Efeitos de maturadores de cana-de-açúcar na cultura do milho

Importante ferramenta para auxiliar os produtores de cana-de-açúcar a acelerar  a oferta de matéria prima no início da safra, maturadores apresentam resultados adversos quando em contato com plantas de milho. Por isso é necessário critério e muita atenção a problemas com deriva ao utilizar este produto em áreas próximas a outros cultivos.

A aplicação aérea de produtos fitossanitários vem sendo amplamente utilizada em diversas culturas que necessitam tratamento em fase de ciclo mais adiantada, em que é impossibilitado o tráfego terrestre por máquinas pulverizadoras. Uma dessas culturas é a cana-de-açúcar que demanda pulverizações de maturadores no intuito de acelerar a maturação de cultivares para suprir o fluxo de matéria prima necessário para o início da safra. Na aplicação aérea desses produtos, a pulverização deve atingir o seu alvo sem que ocorra deriva garantindo a segurança das culturas vizinhas, porém, devido à altura dos canaviais, em muitos casos as pulverizações são realizadas acima do ponto de inversão térmica, o que aumenta as chances de ocorrência de deriva. Os danos causados pela deriva dependem da concentração e da quantidade do princípio ativo dos respectivos produtos adotados que chegam às culturas. À medida que se distancia da faixa de aplicação dos produtos fitossanitários, decrescem os danos ocasionados pela deriva, bem como sua concentração. De forma generalizada, em casos de aplicação terrestre a deriva situa-se em torno de 3% a 5% do produto aplicado, com aproximadamente metade da deriva ocorrida se depositando nos primeiros 15 metros, decaindo rapidamente à medida que se aumenta a distância em relação à faixa de aplicação. Já para aplicação aérea as informações são inexistentes na comunidade científica.

Com o objetivo de avaliar o efeito da deriva de maturadores de cana-de-açúcar na cultura do milho quando ocorrida em estádios vegetativos de desenvolvimento (V4 e V8) foi conduzida pesquisa na Universidade Federal de Goiás, Regional Jataí, com o objetivo de esclarecer a comunidade agrária sobre a influência de maturadores de cana-de-açúcar na cultura do milho. Os maturadores testados foram ethephon (475,2 g i.a./ ha), glifosato (216 g e.a./ha) e sulfometuron methyl (15 g i.a./ha), com as proporções de 3%, 6%, 9%, 12%, 25%, 50% e 100% da dose como maturador para cada situação. Aplicações de concentrações acima de 12% da dose como maturador foram consideradas erros de aplicação, o que é caracterizado como aplicação fora do alvo.

A deriva dos maturadores ethephon e glifosato não ocasionou efeitos visuais nas plantas de milho em quaisquer das doses testadas até o limite de 12% da dose recomendada como maturador. Aos 21 DAA (dias após aplicação) de ethephon, foi observado redução no porte nas plantas submetidas ao erro de aplicação (100% da dose como maturador) no estádio de desenvolvimento V8 (Figura 1). Aos 21 DAA de glifosato foi observada redução do porte e amarelecimento das folhas nas plantas submetidas ao erro de aplicação (100% da dose como maturador) no estádio de desenvolvimento V4 (Figura 2). Erros de aplicação de glifosato no estádio de desenvolvimento V8 da cultura do milho apresentaram maiores danos à cultura em comparação ao erro de aplicação no estádio V4 (Figura 3). Diminuição da produtividade foi evidenciada para erros de aplicação acima de 25% de ethephon no estádio de desenvolvimento V8, erros de aplicação de 100% de glifosato no estádio de desenvolvimento V4 e erros de aplicação de 25% e 50% de glifosato no estádio de desenvolvimento V8. Ainda, erros de aplicação de 100% de glifosato no estádio de desenvolvimento V8 resultaram em morte das plantas de milho (Figura 4).

