Efeitos do boro no alface

A alface (Lactuca sativa L.) pertence à família das Asteráceas, grupo de hortaliças mais consumido em saladas no Brasil (Filgueira, 2003), com uma produção de 525.603 toneladas em 2006, onde a região Sudeste contribuiu com 66,7% dessa produção (IBGE, 2012). O estado do Amazonas não é autossuficiente na produção do setor primário, principalmente os de origem hortícola, produzindo o equivalente a 0,14% da produção nacional e Manaus, com população superior a 1,8 milhão de habitantes (IBGE, 2012), se caracteriza hoje como um grande centro urbano consumidor, sendo que para atender a essa demanda a maioria das hortaliças vem de outras regiões do País.

Nos mercados varejistas se percebe a predominância da alface hidropônica, que é o principal sistema produtivo da região. A produção de alface em sistema hidropônico, em estudo realizado em Lavras, Minas Gerais, demonstrou que a atividade nas condições apresentadas não tem a capacidade de cobrir os custos totais e o produtor está em um processo de descapitalização, o que, em médio e longo prazo, o fará deixar a atividade. Para igualar a receita total com o custo total, ou a produtividade aumenta em 2% ou o preço de venda em 3% (Geisenhoff et al, 2009).

O cultivo protegido no amazonas tem concentração em dois produtos: pimentão e coentro. A alface é uma possível alternativa de cultivo para aproveitar, com um ciclo curto, a área proveniente de outras culturas. Manaus é um grande centro consumidor e no mercado é comercializada a produção regional de alfaces crespas e americanas. Porém, a alface americana, devido às condições edafoclimáticas da região amazônica, não apresenta seu formato de cabeça característico, que, segundo Filgueira (2003), tem as folhas consistentes, com as nervuras destacadas, formando uma cabeça mais compacta. Existem relatos de efeitos positivos da aplicação do boro em alface, com aumento de produção, circunferência da planta e da cabeça (Yuri et al, 2004; Chutichudet & Chutichudet, 2009). Dessa forma, com o objetivo de promover ganhos na produção e no tamanho e peso da cabeça, foi realizado um experimento para avaliar o efeito do boro sobre a alface americana nas condições edafoclimáticas do Amazonas. 

 O experimento

O experimento foi conduzido entre abril e junho de 2011, no município de Iranduba, Amazonas, em área de produtor, localizada nas coordenadas 3º13’3,74”S e 60º13’24,08”O, sob casa de vegetação tipo capela, com estrutura de madeira e nas seguintes dimensões: sete metros de largura por 45 metros de comprimento e pé direito de três metros. A cobertura foi confeccionada com plástico de polietileno transparente de baixa densidade (PEBD) e 100μm de espessura.

O delineamento experimental utilizado foi em blocos casualizados com oito repetições, em parcelas de quatro linhas com 24 plantas, com espaçamento de 0,3m x 0,3m. No ensaio foi utilizada a cultivar Lucy Brown. Foram aplicados 13 tratamentos, sendo T0 = testemunha (ausência de boro); T1 = 0,5; T2 = 2,0; T3 = 3,5 e T4 = 5,0kg/ha de borato de sódio decaidratado aplicados no solo, 15 dias antes do transplantio (DAT); T5 = 0,5kg/ha; T6 = 2,0kg/ha; T7 = 3,5kg/ha e T8 = 5,0kg/ha de borato de sódio decaidratado via foliar, parcelado em três aplicações (aos 7, 14 e 21 dias após o transplantio, com 30%, 30% e 40% da dose, respectivamente); T9 = 0,5; T10 = 2,0; T11 = 3,5 e T12 = 5,0kg/ha de borato de sódio decaidratado via foliar, em dose única aos 14 DAT.

As mudas foram produzidas em bandejas de isopor com 200 células, utilizando-se uma semente/célula, em substrato comercial e ambiente protegido. Na produção das mudas foi aplicado fertilizante foliar comercial, composto por N, Ca e Mg, com 132g/L, 106g/L e 45g/L, respectivamente, na concentração de 1ml/L.

Na adubação de base foi aplicado no preparo da área o equivalente a 40kg de esterco de galinha/leira de 60m2, 150kg de N/ha, 50kg de K2O/ha e 25kg de P2O5/ha e, aos 25 dias após o transplantio, por fertirrigação, foi aplicado 1kg de ureia/720 metros de linha de plantio.

O transplante das mudas ocorreu aos 30 dias da semeadura, quando as plantas apresentavam quatro folhas definitivas. O cultivo coincidiu com o período denominado “verão”, ou seja, época com menor índice pluviométrico na região norte e em que, sob o cultivo protegido, a temperatura tende a aumentar.

A colheita ocorreu aos 35 dias após o transplante das mudas, onde foram avaliados os seguintes parâmetros: biomassa fresca total (com a retirada das folhas danificadas), biomassa fresca da cabeça, diâmetro da cabeça, massa fresca do caule, As análises dos dados foram realizadas em software estatístico (Irristat, v.5.0) desenvolvido pelo International Rice Research Institute (Irri)

 Resultados preliminares

Nas condições deste trabalho, os resultados encontrados (Tabela 1) demonstraram que os tratamentos não causaram efeitos significativos sobre o diâmetro da cabeça e na biomassa fresca da cabeça, apesar de resultarem em incremento de 13% e 38%, respectivamente, quando comparados com a testemunha. Porém, o uso de 5kg de borato de sódio decaidratado por hectare e por via foliar e parcelado (T8) promoveu maior acúmulo de biomassa fresca do que o uso de 3,5 kg de borato de sódio decaidratado por hectare por via foliar e parcelado (T7). Essa dose foi superior a duas vezes a dose de 1,71kg/ha aplicada via foliar aos 21 dias após o transplantio, que proporcionou melhor rendimento e qualidade comercial da alface americana em ensaio conduzido no inverno em Minas Gerais (Yuri et al, 2004). As condições edafoclimáticas do Amazonas estimulam a precocidade das plantas, pois as temperaturas e o comprimento dos dias superam as condições ótimas para a manutenção da fase vegetativa mais prolongada (Filgueira, 2003; Resende et al, 2007). Dessa forma, enquanto em ensaios nas condições climáticas com temperaturas mais amenas, com colheitas com ciclos mais prolongados, a biomassa fresca das plantas atinge pesos superiores a 600g (Resende et al, 2005; Yuri et al, 2004), nas condições amazônicas e no período do verão, a média da biomassa fresca total da parte aérea nesse ensaio ficou em torno de 122g. O número de folhas na cabeça, obtido com o T11 (3,5kg/ha de borato de sódio decaidratado, aplicado via foliar aos 21 DAT), foi superior aos tratamentos T7 e T8, característica que interessa ao rendimento no uso em saladas.

Em um estudo de contrastes (Tabela 2), foi possível observar que o emprego das doses de boro não promoveu ganho em nenhum dos parâmetros avaliados quando comparado com o controle, apesar dos efeitos positivos do uso de boro em outros ensaios com alface (Yuri et al, 2004; Chutichudet & Chutichudet, 2009). No contraste entre o uso de boro via foliar ou via solo, o uso foliar permitiu um ganho significativo na biomassa fresca total e no diâmetro da cabeça. O uso de boro foliar em dose única superou, em número de folhas na cabeça, o uso do boro foliar parcelado. Apesar do uso do boro não ter superado significativamente o comportamento do tratamento de controle, tem-se nos contrastes a perspectiva de manutenção de um caminho investigativo para o uso do boro via foliar, em alface americana, nas condições amazônicas.

Tabela 1 - Efeitos da aplicação de doses de boro via solo e foliar sobre a alface americana, cultivar Lucy Brown, em cultivo protegido, nas condições do Amazonas Iranduba/AM, Embrapa Amazônia Ocidental, 2011

Tratamentos1

Biomassa fresca total

(g.planta-1)

Diâmetro da cabeça

(mm)

Biomassa fresca da cabeça (g.planta-1)

Número de folhas na cabeça (un.planta-1)

 T02

128,88 ab1

94,45 a

68,76 a

12,25 abc

T1

131,00 ab

96,13 a

73,16 a

12,50 abc

T2

96,13 ab

72,97 a

56,10 a

12,37 abc

T3

104,13 ab

92,98 a

54,12 a

11,13 abc

T4

106,50 ab

75,58 a

56,39 a

11,50 abc

T5

134,38 ab

84,63 a

70,09 a

12,00 abc

T6

92,50 ab

72,72 a

69,69 a

9,87 c

T7

90,63 b

98,20 a

44,69 a

10,25 bc

T8

162,75 a

99,66 a

87,50 a

13,63 abc

T9

97,50 ab

74,34 a

54,02 a

11,38 abc

T10

158,25 ab

105,70 a

95,46 a

15,00 ab

T11

144,25 ab

106,50 a

90,49 a

15,25 a

T12

135,63 ab

87,50 a

68,20 a

13,38 abc

1Médias com letras iguais e na mesma coluna não diferem entre si estatisticamente pelo teste de Tukey (5%).

2T0 = testemunha (ausência de boro), tratamentos com aplicação de borato de sódio decaidratado (bórax) no solo 15 dias antes do transplantio:  T1 = 0,5; T2 = 2,0; T3 = 3,5 e T4 = 5,0kg/ha-1, tratamentos com aplicação bórax via foliar, parcelados em três aplicações (aos 7, 14 e 21 dias após o transplantio): T5 = 0,5; T6 = 2,0; T7 = 3,5 e T8 = 5,0kg/ha-1 e tratamentos com aplicação de bórax via foliar, em dose única aos 14 dias após o transplantio): T9 = 0,5; T10 = 2,0; T11 = 3,5 e T12 = 5,0kg/ha-1.

 

Tabela 2 - Médias de tratamentos e diferença absoluta entre médias dos contrastes (׀ŷ׀) de tratamentos para características de produção da alface. Iranduba/AM, Embrapa Amazônia Ocidental, 2011

Características

Médias

 

׀ŷ׀

TS1

TA

TB

TC

TD

TE

 

TA

x

TS

TC

x

TB

TE

x

TD

Biomassa fresca total

(g.planta-1)

128,9

121,1

109,4

127,0

120,1

133,9

 

7,74ns

17,55*

13,84 ns

Diâmetro da cabeça (cm)

94,5

88,9

84,4

91,2

88,8

93,5

 

5,54ns

6,74*

4,71 ns

Biomassa fresca da cabeça (g.planta-1)

68,8

68,3

59,9

72,5

68,0

77,0

 

0,43ns

12,58 ns

9,05 ns

Número de folhas na cabeça (un.planta-1)

12.3

12.4

11.9

12.6

11.4

13.8

 

0.10ns

0.72 ns

2.32**

*, **Significativo a 5% e 1% de probabilidade pelo teste de F e  nsNão significativo

1TS = Ausência de boro; TA = Uso de boro; TB = Aplicação de boro via solo, 15 dias antes do transplantio;  TC = Aplicação de boro via foliar; TD = Aplicação de boro via foliar parcelado (7, 14 e 21 dias após o transplantio, com 30, 30 e 40% da dose, respectivamente); TE =  Aplicação de boro via foliar em dose única.

 

Clique aqui para ler o artigo na íntegra na edição 78 da Cultivar Hortaliças e Frutas.


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