2013

Figura 1 - Produtividade de cultivares de soja em função do ambiente de cultivo. São Sepé/RS 2013

O efeito do ambiente de cultivo está ligado diretamente à adaptabilidade da cultivar, principalmente no que diz respeito aos materiais com maior tolerância à hipóxia (baixo teor de oxigênio nos tecidos orgânicos). As cultivares com maiores amplitudes entre a produtividade na coxilha e várzea representam a ausência desta estratégia no desenvolvimento radicular, ficando restritas ao cultivo na primeira área. Assim, a escolha da cultivar para o ambiente de várzea mostra-se ainda mais decisiva do que para o ambiente de coxilha.

Sintomas de hipóxia em folhas (esquerda) e ponteiros (direita) de plantas de soja em várzea. São Sepé, 2013

Neste sentido, foi observada maior estabilidade produtiva das cultivares NS 6211 RR, NS 4823 RR, NS 7100 RR e BMX Potência RR, apresentando menor influência do ambiente na produtividade. Por outro lado, as cultivares BMX Turbo RR, V Max RR, M-Soy 8000 e Monasca foram as que apresentaram maior impacto na produtividade em função do ambiente.

Além disso, o fator época de semeadura passa a ser uma prática importante para ser levada em consideração, visto o ambiente de cultivo e o desenvolvimento das cultivares (Figura 2). Foi observado que o atraso na semeadura proporcionou melhor incremento produtivo da cultura da soja, para todas cultivares. Esse resultado pode ser explicado pelas fortes chuvas que ocorreram na última quinzena do mês de dezembro de 2012. Nesse período, as plantas da soja semeadas em 14/11/2012 estavam em estádios mais adiantados, portanto, podem ter sido mais prejudicadas com o encharcamento do solo.

Gráfico 2 - Produtividade de cultivares de soja em função da data de semeadura no ambiente de várzea. São Sepé/RS 2013

A partir desse trabalho, pode-se afirmar que as cultivares apresentam comportamentos completamente distintos em função do ambiente de cultivo, ou seja, o comportamento positivo na coxilha não quer dizer que repetirá o desempenho em várzea ou vice-versa. Além disso, a época de semeadura é chave para a expressão do potencial produtivo, devendo estar principalmente ligados a aspectos de drenagem do solo e volume de chuva previsto.

Clique aqui para ler o artigo na Revista Cultivar Grandes Culturas, edição 175.

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Felipe Frigo Pinto; Ricardo Balardin; Mônica Debortoli; Marcelo Madalosso