Eliminar é preciso

O algodoeiro é uma planta que precisa, como medida profilática, ser eliminada logo após a colheita, pois ao contrário, continuará vegetando, servirá de hospedeiro de pragas e doenças. Os restos culturais desta planta, também denominados de soqueira, abrigam pragas potencialmente prejudiciais como o bicudo, a lagarta rosada da broca da raiz e a ramulose, que continuarão a se reproduzir, aumentando o potencial de ataque nas lavouras do próximo ano. Desta forma, é essencial que os restos culturais sejam totalmente eliminados, o mais rápido possível, para quebrar o ciclo das pragas de importância econômica para a cultura do algodão, principalmente na região Centro Oeste, onde não ocorre diapausa destas pragas. A destruição destes restos culturais, embora seja um processo que dificulta e encarece a produção, tornou-se prática obrigatória em 1953 e, a partir de 1993, por meio de portaria ministerial, foi repassada aos estados a incumbência de definir as datas limites para a permanência das soqueiras no campo.

Grande parte da destruição dos restos da cultura do algodão na região dos cerrados tem sido feita por meio de roçada baixa e incorporação profunda dos restos culturais, utilizando-se de implementos agrícolas como roçadoras e grades pesadas. O uso da roçadora mecânica, de forma isolada, trabalhando a uma altura de 10 a 15cm da planta, com o corte e a fragmentação da parte vegetal, não é suficiente a ponto de destruir completamente a planta, uma vez que ela rebrotará. Assim, sempre se utiliza a roçada, associada a outro método de destruição de soqueiras, como a aração ou a gradagem.

Dos diversos métodos que estão sendo empregados na eliminação da soqueira a roçada baixa, seguida da incorporação através das grades pesadas à profundidade de aproximadamente 15 cm é o que apresenta o melhor resultado no controle populacional de insetos pragas do algodoeiro. Este método, no entanto, mobiliza o perfil cultural do solo, exige alta potência e alto consumo de combustível, aumentando os custos da lavoura, além de não se adequar aos princípios da moderna agricultura sustentável.

O uso das grades causa um forte impacto na estrutura do solo, provocando erosão, reduzindo os níveis de matéria orgânica e formando, ao longo do tempo, uma camada compactada na subsuperfície do solo que tende a inviabilizar o cultivo do algodoeiro. Sendo assim, agricultores e pesquisadores têm buscado alternativas que possibilitem a destruição da soqueira do algodão, com um custo baixo e que sejam menos agressivos ao solo do que as grades de discos.

Umas das alternativas que está sendo utilizada pelos agricultores é o uso do controle químico, associado a implementos de trituração. Neste método, os restos culturais do algodão são triturados por meio de roçadoura de eixo horizontal, também chamada de triturador de restos vegetais, a uma altura entre 10 e 15 centímetros. Quando a rebrota aparece são aplicados, por meio de pulverizadores, herbicidas com a finalidade de eliminá-la. A destruição química dos restos culturais do algodoeiro tem sido feita pelo uso de herbicidas como Gliphosato e 2,4 D amina em combinação. Os resultados dessas práticas são ainda questionados, uma vez que este controle não tem apresentado a eficiência que a medida exige, além do fato que os herbicidas empregados têm problema de registro para este tipo de uso.

A destruição da soqueira do algodão pelo uso de triturador de restos vegetais, seguido da aplicação de herbicidas, tem sido justificada pela possibilidade de manter os restos vegetais sobre o solo e não apresentar qualquer tipo de mobilização, quesitos necessários para a adoção ou manutenção do sistema "plantio direto". No entanto, é preciso regular a rotação do rotor do triturador e a velocidade de trabalho de forma que os fragmentos da planta não fiquem muito pequenos, pois se decomporiam rapidamente e o efeito de palhada estaria comprometido. Quanto mais rápido girar o rotor da roçadoura ou quanto menor a velocidade do trator, menores serão os fragmentos obtidos.

Os trituradores existentes no mercado têm largura efetiva de trabalho variando de 1,8 a 4,6 metros e consomem, respectivamente, de 60 a 120 CV de potência do trator. O movimento das facas oscilantes, que efetuam o corte do material, é provido pela TDP do trator, por meio de eixo cardã e sistema de transmissão para ampliar a rotação de 540 para 1750 rpm.

Algumas empresas que fabricam implementos agrícolas tomaram a iniciativa de desenvolver projetos de implementos com a finalidade de destruir os restos culturais do algodão. O "matabroto-algodão" é um exemplo disso. Ele é um subsolador que foi desenvolvido especialmente para eliminação da soqueira do algodão. Este implemento tem como órgãos ativos lâminas, presas às pontas das hastes, que trabalham horizontalmente na subsuperfície do solo, de forma a extirpar o sistema radicular das plantas que acabam morrendo após alguns dias.

Este implemento está disponível em versões com 4 e 6 hastes e exige em torno de 25 a 30 CV de potência do motor para cada haste, sendo que esta potência pode ser, ainda, maior para solos argilosos ou quando ele está seco. Por ser um subsolador, o "matabrotos-algodão" pode promover a quebra de eventuais camadas compactadas que possam ter se formado na subsuperfície do solo, acima da profundidade de operação das lâminas, ao mesmo tempo em que extirpam as raízes do algodoeiro, pois estas rompem o solo e o elevam, para depois depositá-lo no mesmo lugar. As lâminas desse implemento mobilizam uma sessão de solo de 60 centímetros de largura por uma profundidade de 15 a 20 centímetros.

O uso do "matabroto-algodão" requer, de qualquer forma, que a parte aérea das plantas do algodoeiro seja eliminada, anteriormente, por meio de trituradores ou roçadouras, para promover a rebrota e para que o solo fique desimpedido. O uso do fogo, como forma de eliminar a parte aérea do algodoeiro, não é prática recomendada, do ponto de vista do manejo do solo e da preservação do meio ambiente.

O "arrancador de soqueira do algodão" é outro implemento disponível no mercado para o manejo dos restos desta cultura. Este Implemento, disponível nas versões de quatro a seis fileiras, tem como órgãos ativos discos de 32 polegadas de diâmetro e exige potência do trator entre 70 e 100 CV, dependendo do número de fileiras. Ele processa o arranquio das plantas pela ação dos dois discos que trabalham emparelhados, um de cada lado da fileira de plantas, em posição diagonal e inclinada em relação às plantas. A ação dos discos, em profundidade, arranca as plantas do algodão, revolvendo-as para a superfície.

A utilização do arrancador de soqueiras do algodão não dispensa a utilização de implementos para trituração da parte aérea das plantas e a penetração dos seus discos é dependente das condições do solo e do ângulo de inclinação dado aos discos, em relação à vertical. Quanto mais inclinados eles estiverem, menor será sua capacidade de penetração no solo e, para solos argilosos deve-se utilizar inclinações menores que as utilizadas para solos arenosos.

Um outro implemento disponível no mercado é o "arrancador picador de soqueira do algodão" que foi, também, desenvolvido exclusivamente para este fim. Neste caso, o equipamento dispensa o uso do triturador ou roçadora, pois consegue arrancar e triturar as plantas de algodão em uma única operação. A potência utilizada pelas partes móveis da máquina é proveniente da TDP do trator, por meio de eixo cardã e requer aproximadamente 40 CV de potência para cada fileira.

A máquina dispõe de discos de corte de palhada e hastes sulcadoras para cortar o sistema radicular das plantas. Após o arranquio as plantas são conduzidas para um rotor horizontal, com facas na diagonal, que trituram as planta em pedaços de 38 a 42 mm. O material triturado é lançado para traz por meio da força tangencial transferida pelo rotor.

Os implementos existentes no mercado, destinados ao manejo dos restos culturais do algodão podem apresentar algumas deficiências, tais como baixa capacidade operacional, exigência alta de potência, necessidade de utilização de mais de um equipamento para efetivamente destruir as soqueiras e intensa movimentação do solo. Baseado nisso é que várias empresas e instituições de pesquisa do ramo agrícola estão investindo no desenvolvimento de protótipos destruidores de soqueira do algodão. Exemplos disso são o arrancador da Indústria de Máquinas Remagril, com o apoio da EMBRAPA-CNPA e o eliminador de soqueiras da UFMT (Universidade Federal do Mato Grosso), que estão sendo desenvolvidos com o apoio financeiro do FACUAL (Fundo de Apoio à Cultura do Algodão).

O arrancador Remagril é um equipamento constituído, basicamente, de uma enxada rotativa que atua em duas fileiras de plantas. É um equipamento montado no engate de três pontos e trabalha na superfície do solo, na fileira do algodão destruindo partes das raízes e do caule da planta.

O protótipo que está sendo desenvolvido pela UFMT é uma máquina de arrasto, com acionamento pela TDP e tem o seguinte princípio de funcionamento: uma haste escarificadora perturba o solo na região das raízes para facilitar o arranquio; dois cilindros de tração arrancam a planta que é conduzida a um picador, com auxílio de uma esteira condutora; após a trituração da planta, o picador redistribui o material picado sobre o solo por meio de um difusor.

O interesse apresentado pelo setor agrícola na solução do problema da eliminação das soqueiras do algodão é grande e acreditamos que nos próximos anos teremos várias opções de equipamentos para este fim, que possam atender plenamente as necessidades dos cotonicultores brasileiros.

Aloisio Bianchini,
DSER - Famev/UFMT

* Este artigo foi publicado na edição número 27 da revista Cultivar Máquinas, de fevereiro de 2004.
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