Duplo dano ao abacaxi

O sucesso ou insucesso da abacaxicultura tem sido historicamente relacionado com a incidência de pragas e doenças. Atribui-se às mesmas o declínio da cultura nos Estados de São Paulo e posteriormente em algumas regiões de Minas Gerais.

Vários empreendimentos foram inviabilizados pela utilização de material de plantio (mudas) apresentando baixos padrões fitossanitários.

Constitui-se, portanto, a disponibilidade de mudas sadias no principal entrave para a efetiva implantação de uma abacaxicultura, que apresente características de produtividade e qualidade capazes de colocar o Brasil em condições de competir com outros países produtores e suprir as demandas interna e externa.

Uma vez implantada a cultura, justifica-se ainda um manejo adequado da mesma durante as fases pré e pós-colheita, visando reduzir incidência de pragas e doenças que possam ocorrer durante os ciclos vegetativo e reprodutivo, através de um conjunto de práticas tecnicamente viáveis e ecologicamente corretas.

Desta forma, presente artigo tem como objetivos a caracterização da principal praga e doença que limitam o cultivo do abacaxizeiro, e a indicação do conjunto de medidas de controle das mesmas.

Cochonilha-do-abacaxi

Dysmicoccus brevipes (Cockerell, 1893) (Hemiptera: Pseudococcidae)

Também conhecida por “piolho-branco”, “cochonilha pulverulenta do abacaxi”, “cochonilha-da-raiz”, “piolho farinhento”, “pulgão branco”. É uma praga de grande importância para a cultura do abacaxizeiro pelos danos decorrentes de sua alimentação, ocasionando o enfraquecimento das plantas, além de estar associada a uma doença, possivelmente de origem virótica, conhecida como murcha-do-abacaxizeiro.

Esse complexo cochonilha x murcha-do-abacaxizeiro tem se constituído em um dos maiores entraves para o aumento da produtividade da cultura, ocasionando perdas na produção da ordem de 70% e, ainda, promovendo o abandono de muitas áreas cultivadas. Têm-se registros do declínio da cultura em regiões produtoras do Estado de São Paulo e mesmo do Estado de Minas Gerais (regiões de Piumhí e Lagoa Santa), quando as mesmas já chegaram a exportar frutos de abacaxi para a Argentina e outros países.

Os abacaxizeiros são infestados pela cochonilha através do material de plantio ou ainda devido ao deslocamento desse inseto das raízes das gramíneas e de outras plantas hospedeiras que crescem às margens da cultura. Plantas de tiririca, amendoim, café e arroz constituem-se em hospedeiros alternativos para o desenvolvimento de D. brevipes, representando focos de infestação e dispersão da praga.

A ocorrência dessa praga é constatada durante todo o ciclo da cultura, com variação na intensidade de infestação. Os períodos quentes e úmidos são os mais favoráveis ao desenvolvimento deste inseto.

A fecundidade e longevidade da cochonilha são afetadas pelo clima. Após um período de elevada pluviosidade, geralmente ocorre um decréscimo na infestação da praga, sendo a precipitação pluviométrica o fator climático mais importante na redução da população de D. brevipes.

As fêmeas dessa cochonilha apresentam coloração geral rósea, corpo oval e recoberto por uma secreção pulverulenta de cera branca, com 34 prolongamentos ao redor do corpo, sendo 17 em cada lado. Os oito posteriores são mais robustos e maiores. Têm fragmentação distinta, com o aspecto de frações justapostas. Com a secreção medem cerca de 3 mm de comprimento. Os machos são menores, alados e com um par de filamentos caudais longos e brancos.

Ninfas que originarão fêmeas passam por três ínstares e aquelas que originarão machos passam por quatro ínstares, sendo que as três primeiras ecdises do macho ocorrem no interior de um invólucro semelhante a um casulo de filamentos cerosos, construído pela ninfa no 2o instar.

A duração dos estágios do macho e fêmea da cochonilha à temperatura de 25,5 oC e umidade relativa de 73,5 % é de 27 e 92 dias, respectivamente.

A cochonilha vive em simbiose por protocooperação com formigas, especialmente as do gênero Solenopsis , que se alimentam de sua secreção açucarada. As formigas protegem as colônias das intempéries e dos inimigos naturais, cobrindo-as com terra e restos orgânicos, atuando ainda como agentes de dispersão na cultura, transportando as formas jovens da cochonilha de uma planta à outra. O deslocamento das cochonilhas é sensivelmente menor na ausência das formigas, conseqüentemente a disseminação da doença será menor.

Sintomas de ataque e danos

Adultos e ninfas vivem em colônias e localizam-se nas raízes e axilas das folhas, contudo quando a colônia sofre um grande aumento de sua população também podem ser observados nos frutos do abacaxizeiro, nos pedúnculos e nas mudas que crescem ao redor do fruto e ainda nas inflorescências.

Os sintomas desta doença são percebidos através da descoloração das folhas que de verde passam a vermelho-bronzeadas, depois rosa-vivo e amarelas; as folhas perdem sua turgescência e há aparecimento de manchas mais ou menos necróticas. Posteriormente, adquirem a cor bege e à medida que vão mudando a sua coloração perdem a rigidez até se dobrarem para baixo e os ápices ficarem secos e retorcidos. Ao arrancar a planta, nota-se que o sistema radicular encontra-se totalmente debilitado e raramente são localizadas as cochonilhas que migram para outras plantas à procura de alimento.

Em média, são requeridos aproximadamente 2 meses para desenvolvimento dos sintomas típicos da doença em plantas com 6 meses de idade. No local de alimentação das cochonilhas ocorre o aparecimento de manchas circulares verdes de tonalidade mais pronunciada do que a cor normal da folha, essas manchas correspondem aos pontos de alimentação das cochonilhas, e surgem em torno de 5 a 12 dias após o início da alimentação. Elas indicam a presença da cochonilha nas plantas de abacaxizeiro.

A murcha ocasiona prejuízos por causar a morte das plantas antes da frutificação ou por impedir a frutificação normal, com redução da colheita pelo elevado número de frutos refugados, que se apresentam normalmente atrofiados e murchos, impróprios para o consumo ou a industrialização.

Fusariose no abacaxi
Fusarium subglutinans f. sp. Ananas

Esta doença constitui-se em um dos principais fatores limitantes à cultura do abacaxi, apesar de ocorrer no Brasil desde 1962. Provoca perdas sobre a produção nacional estimadas de 30 a 40 %, chegando em algumas regiões a perdas em frutos superiores a 80 %. Além das perdas em frutos, a doença pode afetar até 40 % do material propagativo e 15 a 20 % das plantas antes de atingirem a frutificação.

Além das perdas quantitativas, citam-se os prejuizos causados pela má aparência de frutos com lesões, sobre o padrão de tamanho dos frutos e qualidade interna dos mesmos.

Condições favoráveis

Os plantios comerciais brasileiros são constituídos de cultivares susceptíveis à fusariose, predominantemente “Pérola” e “Smooth Cayenne”. Esta susceptibilidade, aliada a condições ambientais favoráveis (temperatura em torno de 30 oC e elevada umidade) e em presença de eficientes agentes de disseminação da doença, pode condicionar a ocorrência da mesma em níveis epidêmicos.

Existem diferenças de comportamento entre variedades quanto à susceptibilidade ao fungo. Comparando-se as variedades Pérola e Smooth Cayenne, que são as mais cultivadas no Brasil, verificou-se que a Pérola apresentou-se como a mais susceptível. Quanto a variedades resistentes e mais promissoras para o cultivo comercial, encontram-se a Perolera (introdução da Colômbia), a Pin-negra (introdução do Peru), a Rondon, e Tapicanga (originadas do Brasil), as quais possivelmente poderão despertar interesse no mercado internacional.

Sintomas na planta

A doença pode se manifestar sobre qualquer órgão da planta, atingindo as raízes, caules, folhas e frutos. No caule, as lesões ocorrem, geralmente, só na parte basal, quer em plantas adultas, quer em mudas ainda ligadas à planta-mãe. Nas folhas, as lesões localizam-se na base, sob a forma de podridão mole, geralmente associadas a lesões no caule e raramente observam-se lesões isoladas no limbo. Plantas jovens, quando atacadas, geralmente morrem. É, porém, no fruto que a doença torna-se mais característica pela exsudação gomosa através das cavidades florais. À medida que a goma flui do fruto, a parte afetada vai se encolhendo pela exaustão dos tecidos internos e no estádio final de evolução da doença o fruto pode ser parcial ou totalmente afetado, tornando-se deformado e com aspecto mumificado. Pode-se ainda observar um crescimento róseo do fungo sobre as partes afetadas.

Além dos sintomas mencionados, frutos atacados podem apresentar alterações físicas, físico químicas e químicas. Neste contexto foi constatada uma diminuição de 3 % no peso total do fruto, 8 % na porção utilizável da polpa e teores de acidez e açúcares redutores e totais menores do que aqueles apresentados pelos frutos sadios.

Os sintomas da doença em frutos podem ser confundidos com os da broca (Thecla basalides Geyer). A distinção é feita pelo não aparecimento de orifícios e pela ocorrência de exsudação gomosa através da cavidade floral no caso da fusariose, enquanto que no caso de ataque da broca, a exsudação ocorre, geralmente, entre dois frutilhos.

Disseminação da doença

As mudas contaminadas constituem-se no principal veículo de disseminação da doença. Mudas obtidas em plantios que apresentaram elevados índices de infecção ou manejadas sem os devidos cuidados, multiplicam os danos causados pela doença. Além disso, excedentes de mudas, inclusive as infectadas, de áreas já implantadas são comercializadas para novas áreas, o que tem contribuído para a rápida disseminação da doença.

Uma vez instalada a doença, a disseminação dentro das lavouras pode se dar através do vento, chuva, insetos e outros agentes.

