Encaixe da sucessão trigo e soja

A semeadura antecipada da soja, no mês de outubro ou até mesmo ainda em setembro, além de pressionar pela exclusão do cultivo dessas áreas no inverno para a produção de grãos, pode diminuir o rendimento de grãos da soja e o retorno econômico da atividade agrícola. Isso sugere oportunidades para melhorar o encaixe dos cultivos de inverno aos do verão, com potencial de aumentar a produção de alimentos.

A oferta comercial de cultivares de soja de tipo indeterminado e de ciclo precoce permitiu antecipar a semeadura dessa  cultura em várias regiões do sul do Brasil. Até meados dos anos 2000, a semeadura ocorria preferencialmente no mês de novembro em sucessão à colheita de trigo, sendo que, em anos recentes, houve a migração para outubro em várias situações. Carente de confirmação científica, esta mudança, na visão de alguns produtores rurais e técnicos, serviria para aumentar o potencial produtivo da cultura da soja pelos menores riscos de deficiência hídrica e/ou pressão de ferrugem asiática em períodos críticos da cultura, como tem sido verificado nos meses de janeiro e fevereiro.

Um complicador nesta prática de antecipar a semeadura da soja é a interferência no sistema de sucessão de culturas dentro das propriedades rurais, em diversas situações afetando negativamente ou até inviabilizando o cultivo de inverno. No sul do Brasil, o cultivo das áreas agrícolas no inverno para produzir grãos corresponde a cerca de 20% da área cultivada para grãos no verão (ver artigo “Diversificação sustentável” – Março 2016, nº 202, Revista Cultivar Grandes Culturas), apesar de área e de infraestrutura disponíveis. Se a cultura de inverno está prejudicando a principal cultura econômica, que é a soja, haveria mais um fator negativo imputado à cultura de inverno, em especial ao trigo, a principal cultura de grãos na estação fria.

Na busca por indicadores técnicos para avaliar e identificar estratégias de encaixe das culturas do trigo no inverno e da soja em sucessão, a Embrapa, em parceria com instituições de ensino e/ou pesquisa do sul do Brasil, conduziu trabalhos a campo, durante várias safras agrícolas, portanto, representando diversas condições meteorológicas, de solo, de manejo e de potencial produtivo. Com a Setrem, em Três de Maio, Rio Grande do Sul, buscou-se representar a região moderadamente quente, úmida e de baixa altitude para culturas de inverno e com considerável restrição hídrica para a soja. Na Embrapa Trigo, em Passo Fundo, Rio Grande do Sul, representou-se a região fria, úmida e de altitude média no inverno e com melhor oferta hídrica no verão em relação a região Oeste do Rio Grande do Sul. Já em parceria com a Fapa/Agrária em Guarapuava, Paraná, que conduziu ensaios representativos de região fria, úmida e de maior altitude no inverno e com disponibilidade hídrica no verão adequada para elevado rendimento de grãos. Nestes locais foram avaliados de 24 a 28 estratégias de encaixe de culturas de inverno e de verão. No inverno foram cultivados:

  • aveia preta, para antecipar a semeadura de soja em sucessão e testar o relato de técnicos e produtores de que nesta situação o rendimento de grãos da soja é maior; e
  • cevada ou cultivares de trigo com ciclos contrastantes (semeadas em diferentes épocas de acordo com o ciclo), com semeadura da soja após a colheita da cultura de inverno, combinações estas que seguem as indicações técnicas. 

Para simular a prática de produtores foram utilizadas cultivares de soja combinando tipo de crescimento determinado e indeterminado com grupos de maturidade relativa (GMR) variando de 4.9 a 6.3 (NA 4990 RG, NS 4823 RR, A 4725 RG, BMX Energia RR, BMX Ativa RR, BMX Apolo RR, TEC 5833 IPRO, FUNDACEP 62 RR, AFS 110 RR, BRS Tordilha RR, A 6411 RG, FPS Urano RR, TMG 7262 RR e NA 5909 RG). Estas cultivares de soja são oriundas de vários obtentores e representam grupos de cultivares ofertadas comercialmente. Da mesma forma, as cultivares das culturas de inverno são oriundas de distintos obtentores. Para ambas as situações (inverno e verão), as cultivares e as práticas de manejo das culturas foram definidas em conjunto com técnicos de cada região. Desta forma representam as práticas regionais vigentes.

Os resultados obtidos indicaram que o maior rendimento de grãos da soja esperado com a antecipação da semeadura não é generalizado no sul do Brasil. Pelo contrário, estaria ocorrendo somente em condições específicas onde a colheita da cultura de inverno ocorre a partir de meados de novembro e se estende até o início de dezembro, razão pela qual a soja é semeada tardiamente. Desta maneira, nas regiões Noroeste e Planalto Médio do Rio Grande do Sul observou-se redução média de 18% e 19,4% no rendimento de grãos quando a semeadura da soja foi antecipada (Figura 1). 

Figura 1 – Variação no rendimento de grãos da soja pela alteração da época de semeadura de novembro/dezembro (dependendo da região) para outubro, na média de seis ou oito cultivares de soja e safras agrícolas (em azul, Noroeste do RS safras 2013/14 e 2014/15; em vermelho, Planalto Médio do RS safras 2012/13, 2013/14 e 2014/15; e em verde, Centro-Sul do PR safras 2012/13 e 2013/14).
Figura 1 – Variação no rendimento de grãos da soja pela alteração da época de semeadura de novembro/dezembro (dependendo da região) para outubro, na média de seis ou oito cultivares de soja e safras agrícolas (em azul, Noroeste do RS safras 2013/14 e 2014/15; em vermelho, Planalto Médio do RS safras 2012/13, 2013/14 e 2014/15; e em verde, Centro-Sul do PR safras 2012/13 e 2013/14).

Por outro lado, há diferenças de rendimento de grãos entre as cultivares de soja quando semeadas na época antecipada em relação a época tradicional (Figura 2). Este comportamento diferencial de cultivares é oportunidade para produtores e técnicos escolherem aquelas mais responsivas em rendimento de grãos em cada época de semeadura. Por exemplo, no Noroeste do Rio Grande do Sul, se a decisão for adotar cultivar de tipo de crescimento determinado e antecipar a semeadura da soja e, desta forma abdicar da produção de grãos no cultivo de inverno, há risco do rendimento de grãos da soja ser 50% menor que o possível com outras cultivares disponíveis. Ainda nesta região, de modo geral, os melhores rendimentos de grãos da soja foram obtidos com cultivares de tipo indeterminado. No Planalto Médio do Rio Grande do Sul as maiores variações no rendimento de grãos de soja com a antecipação da semeadura ocorreram com cultivar de tipo determinado e ciclo intermediário, embora perdas consideráveis também tenham ocorrido com a semeadura antecipada de cultivares de tipo indeterminado e de ciclo precoce. Por outro lado, na região Centro-Sul do Paraná as cultivares de soja avaliadas apresentaram ganho de rendimento de grãos de 5% a 30% na semeadura antecipada.

Cultivares de soja com ciclos contrastantes semeadas em sucessão à aveia preta dessecada (época antecipada) ou após a colheita de trigo (semeadura em época tradicional).
Cultivares de soja com ciclos contrastantes semeadas em sucessão à aveia preta dessecada (época antecipada) ou após a colheita de trigo (semeadura em época tradicional).

Em função da soja ser a espécie mais cultivada no verão, embora geralmente em monocultura, e no inverno a área cultivada para grãos ser bastante menor, os resultados obtidos indicam claramente oportunidades para ajustar o convívio das duas culturas, trigo e soja, nas propriedades agrícolas do sul do Brasil, inclusive possibilitando aumentar a área cultivada no inverno para produzir grãos. Nas regiões onde a semeadura antecipada da soja não traz benefícios - inclusive diminui o rendimento de grãos em comparação a semeaduras de novembro, portanto, o inverso do relatado por alguns técnicos e produtores rurais -, o melhor caminho é manter a cultura de inverno para produzir grãos (ajustar a época de semeadura e a escolha de cultivares para não estender muito o ciclo) e a semeadura da soja na época tradicional, após colheita da cultura de inverno. Isso permite obter maior rendimento de grãos no verão e garantir ou aumentar a área de cultivo no inverno, melhorando a contribuição da agricultura para a produção de alimentos para humanos e animais, além de ser mais coerente agronomicamente. Já nas regiões mais altas e frias ocorre um dilema, pois antecipar a semeadura da soja aumenta seu rendimento. Entretanto, os cereais de inverno possuem elevados rendimentos de grãos, além de retorno econômico, e não podem ser desprezados naqueles sistemas de produção de grãos. Em tal situação, os elevados rendimentos de grãos obtidos nos cultivos de inverno poderiam compensar boa parte do menor rendimento de grãos da soja em sucessão. A análise de produção de grãos e também econômica, com olhar de sistema e não de cultura isolada, é fundamental para perceber esta oportunidade. Outra oportunidade para esta situação é adotar cultivares de soja com melhor desempenho nas semeaduras após a cultura de inverno, ou seja, com menor perda de potencial de rendimento de grãos quando semeada no final de novembro ou durante dezembro. 

Figura 2 - Variação no rendimento de grãos de cultivares de soja pela mudança na época de semeadura de novembro/dezembro (dependendo da região) para outubro, na média de safras agrícolas (em azul, Noroeste do RS safras 2013/14 e 2014/15; em vermelho, Planalto Médio do RS safras 2012/13, 2013/14 e 2014/15; e em verde, Centro-Sul do PR safras 2012/13 e 2013/14).
Figura 2 - Variação no rendimento de grãos de cultivares de soja pela mudança na época de semeadura de novembro/dezembro (dependendo da região) para outubro, na média de safras agrícolas (em azul, Noroeste do RS safras 2013/14 e 2014/15; em vermelho, Planalto Médio do RS safras 2012/13, 2013/14 e 2014/15; e em verde, Centro-Sul do PR safras 2012/13 e 2013/14).

Os estudos conduzidos pela Embrapa e parceiros reforçam as indicações técnicas vigentes para as culturas do trigo e da soja, bem como os conhecimentos agronômicos difundidos. Todavia, em cada região foram percebidas oportunidades de melhor encaixe de cultivares desta sucessão de culturas que é sucesso há muito tempo no sul do Brasil. A tomada de decisão pela adoção da sucessão trigo e soja tem se tornado mais específica, técnica e não generalista, como por vezes é sugerido. A interação de cultivares x épocas de semeadura, seja na sucessão das culturas ou dentro de cada cultura, influencia o crescimento e desenvolvimento das plantas e deve ser observada nas práticas de manejo que tem por objetivo potencializar o rendimento de grãos de forma sustentável. Por fim, ressalta-se que excluir o trigo do sistema de produção de grãos, no período de inverno, na expectativa de ter melhor rendimento com a cultura da soja, significa onerar a cultura da soja com todos os dispêndios de manutenção e de depreciação da estrutura presente nas propriedades (máquinas, implementos e silos, por exemplo), além de menor eficiência de uso da estrutura disponível, já que menor quantidade de grãos será produzida por unidade de área.


Mércio Luiz Strieder, João Leonardo Fernandes Pires, Embrapa Trigo; Marcos Caraffa, SETREM


Artigo publicado na edição 204 da Cultivar Grandes Culturas.

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