Elas estão no solo comendo seus lucros

O controle de pragas-de-solo é tarefa complexa, tendo em vista a dificuldade de se localizar, monitorar e atingir o alvo. Pelas mesmas razões, o estudo de pragas-de-solo se reveste de maior dificuldade e é mais lento em relação ao estudo de pragas da parte aérea. A Embrapa Trigo, em Passo Fundo, RS, tem dedicado desde o início da década de 80 grande parte de seu esforço em pesquisa entomológica às pragas-de-solo associadas a sistemas de produção de grãos, firmando-se como uma das referências nacionais no assunto. Em geral, as pragas de solo não são específicas, sendo possível identificar alguns grupos mais importantes e comuns em gramíneas (arroz, aveia, cevada, milho e trigo) e em leguminosas (feijão e soja) produtoras de grãos.

Corós

Corós é o nome vulgar dado às larvas de grande número de espécies de besouros, as quais possuem tamanho variável e aspecto tipicamente escarabeiforme: corpo em forma de “c”, coloração geral branca, com cabeça e pernas de cor marrom. Existem corós rizófagos (comem raízes), que podem danificar as culturas e ser pragas, bem como espécies saprófagas (alimentam-se de matéria orgânica em decomposição), que possuem importante papel na reciclagem de matéria, na natureza. Os principais corós-praga no Brasil são o coró-do-trigo (Phyllophaga triticophaga), o coró-da-soja (P. cuyabana), o coró-das-pastagens (Diloboderus abderus) e o coró-do-arroz (Euetheola humilis). Os corós possuem longo ciclo biológico, levando de um a dois anos para completarem uma geração. Atacam praticamente todas as culturas produtoras de grãos, causando sérios prejuízos em todo o país. Outras espécies estão sendo registradas à medida que cresce a ocupação de áreas com grandes extensões de culturas anuais, principalmente sob sistemas de manejo conservacionista do solo.

Larva-alfinete

Trata-se da forma jovem da vaquinha verde-amarela (Diabrotica speciosa), praga desfolhadora de diversas plantas. A fêmea faz a postura no solo próximo a plantas hospedeiras, de onde eclodem as larvas que vão se alimentar dos órgãos subterrâneos das plantas. A larva é branca, mede cerca de 1 cm de comprimento, possui a parte anterior do corpo afilada e a posterior mais robusta, com uma placa escura no último segmento. Ocorrem várias gerações anuais. Entre as culturas graníferas, é em milho que a larva-alfinete tem maior importância pelos danos que causa e pela ampla distribuição geográfica. Pode-se encontrar mais de uma dezena de larvas junto ao sistema radicular, destruindo as raízes, deixando a planta debilitada, com sintomas de deficiência nutricional e mais suscetível a estiagens e a acamamento. Normalmente, os danos são mais intensos entre quatro e seis semanas após a emergência de milho.

Larvas-arame

As verdadeiras larvas-arame são formas jovens de besouros elaterídeos (vaga-lumes), que quando colocados de costas dão um estalido com o corpo e se colocam novamente na posição normal. Das diversas espécies existentes, Conoderus scalaris e C. stigmosus parecem ser as mais comuns. Possuem ciclo longo, provavelmente com uma geração anual. As larvas são subterrâneas, de cor amarelada, e apresentam corpo rígido, cilíndrico ou ligeiramente achatado, com até 3 cm de comprimento. Consomem sementes, raízes e a base do caule de plantas. Ocasionalmente, podem causar danos em cereais, logo após a emergência das plantas. As falsas larvas-arame são semelhantes às verdadeiras, porém pertencem à espécie de tenebrionídeo Blapstinus punctulatus e vivem próximo à superfície do solo. O adulto é um besouro marrom conhecido por ligeirinho, que possui em torno de 1 cm de comprimento e vive na superfície do solo ou a pequenas profundidades. Tanto larva como adulto atacam as plantas, especialmente soja em períodos de estiagem.

Gorgulhos-do-solo

São larvas ápodas, que atingem até 1,2 cm de comprimento, de corpo branco, onde se destacam as peças bucais escuras. Os adultos são besouros de asas atrofiadas, do gênero Pantomorus, que possuem cabeça com um bico projetado para frente. Medem cerca de 1,5 cm de comprimento e têm coloração parda-acinzentada. As larvas consomem a parte subterrânea de diversas culturas. Normalmente, vivem enterradas próximo à superfície do solo, aprofundando-se em épocas de secas.

Cupins

São insetos sociais, que vivem em colônias de indivíduos ápteros e alados, que constituem castas com funções específicas (operários, soldados e reprodutores). Uma das espécies mais conhecidas é o cupim-de-montículo (Cornitermes cumulans), comum em pastagens e que começa a ser mais freqüente em áreas sob plantio direto. Os cupins-subterrâneos, principalmente dos gêneros Syntermes e Procornitermes, vivem em ninhos subterrâneos e atacam pastagens e lavouras que sucedem gramíneas após a abertura de campos e cerrados. Os cupins consomem sementes e raízes.

Percevejos-da-raiz

Algumas espécies de percevejos vivem e se multiplicam no solo, sugando as raízes de plantas. O percevejo-castanho (Scaptocoris castanea) é a espécie mais conhecida. O adulto tem o corpo marrom, que atinge até 0,9 cm de comprimento, e possui pernas anteriores escavatórias. As formas jovens são quase totalmente brancas logo após a eclosão e vão se tornando marrom-claras à medida que se desenvolvem. Adultos e jovens (ninfas) sugam raízes, provocando sintomas típicos na parte aérea. Quando se escava o solo infestado, o odor característico de “fede-fede” revela a presença dessa praga. Outras espécies de percevejos de raiz, como Atarsocoris brachiariae e Cyrtomenus mirabilis (percevejo-preto), também ocorrem.