Durante o período vegetativo das plantas, ferimentos de várias naturezas, inclusive emissão de brotos laterais, podem facilitar a penetração e desenvolvimento do fungo, enquanto que durante o período de frutificação, o período crítico para a disseminação do fungo corresponde desde a fase de diferenciação floral até o fechamento das últimas flores. Com o fruto já formado, a transmissão da doença dá-se através de ferimentos provocados por ferramentas de trabalho ou por insetos como a broca, ácaros e outros.

No solo, observou-se que a sobrevivência do fungo é bastante reduzida, sendo que o patógeno é raramente isolado de solos coletados em plantios de abacaxi onde ocorreram altas incidências de fusariose, levando à conclusão de que solos contaminados têm pouca ou nenhuma importância como fonte de inóculo para novos plantios.

Controle integrado

As informações para minimizar os danos causados pelas pragas e doenças do abacaxizeiro consistem em um conjunto de medidas, desde a seleção do material de plantio até a execução de medidas de controle cultural e químico durante as fases de desenvolvimento vegetativo, reprodutivo e pós-colheita.

A – Controle Legislativo

1- Mudas

A carência de mudas sadias para a expansão de plantios já estabelecidos e a implantação de novas áreas demandam a criação de mecanismos que incentivem a crescente utilização de mudas fiscalizadas e conseqüentemente o credenciamento de viveiristas, o que representará uma fonte adicional de renda para os produtores.

2- Frutos

Com relação à comercialização interna no país, não existem normas estabelecidas quanto ao estado fitossanitário do produto transportado e comercializado como fruta fresca. Os mercados compradores e consumidores incumbem-se de rejeitar frutos com sinais e sintomas visíveis de ataques de pragas e doenças.

Para exportação, é comum aos mercados importadores a exigência de isenção de presença de pragas e doenças, bem como de sinais e sintomas dos mesmos nos frutos. A presença de resíduos de defensivos pode também limitar a exportação de acordo com as exigências dos países importadores.

B – Utilização de mudas sadias

Os resultados de pesquisa vêm de longa data indicando que o grande estrangulamento da cultura consiste na utilização de mudas infestadas por pragas ou infectadas por patógenos.

Mudas sadias podem ser obtidas através dos sistemas tradicional, propagação rápida de secções de caule em viveiro ou “in vitro”, através da técnica de cultura de tecidos.

C – Controle da época de produção

O controle da época de produção através de épocas de plantio, tamanho de mudas, épocas de indução, conduzindo a frutificação em épocas secas, desfavoráveis ao desenvolvimento da fusariose permite a obtenção de frutos com baixa incidência da doença.

D – Controle cultural

O “roguing” ou eliminação de plantas doentes deve ser efetuado a partir do terceiro mês após o plantio. É uma operação importante, considerando-se que cada muda infectada pode, durante o seu período de sobrevivência no campo, constituir-se em inoculo para mudas sadias. Além da eliminação de plantas com sintomas de fusariose, plantas apresentando sintomas da murcha-do-abacaxizeiro devem ser descartadas. O arranquio e destruição de restos de culturas anteriores, bem como de outras plantas hospedeiras, principalmente a tiririca, são medidas benéficas para o controle da cochonilha, sendo também uma medida complementar de controle da fusariose.

O controle da formiga lava-pé também contribui para a redução das cochonilhas, através de um bom preparo do solo na área a ser explorada com abacaxi.

Durante as fases de colheita e pós-colheita, recomenda-se ainda os seguintes cuidados:

• Colher os frutos com um segmento do pedúnculo de aproximadamente dois centímetros;

• Evitar que os frutos sofram ferimentos durante as operações de colheita, manuseio e transporte;

• Eliminar os restos de culturas das proximidades das áreas onde os frutos são estocados e manuseados para exportação;

• Armazenar os frutos a 8 oC e manter esta temperatura durante a operação de transporte;

• Imergir o pedúnculo dos frutos em uma calda fungicida a fim de proteger o corte de colheita, sendo que os produtos mais utilizados são o Benomyl a 4 % e o Triadimefon a 0,2 % de ingrediente ativo.

E - Controle biológico

Vários inimigos naturais da cochonilha habitam o agroecossistema da cultura do abacaxi. A utilização de produtos seletivos com o objetivo de preservá-los, favorecerá o equilíbrio ecológico.

F – Controle químico durante as fases vegetativa e reprodutiva

O controle químico constitui-se, sem dúvida, na etapa mais complicada do controle de pragas e doenças que incidem sobre a cultura do abacaxi.

Ao contrário de outras culturas, a indústria agroquímica tem investido relativamente poucos esforços na pesquisa e desenvolvimento de produtos visando o controle dos problemas fitossanitários que afetam a cultura.

Tal fato é traduzido pelo pequeno número de defensivos registrados no Ministério da Agricultura, oferecendo poucas opções para os abacaxicultores, reforçando a necessidade da utilização do conjunto de técnicas mencionadas no decorrer do presente artigo.

Sara M. Chalfoun de Souza e Lenira V. Costa Santa-Cecília,
EPAMIG

* Este artigo foi publicado na edição número 15 da revista Cultivar Hortaliças e Frutas, de agosto/setembro de 2002. ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura