Do pepino à bananeira

A banana é uma das frutas mais consumidas no mundo e cultivada na maioria dos países tropicais. Apresenta alto valor nutricional, sendo muito rica em amido, açúcares, vitaminas A e C e sais minerais como potássio, fósforo, cálcio, sódio, magnésio e outros em menor quantidade. No Brasil, a maior parte dos cultivos caracteriza-se pelos baixos níveis de investimentos e tecnologia. Entretanto, a necessidade de expansão de novos mercados tem levado à instalação de plantios altamente tecnificados.

Muitas doenças são limitantes ao desenvolvimento da planta, outras vêm assumindo importância crescente, como é o caso da virose conhecida como mosaico da bananeira, também chamada de clorose infecciosa e “heart rot”, causada pelo vírus do mosaico do pepino (Cucumber mosaic virus, CMV).

Os sintomas da infecção pelo CMV incluem a produção de estrias amarelas ou esverdeadas entre as nervuras, que podem ser confundidos com deficiência de zinco, e a formação de mosaico nas folhas, ocorrendo o enrolamento dos seus bordos. Em períodos frios, com temperaturas abaixo de 24°C, pode ocorrer a podridão das folhas centrais e do centro do pseudocaule e até a morte de plantas. As plantas infectadas podem não produzir frutos ou eles apresentarem manchas ou anéis necróticos. As plantas severamente afetadas produzem cachos ou frutos mal formados, pouco desenvolvidos e com maturação irregular. No Brasil, a incidência do vírus tem sido esporádica. Porém, no norte de Minas, já houve casos de bananais formados com mudas provenientes de cultura de tecidos apresentando 50% de plantas infectadas.

Mudas de bananeiras infectadas e outras plantas hospedeiras constituem as fontes de vírus para os novos plantios. A transmissão ocorre principalmente de outras plantas para a bananeira; a transmissão de bananeira para bananeira raramente ocorre. O vírus é facilmente transmitido de forma não-persistente pelo seu vetor para bananeiras. Essa forma de transmissão possibilita que os pulgões, em poucos minutos, possam adquirir o vírus de uma planta infectada e transmiti-lo para uma planta sadia.

O CMV pode infectar mais de 1.000 espécies de plantas, como cucurbitáceas, fabáceas e solanáceas . Na natureza, ele é transmitido por mais de 60 espécies diferentes de afídeos.

Os principais vetores do CMV são Aphis gossypii, Myzus persicae, Rhopalosiphum maidis, R. prunifoliae e o pulgão da bananeira Pentalonia nigronervosa.

O Aphis gossypii, também chamado de pulgão do algodoeiro, é particularmente abundante e de ocorrência generalizada nos trópicos. Os adultos podem apresentar coloração amarelada ou verde escura. São extremamente polífagos, atacando algodão, cucurbitáceas, citros, café, cacau, berinjela, pimenta, quiabo e muitas plantas ornamentais como hibisco. Transmite mais de 50 viroses.

O Myzus persicae, vulgarmente chamado de pulgão verde, pode ser confundido com A. gossypii, quando ambos apresentam coloração amarelada. Entretanto, podem ser diferenciados pela forma do corpo, mais alongada em M. persicae. Também apresentam coloração muito variável. O pulgão verde possui plantas hospedeiras em mais de 40 diferentes famílias de plantas. É considerado o mais polífago dos afídeos e o mais importante vetor de viroses, capaz de transmitir mais de 100 viroses.

O Pentalonia nigronervosa, conhecido como pulgão da bananeira, produz colônias na porção basal do pseudocaule, protegidas pelas bainhas foliares externas. Mede cerca de 1,2 a 1,6 mm de comprimento, sendo que as formas adultas apresentam coloração variável, de avermelhada a marrom escura, enquanto que as formas jovens possuem cor mais clara. Os hospedeiros alternativos desses afídeos incluem Caladium spp., Arum maculatum, Hedychium coronarium, Languas speciosa e Colocasia spp.

O pulgão da bananeira P. nigronervosa é a única espécie que se desenvolve na cultura. A bananeira não é planta hospedeira dos pulgões A. gossypii, M. persicae, R. maidis e R. prunifoliae, entretanto, devido ao comportamento de seleção hospedeira exibido por esses insetos, eles são extremamente eficientes como vetores de viroses. Isso se deve ao fato de que os pulgões podem realizar picadas de prova em diversas plantas não-hospedeiras antes de encontrar o seu hospedeiro.

O vírus é mantido em uma determinada área durante a entressafra em plantas daninhas, especialmente em trapeoraba (Commelina spp.). Verificou-se que plantios com elevada incidência do vírus apresentam em suas proximidades plantações de cucurbitáceas, trapoerabas, tomates ou outras hortaliças. Isso sugere que a principal fonte de vírus são essas plantas.

Praticamente todas as espécies ou cultivares de bananeira são suscetíveis ao CMV, havendo uma maior incidência do vírus em cultivares do grupo Cavendish do que em Gros Michel.

Quando as mudas são micropropagadas, o nível de infecção pelo CMV pode ser extremamente elevado, uma vez que estas mudas são muito atrativas para os pulgões. Também verificou-se que as mudas micropropagadas com mais de um metro de altura tornam-se tolerantes ao CMV.

Algumas práticas de manejo podem reduzir ou eliminar a infecção pelo CMV: a) usar plantas livres de vírus. É importante lembrar que o simples fato de uma muda ser produzida através de micropropagação não determina a sua isenção de viroses, o que é garantido pela retirada de mudas de matrizes livres de vírus ou pela indexação das mudas produzidas para viroses; b) evitar perto ou dentro do plantio culturas como cucurbitáceas e solanáceas; c) eliminar plantas daninhas dentro e em volta dos bananais; d) eliminar as plantas infectadas e e) os principais afídeos vetores não colonizam as plantas de bananeiras, o que dificulta o seu controle através da aplicação de inseticidas nas bananeiras. Em função do tempo que demoram para matar os pulgões, os inseticidas não evitam que eles transmitam o vírus antes de morrer. Procurar manter baixa a população de pulgões no bananal e áreas vizinhas com a aplicação de inseticidas e controle de plantas hospedeiras dos pulgões.

Paulo Ernesto Meissner Filho e Marilene Fancelli,
Embrapa Mandioca e Fruticultura

* Este artigo foi publicado na edição número 21 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de agosto/setembro de 2003. ver mais artigos
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