Efeito de adjuvantes em inseticidas nas pulverizações agrícolas

Adjuvantes melhoram o desempenho de inseticidas nas pulverizações agrícolas, potencializam suas características e aumentam a eficiência. Entretanto, sua escolha deve levar em conta a necessidade do produto e do alvo que se busca atingir, com o objetivo de melhorar o efeito no controle das pragas.

A agricultura brasileira está em constante evolução e seu desafio principal é produzir cada vez mais alimentos, com menor impacto ambiental e sem aumento significativo da área cultivada. Nesse modelo o uso racional e eficiente de agroquímicos é indispensável, por reduzir reaplicações e a contaminação ambiental e melhorar as pulverizações agrícolas.

No Brasil, de acordo com o decreto n° 4.074/2002, adjuvante significa “produto utilizado em mistura com produtos formulados para melhorar a sua aplicação”. Todos os significados para o termo adjuvante tem em comum uma melhora na qualidade de pulverização, pois os adjuvantes podem alterar as propriedades físico-químicas da calda, melhorando a molhabilidade, a adesão e o espalhamento das gotas, contribuindo para uma melhor retenção e penetração do ingrediente ativo.

O uso de adjuvantes, no Brasil, está associado à venda e ao emprego de fungicidas, herbicidas ou inseticidas da mesma empresa que o recomendam. Entretanto, resultados de pesquisa tem demonstrado que alguns adjuvantes podem potencializar a eficiência dos produtos agrícolas, melhorando a sua eficiência, desde que essa recomendação seja realizada de acordo com as características da aplicação, do produto a ser aplicado e do alvo biológico.

Adjuvantes nas aplicações agrícolas

Os adjuvantes podem estar presentes nas caldas de pulverização de duas maneiras: incorporados na formulação do agroquímico (mais comum em formulações de concentrados emulsionáveis) ou adicionados ao tanque de pulverização antes da aplicação. A classificação se dá pela sua atividade, como ativadores ou utilitários.

Os adjuvantes ativadores melhoram a atividade do agroquímico, aumentam a taxa de penetração do produto e auxiliam na eficiência. As principais formas de melhorar a qualidade da aplicação são a redução da tensão superficial e a retenção de umidade nas gotas sobre a superfície da folha. Os principais adjuvantes ativadores são os surfactantes, óleos vegetais, óleos metilados, óleos minerais, derivados de silicones e os fertilizantes nitrogenados.

Os adjuvantes utilitários agem como facilitadores das pulverizações agrícolas, com a redução dos efeitos negativos da pulverização e não influenciam diretamente na eficiência dos agroquímicos. Incluem os agentes compatibilizantes, depositantes, dispersantes, redutores de deriva, antiespumantes, condicionadores da água, acidificantes, tamponantes, umectantes, protetores de raios ultravioletas e corantes. Embora não tenham influência direta na ação do defensivo, sua utilização pode resultar em maior praticidade na aplicação, como por exemplo, o uso de redutores de espuma no tanque de pulverização com água, que mantém a calda sem espuma durante a agitação do pulverizador.

Características físico-químicas das caldas de pulverização

Para as pulverizações agrícolas a água é o elemento básico. Entretanto, devido a determinadas características de sua molécula, na superfície dos líquidos ocorre a formação de uma película, que é chamada de tensão superficial. Esse mesmo fenômeno ocorre nas gotas de pulverização, portanto quando há apenas água, sem a adição de adjuvantes, ocorre a formação de gotas mais esféricas e que tem um contato menor com a folha, dificultando a cobertura.

Uma das formas de medir a tensão superficial se dá por meio de um analisador da forma da gota (goniômetro). Recentemente, a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) adquiriu esse equipamento e tem realizado testes com diversos adjuvantes disponíveis no mercado. A tabela 1 apresenta alguns desses resultados com base na simulação de uma calda de pulverização de 200 L/ha. Os dados obtidos mostram que a tensão superficial da água se dá em torno de 72 mN/m e que alguns adjuvantes podem reduzir esse valor.

A influência da tensão superficial das caldas de pulverizações agrícolas pode ser visualizada na figura 1 com folhas de trigo. Na imagem A se tem apenas a água (71,8 mN/m) e na imagem B água + organosiliconados (22,8 mN/m). Essa diferença do comportamento da gota ocorre devido à redução da tensão superficial pela adição do adjuvante. Comparando as duas gotas, a mais esférica (imagem A, sem a adição de adjuvantes) é mais exposta às condições ambientais (temperatura e umidade), e tem uma cobertura reduzida na folha. Entretanto, a gota mais achatada (imagem B, com a adição de adjuvante) tem melhor molhabilidade. Analisando o controle de pragas, essa gota apresenta um potencial de controle superior, devido a melhor proteção e a maior cobertura do inseticida.

Figura 1. Ângulo de contato de gotas em folhas de trigo. (A) somente água; (B) água + organosiliconado.  - Fotos de Adriano Arrué Melo
Figura 1. Ângulo de contato de gotas em folhas de trigo. (A) somente água; (B) água + organosiliconado. - Fotos de Adriano Arrué Melo

Retenção de agroquímicos

A superfície da folha, composta pela cutícula, é a primeira barreira que os produtos precisam ultrapassar. A cutícula da folha varia em composição e estrutura entre as diferentes espécies de plantas. A adição de adjuvantes pode ajudar os produtos a entrarem na planta ou mesmo proteger os que são aplicados sobre a superfície foliar, resultando em maior quantidade de ingrediente ativo.

Em um trabalho da UFSM, realizado em conjunto com a Universidade de Bonn, na Alemanha, por meio de High performance liquid chromatography (HPLC),  a quantidade do inseticida clorantraniprole foi medida em plantas de trigo e milho, aplicado isoladamente e em associação com diferentes adjuvantes. Para tal foi realizada a aplicação com volume de calda de 200 L/ha e após as plantas foram cortadas e quantificou-se quanto de inseticida havia em cada um dos tratamentos.

Os resultados desse trabalho mostraram que tanto em milho como em trigo, a adição de adjuvantes aumentou a quantidade de ingrediente ativo nas plantas. Essa maior quantidade de produto na planta, pode resultar na melhora da eficiência biológica e em alguns casos pode aumentar o período residual dos inseticidas.  

Figura 2. Quantidade do inseticida clorantraniliprole em folhas de milho e trigo, 2016.
Figura 2. Quantidade do inseticida clorantraniliprole em folhas de milho e trigo, 2016.
Figura 2. Quantidade do inseticida clorantraniliprole em folhas de milho e trigo, 2016.
Figura 2. Quantidade do inseticida clorantraniliprole em folhas de milho e trigo, 2016.

Efeito da chuva nas aplicações de inseticidas

No mesmo trabalho foram extraídas imagens com microscópio eletrônico de varredura, equipamento que permite uma visão da epiderme da folha. As imagens mostram como se comportam os inseticidas isoladamente e em associação com adjuvantes quando expostos à chuvas.

 Na maioria das imagens foi possível visualizar os cristais do ingrediente ativo, o que indica que embora a chuva tenha grande influência na remoção, nem todo o produto que está sobre a folha acaba sendo retirado pelo impacto das gotas de precipitação. As folhas de trigo apresentaram maior quantidade de resíduos, devido à sua maior repelência com a água e a sua posição mais vertical, em comparação com as folhas de milho. 

Figura 3. Imagens de folhas de trigo (A) e milho (B) com a aplicação de inseticidas + adjuvantes após chuva simulada (5 ou 10 mm) em folhas. 2016. Imagens de Adriano Arrué Melo
Figura 3. Imagens de folhas de trigo (A) e milho (B) com a aplicação de inseticidas + adjuvantes após chuva simulada (5 ou 10 mm) em folhas. 2016. Imagens de Adriano Arrué Melo
Figura 3. Imagens de folhas de trigo (A) e milho (B) com a aplicação de inseticidas + adjuvantes após chuva simulada (5 ou 10 mm) em folhas. 2016. Imagens de Adriano Arrué Melo
Figura 3. Imagens de folhas de trigo (A) e milho (B) com a aplicação de inseticidas + adjuvantes após chuva simulada (5 ou 10 mm) em folhas. 2016. Imagens de Adriano Arrué Melo

A utilização de adjuvantes pode ajudar na qualidade das pulverizações, pois esses produtos, quando utilizados de maneira correta, aumentam a vida útil dos agroquímicos e melhoram a sua eficiência. A interação das gotas de pulverização com as superfícies que se quer atingir continua a ser um dos maiores desafios para a melhoria da eficiência de defensivos.

Atualmente é possível inferir que o uso de adjuvantes é uma prática importante na melhora da eficiência de defensivos agrícolas. A sua utilização auxilia no controle de pragas, na medida em que melhora a qualidade de aplicação e aumenta a quantidade de ingrediente ativo absorvido pelas plantas.

 

Adriano Arrué Melo, Jerson Vanderlei Carús Guedes, Jonas André Arnemann, Clérison Régis Perini, Maiquel Pizzuti Pes, Lucas Hahn, UFSM


Artigo publicado na edição 206 da Cultivar Grandes Culturas.

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