Erros na semeadura

O mecanismo dosador de sementes é apenas um elo na cadeia de mecanismos responsáveis por cumprir a função última de uma semeadora, que é semear com precisão. A semente dosada precisa ainda ser transportada e depositada no sulco de semeadura, que deve ter uma certa profundidade e, finalmente, coberta com solo convenientemente compactado, de forma que, em qualquer uma dessas operações, podem-se gerar erros que comprometem a precisão final da semeadora. Portanto, o bom funcionamento de uma máquina, quanto à precisão, é afetado pelos seguintes tipos de erros: erro de dosagem, erro de deposição, erro de profundidade e erro de acondicionamento. A ocorrência de qualquer um deles irá comprometer o stand de plantas e a sua distribuição longitudinal na linha de semeadura, que será irregular.

ERRO DE DOSAGEM

Esse é o tipo de erro mais evidente, de onde nasce a idéia equivocada de que o mecanismo dosador é o vilão quando a semeadora não está semeando com a precisão desejada. O erro de dosagem pode ser definido como o desvio da distância entre sementes dosadas em relação à distância teórica representada pelas células do dosador.

O mecanismo dosador é um mecanismo complexo e bastante sensível às variações dos parâmetros de projeto e condições de operação. O estudo de trabalhos científicos sobre o assunto permitiu identificar alguns fatores que claramente afetam o desempenho desses mecanismos. São eles: (a) características das sementes (tamanho, forma, rugosidade superficial); (b) relação de tamanho e forma entre as células e as sementes (para um melhor desempenho de mecanismos com disco horizontal, por exemplo, as células devem ter um diâmetro 10% superior ao das sementes); (c) velocidade do componente rotativo (no caso do disco horizontal, velocidades tangenciais das células superiores a 0,3m/s podem danificar as sementes e prejudicar o enchimento das células); (d) desgaste dos componentes mecânicos (pode alterar a densidade de semeadura, para mais ou para menos, dependendo do mecanismo); (e) regulagens (a inexistência ou a dificuldade de proceder regulagens compromete a precisão); (f) melhoradores de fluxo (a adição de pó de grafite ou talco aumenta a precisão em dosadores de dedos prensores e pneumáticos); (g) geometria do reservatório de sementes (a forma do reservatório dever ser tal que permita uma alimentação contínua do dosador); (h) conformidade de fabricação (os processos de fabricação devem garantir as dimensões de projeto); (i) desempenho de mecanismos auxiliares (o mau funcionamento de exclusores e ejetores de sementes pode gerar falhas ou dosagem de múltiplos, além de causar danos nas sementes).

Percebe-se, então, pela análise dos fatores listados, que a dosagem das sementes afeta a regularidade de distribuição longitudinal de plantas de duas formas: através de imperfeições no processo de individualização da sementes e através da danificação das sementes, tornando impossível a germinação destas, mesmo que estejam corretamente espaçadas no sulco.

ERRO DE DEPOSIÇÃO

De nada adianta o emprego de um dosador preciso se não há controle sobre o tempo de descida de cada semente e sobre o seu deslocamento no sulco. O seguinte exemplo ilustra bem o problema: considerando-se um espaçamento entre sementes de 5 cm e velocidade de semeadura de 4,8 km/h, um atraso de apenas 0,038s faz com que uma semente seja alcançada pela próxima.

O erro de deposição pode ser definido como resultante de variações na trajetória da semente, desde sua liberação do dosador até atingir o solo, causado pelo rolamento e ricocheteamento da semente no tubo condutor, assim como pelo seu rolamento após o impacto com o solo.

Os principais fatores que afetam o erro de deposição são: (a) altura do mecanismo dosador (deve ser a menor possível); (b) forma de deposição (por gravidade ou por fluxo de ar); (c) velocidade da semente (depende da velocidade do dosador, quanto maior a velocidade menor a precisão); (d) configuração do tubo condutor (diâmetro, rugosidade interna, inclinação).

ERRO DE PROFUNDIDADE

A germinação e a emergência da cultura é afetada pela profundidade de semeadura. Vê-se, portanto, que a garantia da correta profundidade de semeadura pela máquina também afeta a uniformidade de distribuição longitudinal de plantas, pois se considerando que uma semente colocada fora da profundidade recomendada (tanto acima quanto abaixo) pode não germinar ou a plântula pode não chegar à superfície, gera-se uma falha na distribuição de plantas na linha. O erro de profundidade reflete, portanto, os desvios na profundidade de abertura do sulco em relação à profundidade recomendada/regulada na semeadora.

O desempenho de uma semeadora quanto à garantia da correta profundidade de semeadura pode ser afetado pelos seguintes fatores: (a) tipo de mecanismo sulcador (o desempenho de sulcadores do tipo facão e do tipo discos variam em função da classe de solo e da umidade); (b) mecanismo limitador de profundidade (deve encontrar-se o mais próximo possível do sulcador); e (c) velocidade de deslocamento (velocidades maiores tendem a gerar sulcos mais profundos).

ERRO DE ACONDICIONAMENTO

Da mesma forma que a profundidade de semeadura, erros de acondicionamento afetam a emergência de plântulas. A quantidade de solo que recobre a semente, assim como o grau de compactação produzido nesse solo, alteram a quantidade de água e de ar disponibilizado à semente e à resistência do solo à passagem da plântula durante a emergência.

A semeadora ideal deveria compactar o solo ao nível da semente no sulco, empurrar a semente contra esse solo compactado e, somente então, cobri-las com solo suficientemente solto para evitar a formação de crostas que possam dificultar a emergência. Adicionalmente, os mecanismos devem assegurar um adequado espaçamento entre as sementes e o fertilizante.

Os principais fatores a afetar o erro de acondicionamento são: (a) tipo de mecanismo recobridor; (b) tipo de mecanismo compactador; e (c) regulagens.

A identificação das melhores configurações de mecanismos recobridores e compactadores depende das condições de operação (tipo de semeadura, tipo de solo, umidade, cultura, quantidade de palha). Dessa forma o agricultor deve ficar alerta para quais mecanismos adaptam-se melhor ao seu processo de semeadura.

Pelo que foi exposto, pode-se concluir que a precisão de semeadura depende da semeadora como um todo, incluindo-se todos os mecanismos citados e não apenas um ou outro, como é o caso do mecanismo dosador. Espera-se que com a melhor compreensão do problema da precisão das semeadoras, torne-se mais fácil a tarefa de vários profissionais ao longo do ciclo de vida dessa máquina, desde projetistas e extensionistas até o usuário final, que além de poder otimizar o seu funcionamento, poderá ser mais bem orientado quanto à aquisição de semeadoras de precisão que melhor atendam aos quesitos tratados nesse texto.

Ângelo Vieira dos Reis
UFPel

* Este artigo foi publicado na edição número 02 da revista Cultivar Máquinas, de março/abril de 2001. ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura