Doenças de entressafra no milho

Ferrugem polissora, mancha de feosféria e complexo de helmintosporiose estão entre as doenças que atacam a cultura do milho e possuem grave incidência em regiões de plantio de segunda safra, como o sudoeste goiano. Agravadas por fatores que incluem possibilidade de cultivo em épocas distintas, expansão de áreas no cerrado e ausência de rotação de culturas, demandam muito cuidado e manejo adequado, com integração de estratégias de maneira sustentável

O Brasil destaca-se entre os maiores produtores de grãos do mundo, sendo a soja e o milho as principais commodities. Diferentemente da soja, o milho tem sido cultivado em duas épocas distintas, sendo a primeira na safra de verão e a segunda na safrinha ou entressafra, podendo ou não ser irrigado. A possibilidade de cultivo em épocas distintas, aliada à expansão de áreas no cerrado e a não realização de um sistema de rotação de culturas elaborado, tem feito com que os problemas fitossanitários se tornem cada vez mais frequentes.

Atualmente, se por um lado os híbridos apresentam potencial produtivo elevado, por outro, são mais suscetíveis às principais doenças que, isoladamente ou em patossistemas múltiplos, têm restringido a obtenção da máxima produtividade almejada pelos agricultores.

Na região dos cerrados é comum a adoção constante de tecnologia para cultura do milho, sendo verificadas produtividades acima dos 220 sacos por hectare na safra principal.

Contudo, as práticas de manejo integrado têm sido pouco adotadas. O controle das doenças normalmente é realizado apenas com o uso de fungicidas, o que tem gerado resultado positivo até o momento. Tem se verificado, inclusive, o aumento no número de aplicações dos fungicidas, além do início das aplicações cada vez mais cedo. Embora não seja empecilho o uso correto de defensivos, essa prática pode onerar custos e perder efetividade a médio e longo prazo, conforme já verificado para outras culturas.

A resistência genética é, sem dúvida alguma, a principal estratégia de controle a ser adotada.  A suscetibilidade dos híbridos varia grandemente de doença para doença e até mesmo do local em que são cultivados. De maneira geral os principais híbridos apresentam resistência a uma ou outra doença, não sendo totalmente efetivos para o complexo que pode incidir na cultura.

Na região dos cerrados pelo menos dez doenças destacam-se como importantes limitantes da produção. No sudoeste goiano, por exemplo, as principais doenças em parte aérea têm sido: ferrugem polissora, mancha de feosféria, complexo de helmintosporiose, cercosporiose e manchas por Stenocarpella (conhecida anteriormente como Diplodia macrospora).

É difícil precisar qual a doença mais importante, uma vez que existe enorme variação a cada safra e, também, em relação ao híbrido cultivado e à época de plantio.

Ferrugem polissora

Dentre as três ferrugens incidentes na cultura do milho, a ferrugem polissora, causada pelo fungo Puccinia polysora, tem se destacado como a principal nesta região, reduzindo a produtividade em até 60% na ausência de medidas de controle. Os sintomas da doença são representados por pequenas lesões amarelas, nas quais se verifica a presença de pústulas arredondadas, tanto na face inferior quanto superior das folhas (Figura 1). As pústulas podem também ocorrer na bainha das folhas e palha que recobre a espiga. As condições ambientais que favorecem epidemias dessa doença são alta umidade relativa e temperaturas entre 25ºC e 32oC.

Figura 1 – Sintomas e sinais de Puccinia polysora (ferrugem polissora) em folhas de milho.
Figura 1 – Sintomas e sinais de Puccinia polysora (ferrugem polissora) em folhas de milho.

Resultados de controle químico obtidos em trabalhos conduzidos pela AgroCarregal Pesquisa e Proteção de Plantas, em parceria com a Universidade de Rio Verde na safrinha de 2014, evidenciam a importância do uso de fungicidas para controle dessa doença. O uso do fungicida correto, no momento exato e em quantidade suficiente de aplicações, pode proporcionar incrementos de produtividade acima de 30% a 40%. As misturas entre estrobilurinas e triazóis têm sido os produtos mais efetivos no controle dessa doença. Normalmente as estrobilurinas atuam impedindo a germinação dos uredosporos, enquanto os triazóis agem em processos posteriores a esse, como o ingresso no tubo de penetração e colonização do fungo (crescimento das hifas no interior do tecido hospedeiro).

Na Figura 2 pode ser verificada a alta eficácia de fungicidas no controle da ferrugem polissora do milho em experimento conduzido na AgroCarregal Pesquisa e Proteção de Plantas durante a safrinha de 2014.

Figura 2 – Comparativo entre parcela testemunha (lado esquerdo) e parcela tratada com fungicida (lado direito) para o controle da ferrugem polissora.
Figura 2 – Comparativo entre parcela testemunha (lado esquerdo) e parcela tratada com fungicida (lado direito) para o controle da ferrugem polissora.

Mancha de feosféria

A macha branca, também conhecida como esferulina ou mancha de feosféria, é causada, provavelmente, pela associação de um fungo (Phaeosphaeria maydis) e uma bactéria (Pantoea ananatis). Embora não seja consenso entre os fitopatologistas, resultados de controle químico indicam tal possibilidade. Fungicidas à base de triazóis, estrobilurinas e ou benzimidazóis não têm apresentado eficácia satisfatória de controle nas mais diferentes regiões do país. A associação com fungicidas protetores, como o mancozebe, tem se mostrado promissora nos ensaios experimentais.