Figura 1. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 21 DAA (dias após aplicação) simulando o erro de aplicação de 100% (475,2 g i.a. ha-1) de ethephon, ocorrido no estádio de desenvolvimento V8 da cultura do milho.
Figura 1. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 21 DAA (dias após aplicação) simulando o erro de aplicação de 100% (475,2 g i.a. ha-1) de ethephon, ocorrido no estádio de desenvolvimento V8 da cultura do milho.
Figura 2. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 21 e 42 DAA (dias após aplicação), simulando o erro de aplicação de 100% (216 g e.a. ha-1) de glifosato, ocorrido no estádio de desenvolvimento V4 da cultura do milho.
Figura 2. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 21 e 42 DAA (dias após aplicação), simulando o erro de aplicação de 100% (216 g e.a. ha-1) de glifosato, ocorrido no estádio de desenvolvimento V4 da cultura do milho.
Figura 3. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 21 e 42 DAA (dias após aplicação), simulando os erros de aplicação de 25% (54 g e.a. ha-1), 50% (108 g e.a. ha-1) e 100% (216 g e.a. ha-1) de glifosato, ocorridos no estádio de desenvolvimento V8 da cultura do milho.
Figura 3. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 21 e 42 DAA (dias após aplicação), simulando os erros de aplicação de 25% (54 g e.a. ha-1), 50% (108 g e.a. ha-1) e 100% (216 g e.a. ha-1) de glifosato, ocorridos no estádio de desenvolvimento V8 da cultura do milho.
Figura 4. Produtividade de grãos (kg ha-1) em função da deriva (3, 6, 9 e 12% da dose dos maturadores) e erros de aplicação (25, 50 e 100% da dose dos maturadores), quando ocorridos nos estádios V4 e V8 de desenvolvimento da cultura do milho, dos maturadores ethephon, glifosato e sulfometuron methyl.
Figura 4. Produtividade de grãos (kg ha-1) em função da deriva (3, 6, 9 e 12% da dose dos maturadores) e erros de aplicação (25, 50 e 100% da dose dos maturadores), quando ocorridos nos estádios V4 e V8 de desenvolvimento da cultura do milho, dos maturadores ethephon, glifosato e sulfometuron methyl.

Os sintomas visuais de fitotoxicidade foram observados nas plantas de milho a partir da deriva de 3% de sulfometuron methyl sendo nas derivas de 6%, 9% e 12% mais agressivos, aos 21 DAA no estádio de desenvolvimento V4 (Figura 5). Ainda, morte das plantas foi evidenciada a partir do erro de aplicação de 25% de sulfometuron methyl aos 42 DAA no estádio de desenvolvimento V4 (Figura 6). Aos 21 DAA de sulfometuron methyl no estádio de desenvolvimento V8 começou a ocorrer necrose dos ponteiros a partir de 9% de deriva, evoluindo para morte das plantas aos 42 DAA (Figuras 7 e 8). A produtividade de grãos ficou comprometida a partir da deriva de 3% de sulfometuron methyl, sendo que erro de aplicação a partir de 25% no estádio de desenvolvimento V4 ocasionou morte das plantas (Figura 1). Por outro lado, a partir da deriva de 9% no estádio de desenvolvimento V8 já ocorreu morte de plantas. Redução no tamanho das espigas de milho foi caracterizada para deriva de 3% de sulfometuron methyl ocorrida nos estádios de desenvolvimento V4 e V8. Enchimento desuniforme de grãos e deformação de espigas foram observados para deriva de 9% e 12% de sulfometuron methyl ocorrida no estádio de desenvolvimento V4 (Figura 9).

Em geral, observou-se maior sensibilidade da cultura do milho aos maturadores quando a cultura se encontrava em estádio vegetativo mais avançado de desenvolvimento. Nesse contexto, o maturador sulfometuron methyl mostrou ser fitotóxico à cultura do milho mesmo em baixas doses. E os maturadores ethephon e glifosato apresentaram-se como boas opções de maturadores para serem aplicados em canaviais localizados próximos a áreas de cultivo de milho, desde que não haja erros de aplicação.

Na tomada de decisão para a aplicação de maturadores devem ser levadas em consideração as culturas cultivadas em áreas adjacentes bem como seus estádios de desenvolvimento, visto o risco da deriva desses produtos. Assim, quando a cultura da cana-de-açúcar estiver localizada nas proximidades de áreas de plantio de milho é necessário estar atento para a escolha de um maturador que seja menos agressivo caso apresente potencial de ocorrência de deriva.  

Figura 5. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 21 DAA (dias após aplicação), simulando a deriva de 6% (0,90 g i.a./ ha), 9% (1,35 g i.a./ ha) e 12% (1,8 g i.a./ ha) e erro de aplicação de 25% (3,75 g i.a./ ha) de sulfometuron methyl, ocorridos no estádio de desenvolvimento V4 da cultura do milho.
Figura 5. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 21 DAA (dias após aplicação), simulando a deriva de 6% (0,90 g i.a./ ha), 9% (1,35 g i.a./ ha) e 12% (1,8 g i.a./ ha) e erro de aplicação de 25% (3,75 g i.a./ ha) de sulfometuron methyl, ocorridos no estádio de desenvolvimento V4 da cultura do milho.
Figura 6. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 42 DAA (dias após aplicação), simulando a deriva de 6% (0,90 g i.a. /ha), 9% (1,35 g i.a./ ha) e 12% (1,8 g i.a./ ha) e erro de aplicação de 25% (3,75 g i.a./ ha) de sulfometuron methyl, ocorridos no estádio de desenvolvimento V4 da cultura do milho.
Figura 6. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 42 DAA (dias após aplicação), simulando a deriva de 6% (0,90 g i.a. /ha), 9% (1,35 g i.a./ ha) e 12% (1,8 g i.a./ ha) e erro de aplicação de 25% (3,75 g i.a./ ha) de sulfometuron methyl, ocorridos no estádio de desenvolvimento V4 da cultura do milho.
Figura 7. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 21 DAA (dias após aplicação), simulando a deriva de 3% (0,45 g i.a. /ha), 6% (0,90 g i.a./ ha), 9% (1,35 g i.a./ ha) e 12% (1,8 g i.a. /ha) e erro de aplicação de 25% (3,75 g i.a./ ha) de sulfometuron methyl, ocorridos no estádio de desenvolvimento V8 da cultura do milho.
Figura 7. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 21 DAA (dias após aplicação), simulando a deriva de 3% (0,45 g i.a. /ha), 6% (0,90 g i.a./ ha), 9% (1,35 g i.a./ ha) e 12% (1,8 g i.a. /ha) e erro de aplicação de 25% (3,75 g i.a./ ha) de sulfometuron methyl, ocorridos no estádio de desenvolvimento V8 da cultura do milho.
Figura 8. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 42 DAA (dias após aplicação), simulando a deriva de 3% (0,45 g i.a. /ha), 6% (0,90 g i.a. /ha) e 9% (1,35 g i.a./ ha) de sulfometuron methyl, ocorrida no estádio de desenvolvimento V8 da cultura do milho.
Figura 8. Sintomas visuais de fitotoxicidade aos 42 DAA (dias após aplicação), simulando a deriva de 3% (0,45 g i.a. /ha), 6% (0,90 g i.a. /ha) e 9% (1,35 g i.a./ ha) de sulfometuron methyl, ocorrida no estádio de desenvolvimento V8 da cultura do milho.
Figura 9. Sintomas visuais de fitotoxicidade nas espigas de milho em função da deriva de 3% (0,45 g i.a./ ha), 6% (0,90 g i.a./ ha), 9% (1,35 g i.a./ ha) e 12% (1,8 g i.a./ ha) de sulfmeturon methyl, ocorrida no estádio de desenvolvimento V4 e V8 da cultura do milho.
Figura 9. Sintomas visuais de fitotoxicidade nas espigas de milho em função da deriva de 3% (0,45 g i.a./ ha), 6% (0,90 g i.a./ ha), 9% (1,35 g i.a./ ha) e 12% (1,8 g i.a./ ha) de sulfmeturon methyl, ocorrida no estádio de desenvolvimento V4 e V8 da cultura do milho.


Patrícia Aparecida de Carvalho Felisberto, Paulo César Timossi, Guilherme Felisberto e Andréia Rodrigues Ramos,  Universidade Federal de Goiás – UFG – Regional Jataí


Artigo publicado na edição 201 da Cultivar Grandes Culturas.

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