Pulgões-da-raiz

São insetos sugadores que formam colônias, constituídas por ninfas e adultos, nas raízes de plantas. Possuem corpo arredondado, mole e de pequeno tamanho (2-3 mm). Em períodos de deficiência hídrica para as plantas, seus danos se tornam mais evidentes na parte aérea (murcha, amarelecimento, secamento e até morte). As espécies mais comuns são Rhopalosiphum rufiabdominale e Smynthurodes betae, que podem atacar diversas culturas gramíneas e leguminosas.

Moscas-da-semente

Trata-se de uma pequena mosca (Delia platura) que é atraída para colocar seus ovos em solos com vegetais em decomposição ou mesmo por plântulas com dificuldade de emergência. As larvas são brancas e ápodas, com a parte anterior do corpo pontiaguda, e se desenvolvem em sementes e na parte da planta que fica enterrada. Grupos de larvas podem ser encontrados alimentando-se e destruindo os tecidos, caracterizando o que muitos chamam de “bicheira”. A pupação ocorre no mesmo local onde as larvas se desenvolveram. A ocorrência dessa praga está associada a fatores que dificultam e retardam a germinação de sementes e a emergência de plantas, como baixas temperaturas de solo em culturas de primavera-verão, semeadura muito profunda, compactação superficial do solo e sementes com baixo vigor.

Larva-angorá

É a larva de um besouro amarelo com manchas pretas (Astylus variegatus), que mede aproximadamente 0,8 cm de comprimento e no verão é facilmente encontrado em flores de plantas.

A larva desenvolve-se no solo, do verão à primavera, alimentando-se essencialmente de sementes de plantas cultivadas ou não. Em seu desenvolvimento máximo atinge 1 cm de comprimento. O corpo tem coloração geral marrom, revestido por pêlos finos, sendo mais robusto na extremidade posterior, onde apresenta dois prolongamentos maiores que os pêlos.

Broca-do-azevém

Também chamada de broca-da-coroa-do-trigo, a larva do curculionídeo Listronotus bonariensis ataca a região de onde se formam os afilhos de gramíneas, broqueando em diversas direções e destruindo os tecidos de crescimento. Besouro e larva são de tamanho diminuto, medindo cerca de 2 e 3 mm de comprimento, respectivamente, o que os torna difíceis de ser encontrados. A postura pode ser feita em azevém e em cereais de inverno. No entanto, ao contrário de azevém, a alta incidência não é muito freqüente, neste últimos.

Danos expressivos podem ocorrer em milho semeado sobre culturas de inverno infestadas, dessecadas quimicamente, em decorrência de migração dos insetos para as plantas recém-emergidas.

Broca-do-colo

É a larva do lepidóptero Elasmopalpus lignosellus, também denominada lagarta-elasmo. É polífaga, podendo atacar gramíneas e leguminosas produtoras de grãos. Seus danos são mais intensos em clima e ambientes quentes e secos. Broqueia plântulas na região do colo, onde penetra e faz galeria ascendente. Quando em repouso, aloja-se num abrigo que constrói no solo, junto ao orifício de entrada na planta, juntando partículas de solo e excrementos com fios de seda. Dificilmente causa danos em culturas sob plantio direto.

Lagartas

São larvas de lepidópteros que vivem na superfície do solo ou enterradas a pequenas profundidades e que saem para atacar as plantas à noite ou em dias nublados. Em geral, são capazes de causar danos quando o ataque ocorre logo após a emergência de plantas e nas duas ou três semanas seguintes. As principais espécies são a lagarta-rosca (Agrotis ipsilon), a lagarta-militar (Spodoptera frugiperda) e a lagarta-do-trigo (Pseudaletia sequax). As duas últimas espécies, além do comportamento descrito, também agem como pragas da parte aérea de plantas já desenvolvidas. A lagarta-rosca corta as plântulas ao nível do solo e seus danos são maiores quando já se encontra na área por ocasião do plantio. Pode migrar de outras plantas, como língua-de-vaca e caruru. A lagarta-do-trigo tem sido problema quando, presente em aveia-preta que é dessecada quimicamente para plantio de milho, passa para as plantas recém-emergidas, comendo toda a parte aérea das plantas. A lagarta-militar ocorre na fase inicial da cultura de trigo em regiões onde o inverno é seco e não-rigoroso. O ataque se dá em manchas na lavoura, que aumentam à medida que as lagartas crescem e onde os danos ao estande de plantas podem ser severos. Aproximadamente, as lagarta-do-trigo e a lagarta-militar têm duração de três semanas e a lagarta-rosca, de quatro semanas. Ultimamente, tem aparecido outra espécie de lagarta (Peridroma saucia) em culturas de inverno, como em nabo, e em milho semeado em sucessão.

Grilos

Os grilos são insetos pantófagos, mais conhecidos como pragas de hortas e jardins. Em lavouras, começam a ter maior importância no sistema plantio direto. O grilo-preto (Gryllus assimilis) vive em ambientes úmidos, sob torrões e restos culturais. O grilo-marrom (Anurogryllus muticus) faz galerias, deixando montículos de terra na entrada destas, denunciando sua presença na área. Os grilos têm hábitos noturnos e se alimentam na superfície ou cortam e carregam partes de plantas para dentro do solo. Os maiores danos às culturas ocorrem na primavera e no verão, especialmente logo após a emergência das plantas.

José Roberto Salvadori
Embrapa Trigo

* Este artigo foi publicado na edição número 05 da revista Cultivar Grandes Culturas, de junho de 1999. ver mais artigos
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