Os sintomas da doença são representados por lesões mais ou menos arredondadas, mas irregulares e com descoloração inicial dos tecidos foliares. Tais lesões se assemelham com aquelas aquosas do tipo anasarcas provocadas por bacterioses. À medida que a doença evolui, as lesões tornam-se claras, esbranquiçadas, podendo ocorrer em qualquer parte da planta (folhas, bainhas que recobrem o colmo e palha da espiga). Sob alta severidade, as lesões coalescem e secam totalmente o limbo foliar. Os principais sintomas podem ser verificados na Figura 3.

 

Figura 3 – Sintomas da mancha de feosféria na cultura do milho.
Figura 3 – Sintomas da mancha de feosféria na cultura do milho.

A campo deve-se tomar cuidado para evitar confusões com fitotoxidez causadas por herbicidas, normalmente utilizados na dessecação da soja. A distribuição dos sintomas na área e na planta facilita a identificação. Normalmente a doença começa pelas folhas inferiores e ocorre em área total, enquanto a fitotoxidez é mais facilmente visualizada nas folhas superiores e ocorre em parte da área (oriunda da deriva dos herbicidas). Se a cultura ainda estiver emitindo folhas, cuidado com a posição dos sintomas, uma vez que folhas novas saem sem sintomas da fitotoxidez.

As epidemias dessa doença têm sido favorecidas por condições ambientais de temperaturas mais amenas, principalmente durante a noite. Regiões de altitude mais elevada, cujas noites são mais frias, apresentam maior possibilidade de incidência sob altas severidades.

A melhor alternativa para o manejo dessa doença reside no uso de híbridos com maior nível de resistência. A menor população de plantas sob maior espaçamento também desfavorece as epidemias. No caso do emprego de fungicidas, associar um fungicida protetor (mancozebe a 2kg/ha) aos produtos tradicionalmente utilizados pode promover incrementos significativos no controle da doença e, consequentemente, na produtividade.

Complexo de helmintosporiose

O complexo helmintosporiose pode ser causado por três espécies de fungos: Exserohilum turcicum (mais conhecida como mancha de HT), Bipolaris maydise, Bipolaris zeicola (Helminthosporium carbonum). Dentre essas espécies, E. turcicum tem sido a de maior incidência e, consequentemente, causado os maiores prejuízos. Embora façam parte do complexo helmintosporiose, os sintomas são conspícuos a cada espécie.

Os sintomas oriundos da infecção por Exserohilum turcicum são representados por lesões elípticas de coloração palha, tornando-se escuras com a esporulação do fungo. O tamanho das lesões varia em função da suscetibilidade dos híbridos (2,5cm a 15cm de comprimento) e, em materiais altamente suscetíveis, podem progredir atingindo todo limbo foliar (Figura 4). Em híbridos resistentes, as lesões são menores e cloróticas.

Figura 4 – Sintomas de Exserohilum turcicum em híbridos suscetíveis de milho.
Figura 4 – Sintomas de Exserohilum turcicum em híbridos suscetíveis de milho.

Bipolaris maydis causa lesões menores que a espécie anterior, normalmente retangulares com dimensões de aproximadamente 2,5cm x 0,5cm e coloração palha a necrótica (Figura 5). É importante salientar que são conhecidas duas raças desse fungo, denominadas de raça “O” (sintomas descritos anteriormente) e raça “T”, que pode causar lesões maiores, de coloração marrom a castanho e também a formação de halos cloróticos.

Figura 5 – Sintomas causados por Bipolaris maydis.
Figura 5 – Sintomas causados por Bipolaris maydis.

Bipolaris zeicola, doença de pouca importância no Brasil até o momento, apresenta sintomas diferentes entre as raças 1 e 3. A raça 1 causa lesões de coloração palha, com formato circular a oval e anéis concêntricos. Já raça 3, provoca lesões estreitas e alongadas, de coloração castanho-claro. Essa doença incidiu sob alta severidade em alguns híbridos durante a safrinha de 2013 no sudoeste goiano, predominantemente a raça 1.

O manejo desse complexo depende principalmente do híbrido utilizado. Na ausência da resistência genética, a rotação de culturas torna-se fundamental, pois ambas as espécies são necrotróficas, ou seja, podem sobreviver em restos culturais. Como no cerrado a maioria das áreas é cultivada no sistema de sucessão de culturas, o inóculo tem aumentado ano a ano. Estudos em diferentes regiões do país indicam que esses patógenos podem sobreviver na palha, sob alta viabilidade, durante 20 meses ou mais. Complementarmente às medidas supracitadas, o uso de fungicidas tem sido a alternativa mais empregada.

Somente o uso concomitante de diferentes estratégias de controle pode favorecer o manejo do complexo de doenças no milho de entressafra a médio e longo prazo de forma sustentável. Por isso, consulte sempre um engenheiro agrônomo.


Luís Henrique Carregal, Universidade de Rio Verde-UniRV, Agro Carregal Pesquisa e Proteção de Plantas


Artigo publicado em dezembro de 2014, na edição 187 da Cultivar Grandes Culturas. 

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