Desfolhando, colha melhor o algodão

Na cotonicultura de elevado nível tecnológico, com o uso de insumos modernos e quase toda mecanizada, como a já praticada no Brasil, especialmente pelos grandes produtores da região Centro-Oeste, em especial o Mato Grosso e por alguns produtores de áreas irrigadas no Nordeste, o uso de produtos químicos para provocar a queda das folhas é de vital importância para o maior rendimento da colheita e principalmente possibilita a obtenção de algodão de melhor qualidade, devido a redução de contaminantes (impurezas).

A planta do algodão é muito complexa do ponto de vista morfofisiológico possuindo dois tipos de ramos (frutíferos e vegetativos) e dois tipos de folhas, as frutíferas, menores e que vivem menos do que as vegetativas ou “do ramo” que vivem bem mais e são maiores. Além disso é uma planta que apresenta crescimento indeterminado e tem pelo menos duas gemas em cada ponto de frutificação, a axilar e a extra-axilar, eventos morfofisiológicos que no conjunto fazem com que ocorram em determinado momento fenológico, folhas em senescência, folhas maduras, folhas novas, botões florais, flores, frutos de diversos tamanhos e capulhos no mesmo tempo fisiológico, o que ocasiona, caso não se tome providências corretas, problemas na colheita, elevação dos custos de produção e redução significativa na qualidade do produto obtido. Por outro lado é necessário observar que o coeficiente de enfolhamento tem base genética e assim as cultivares, dependendo de sua carga de genes envolvidos no tamanho e na duração da área foliar, apresentam maior ou menor grau de desfolha natural, além das diferenças em sensibilidade aos estresses ambientais, como o hídrico e ao ataque de insetos e patógenos causadores de doenças foliares, cuja resposta das plantas tem também, especialmente no caso das doenças, base genética (DNA) e sua expressão em proteínas estruturais e funcionais e outras enzimas envolvidas nos caminhos biossintéticos de produtos relacionados com a resistência às doenças.

Com a desfolha química realizada corretamente (época de aplicação, definição dos produtos a serem usados e dosagens, além da observação de elementos do clima e do estado geral da cultura), o cotonicultor alcança várias vantagens com relação a não usar a referida tecnologia, tais como: melhoria na performance das colheitadeiras; aumento na abertura das maçãs (este processo tem dois componentes, radiação solar e hormônios, especialmente o etileno, ambos aumentados com a desfolha química); redução do apodrecimento de maçãs pela maior penetração da luz e do ar e facilidade para o operador da colheitadeira, que tem maior visibilidade, melhorando a eficiência da colheita.

Os desfolhantes e maturadores que também promovem a queda das folhas mais usados na atualidade são compostos orgânicos, tais como ethephon (ácido 2 cloro etil fosfônico), thidiazuron (N-fenil-N’-1,2,3,-thiadiazol-5-ureia) e dimethipim (2,3- dehidro-5,6-dimetil-1,4,-dithiin-1-1-4-4-tetraoxido) que interferem no balanço de hormônios das plantas, especialmente o ácido indolil-3-acético (IAA), promotor do crescimento e o etileno (CH2 =CH2), retardador do crescimento, gasoso e tendo como precursor na sua biossíntese o aminoácido metionina. Alguns desfolhantes, como o caso do dimethipim atua retirando água das células, estimulando, via estresse hídrico, a produção de etileno pela planta, agente envolvido diretamente na abscisão foliar. Outros, como os organofosforados, DEF (S,S,S- tributil fosforotrithioato) e o Folex (S,S,S-tributil fosforotrithioite, merfos) atuam como herbicidas de contato e outros são tidos como desfolhantes hormonais, produzindo etileno ou citocininas, que no caso do algodoeiro promovem, como o hidrocarboneto, a queda das folhas.

Em geral os desfolhantes por promoverem a produção de etileno e outras substâncias envolvidas no processo de senescência foliar induzem a planta a produzir por “síntese de novo” na plasmalema das células (membrana celular) as enzimas hidrolíticas pectinases e celulases, além do chamado fator SF (senescence factor), que modula a síntese do etileno. As enzimas retromencionados após serem sintetizadas na plasmalema migram para a lamela média das células do pecíolo onde vão promover a degradação das pectinas e da celulose, promovendo a abscisão foliar. Para que os desfolhantes funcionem bem, é necessário que sejam aplicados nas dosagens corretas e com vazão e pressão suficientes para promoverem a molhagem de todas as folhas da planta. Além disso, as condições do ambiente devem favorecer a absorção, via estômatos e via cutícula foliar. Tais condições são temperaturas do ambiente superiores a 200C e umidade relativa do ar mediana. Baixa umidade relativa do ar (menos de 45%) durante a aplicação, decresce a absorção devido a rápida evaporação da calda do produto na superfície da folha.

No processo de desfolhamento, as folhas mais velhas, porém ainda com certa atividade, deficientes em nitrogênio e estressadas ou doentes, são as primeiras a caírem. No entanto, plantas crescidas e desenvolvidas em condições estressantes, como a deficiência hídrica, apresentam folhas mais coriáceas com cutículas mais espessas (33% em média a mais do que plantas estabelecidas em condições normais), e com composição de ceras diferente, tendo tais substâncias, na maioria, como elevado peso molecular (caso dos álcoois), que amplifica a hidrofobicidade e assim reduz o desempenho do desfolhante tremendamente como pode ser observado no gráfico do Oosterhius (1990). Em tais condições, para amplificar os efeitos do desfolhante, deve-se usar um agente coadjuvante, tipo espalhante adesivo. Em geral com cerca de dez a quinze dias após a aplicação do desfolhante, a maioria das folhas caem e os produtos devem ser aplicados quando pelo menos cerca de 60% dos frutos estiverem já abertos ou em fase inicial de abertura.

Napoleão E. de M. Beltrão
Embrapa Algodão

* Este artigo foi publicado na edição número 03 da revista Cultivar Grandes Culturas, de abril de 1999. ver mais artigos
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