Especifidades de cultivares de cenoura

Até meados dos anos de 1980 as cultivares de cenoura disponíveis no mercado brasileiro eram de origem europeia ou americana e só se prestavam para o cultivo de inverno, visto que no verão ocorriam altas incidências de doenças foliares. Essa sazonalidade no cultivo da cultura fazia com que o preço oscilasse muito no decorrer do ano. A principal doença foliar que inviabilizava seu cultivo no verão era a queima-das-folhas. Essa enfermidade é um complexo envolvendo dois fungos (Alternaria dauci e Cercospora corotae) e uma bactéria (Xanthomonas hortorum pv. carotae) que podem estar juntas ou isoladas em uma mesma planta, folha ou lesão.

O centro de origem da cenoura bem como as regiões onde ela foi cultivada durante milênios possuem condições climáticas diferentes da maior parte do território brasileiro, principalmente nos meses mais quentes do ano. Tanto que a cenoura só podia ser cultivada no período de inverno nas regiões Sudeste e Sul do Brasil. Desse modo, no final da década de 70 foi criado o Programa de Melhoramento Genético de Cenoura da Embrapa Hortaliças, com o objetivo de desenvolver cultivares adaptas ao cultivo nos meses mais quentes do ano em todas as regiões brasileiras.  Germoplasmas de cenoura de populações locais da região do Rio Grande (RS) foram coletados e passaram por vários ciclos de seleção em Brasília, Distrito Federal, na busca por selecionar plantas mais resistentes à queima-das-folhas e com padrão de raízes semelhante ao das cultivares do grupo Nantes, que apresentam raízes cilíndricas, lisas e coloração alaranjada intensa. O resultado desse esforço foi o lançamento da cultivar de cenoura Brasília, em 1981, considerado até então um dos resultados de maior impacto dentro da pesquisa agropecuária brasileira. O sucesso desta cultivar foi tão grande que atualmente “Brasília” se refere ao grupo de cultivares adaptadas ao cultivo de verão. Além disso, o lançamento dessa cultivar permitiu explorar novas fronteiras agrícolas, como as regiões de São Gotardo, em Minas Gerais, e Irecê, na Bahia.

Após o lançamento da cultivar Brasília o Programa de Melhoramento Genético continuou os trabalhos para aprimorar as qualidades da cultivar Brasília. O resultado deste aprimoramento foi o lançamento da cultivar BRS Alvorada em 2000. Essa cultivar, além de maior uniformização das raízes em relação à coloração e ao tamanho, possui aproximadamente 35% mais carotenoides, que são os precursores de vitamina A. Em 2009 a Embrapa Hortaliças lançou a cultivar BRS Planalto, que além da qualidade de raízes conta com alta produtividade, alta resistência à queima-das-folhas e tolerância aos nematoides-das-galhas.

Atualmente os polos de produção de cenoura estão localizados em regiões geográficas longínquas. Essa distância faz com que cultivares apresentem comportamento distinto dependendo de onde estão sendo cultivadas, o que é conhecido pelos melhoristas como interação genótipos x ambientes (GxE). Por exemplo, Irecê na Bahia localiza-se numa região do semiárido brasileiro e possui clima, solo, entre outros atributos, diferentes da região de Marilândia do Sul, no Paraná. Essa distinção entre ambientes cria uma dificuldade para os programas de melhoramento, pois, na maioria das vezes, um genótipo com alto potencial em determinada região não apresenta a mesma performance em outra. Deste modo, o melhorista define uma nova cultivar com base no comportamento médio do genótipo nos locais em que foi avaliado.

A Embrapa Hortaliças é a única instituição pública brasileira que desenvolve cultivares de cenoura adaptadas às condições de verão no Brasil. Atualmente as pesquisas estão voltadas para o desenvolvimento de cultivares de polinização livre e híbridos que possam ser cultivados nas condições de verão nas principais regiões produtoras de cenoura no Brasil.

Da formação da população base até o lançamento de uma nova cultivar de cenoura de verão muitas etapas precisam ser realizadas. A primeira consiste no cruzamento entre dois genótipos promissores, a fim de gerar uma população com suficiente variabilidade genética para que possam ser feitos sucessivos ciclos seletivos para os caracteres de interesse. Nas condições do Distrito Federal é possível fazer um ciclo seletivo por ano. Tudo tem início em novembro de cada ano, quando as populações são semeadas no campo para a seleção das melhores raízes. Durante esta etapa o ataque de patógenos ou insetos ocorre de forma natural, e nenhum controle químico é realizado.

Antes da colheita, aos 90 dias após a semeadura, são selecionadas as plantas que apresentam comportamento superior à cultivar BRS Planalto em relação à severidade da queima-das-folhas, florescimento prematuro, acamamento e valor agronômico. Aos 100 dias após a semeadura é realizada a colheita, ocasião em que as raízes com melhor padrão comercial são selecionadas. Nessa etapa são avaliados comprimento, diâmetro, ausência de pigmentação na parte superior da raiz (ombro verde ou roxo), lisura, formato da raiz, ausência de ataque de pragas e doenças e aspecto geral. Em seguida, as raízes selecionadas são vernalizadas (quebra de dormência) para que possam florescer e produzir sementes no período do inverno. Esse processo é realizado em câmaras frias em temperaturas entre 4ºC e 6oC por um período aproximado de 40 dias. Após esse processo as raízes são retiradas das câmaras frias e cortadas em bisel no terço inferior, a fim de eliminar raízes com defeitos internos como coração cotonoso ou desuniformidade de coloração. Em seguida, as raízes cortadas são transplantadas para o campo onde as de mesma procedência são colocadas em um mesmo telado para que o cruzamento ocorra entre indivíduos selecionados de uma mesma população. Durante o período de florescimento, a recombinação entre essas plantas selecionadas é realizada por moscas domésticas. No final do ciclo, sementes das plantas selecionadas são colhidas individualmente e semeadas novamente no próximo mês de novembro, fechando, assim, um ciclo de seleção, que é denominado de seleção recorrente por ser um processo cíclico.

O melhoramento de uma população pode levar até dezenas de ciclos seletivos. Quando o melhorista verifica que determinada população é promissora, esta precisa passar pelo processo chamado validação. Nessa etapa, a população é avaliada em diferentes regiões por vários anos (mínimo de três) comparativamente a cultivares comerciais tradicionais. Os locais comumente utilizados pela Embrapa Hortaliças para validação das populações de cenoura são Brasília, no Distrito Federal, Irecê, na Bahia, São Gotardo, em Minas Gerais, e Canoinhas, em Santa Catarina.

Essa avaliação é necessária porque cada região tem suas particularidades e afetam o desenvolvimento da cultura. Irecê, na Bahia, por exemplo, situa-se numa região semiárida, com solo alcalino e baixo uso de tecnologias. Por outro lado, São Gotardo, em Minas Gerais, está situada em região de cerrado, com altitude elevada, com noites frias nos meses de outubro a dezembro e uso intensificado de tecnologias. Já a região de Marilândia, no Paraná, possui solos ácidos e muito pesados, o que dificulta o alongamento das raízes.  Com todas essas adversidades uma nova população só é lançada como cultivar se apresentar desempenho superior às testemunhas comerciais com base na média de todas as regiões onde esta foi validada.

Em Brasília, no Distrito Federal, além da validação de novas populações no sistema convencional, as populações são validadas para o sistema orgânico. Esta avaliação possibilita a recomendação de cultivares mais adaptadas ao sistema orgânico, em que o uso de insumos e defensivos é restrito.

O período mínimo de avaliação das populações é de três anos. Assim, a população mais estável nesse período em todos os locais avaliados é caracterizada e registrada no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), para então ser lançada como nova cultivar e indicada ao plantio nas principais regiões produtoras de cenoura no Brasil.

Diferentemente das grandes culturas, onde as pré-cultivares são avaliadas em dezenas de locais respeitando o zoneamento agrícola, as pré-cultivares de cenoura são avaliadas somente nas principais áreas de produção. Isso se deve à evolução dos programas de melhoramento genético da cenoura em relação às grandes culturas e ao menor número de fatores limitantes em que a cultura é exposta. Por exemplo, falta de água não é fator limitante para a cenoura, pois nas regiões onde ela é cultivada existe regularidade na distribuição de chuvas ou o produtor dispõe de sistema de irrigação.

Entretanto, nos últimos dez anos têm ocorrido grandes mudanças nos programas de melhoramento de cenoura, como a substituição de cultivares de polinização livre por cultivares híbridas. Embora os híbridos sejam de custo mais elevado, apresentam alta produtividade conferida pela alta uniformidade dos materiais. Esse fato, associado à melhoria dos tratos culturais, duplicou a produtividade da cenoura em regiões de alta tecnologia, como São Gotardo, Minas Gerais. Nestas regiões, algumas lavouras ainda são plantadas com cultivares de polinização livre, devido à falta de sementes híbridas disponíveis no mercado.

Futuramente a influência que cada ambiente exerce no desempenho de determinado genótipo será capitalizada em seu favor, ou seja, as futuras cultivares se beneficiarão dos atributos do ambiente onde serão cultivadas. Desta forma, a tendência será o desenvolvimento de cultivares específicas para cada região produtora.

Com base na demanda de cultivares híbridas pelo mercado de sementes, a Embrapa Hortaliças tem desenvolvido trabalhos de incorporação de macho-esterilidade e extração de linhagens para produção de futuros híbridos de verão. Esses híbridos manterão o foco do que foi realizado com as cultivares de polinização livres já lançadas, como resistência ao pendoamento precoce, queima-das-folhas, nematoides-das-galhas e qualidade de raiz. O programa também visará a incorporação de aspectos como precocidade, uniformidade e produtividade dos materiais.


Box – A cenoura

A cultura da cenoura ocupa lugar de destaque dentro do agronegócio de hortaliças no Brasil. Atualmente está entre as cinco mais importantes e cultivadas no país. Ocupa aproximadamente 25 mil hectares, com produção estimada em mais de 750 mil toneladas. As principais regiões produtoras de cenoura no Brasil são São Gotardo, Minas Gerais; Marilândia do Sul, no Paraná, e Irecê, na Bahia.

O centro de origem da cenoura cultivada (Daucus carota L.) situa-se nas regiões onde hoje estão localizados Afeganistão e Turquistão. Esses países possuem clima árido a semiárido com verões quentes e invernos frios. A partir dessa região essa espécie começou a ser cultivada no século X na Ásia menor. Em seguida foi introduzida na Europa no século XI e na China no século XIII. Por volta do século XVII no norte da Europa apareceram as cenouras de cor alaranjada, e já havia muitas variedades locais com boa qualidade de raiz. No Brasil a cenoura foi introduzida junto com outras “plantas de hortas” pelos portugueses no século VII no Rio Grande do Sul, onde essas introduções se adaptaram ao clima e formaram populações locais com grande variabilidade genética.


 Clique aqui para ler o artigo na edição 78 da Cultivar Hortaliças e Frutas.

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Agnaldo Donizete Ferreira de Carvalho; Ricardo Borges Pereira; Giovani Olegário da Silva; Jadir Borges Pereira; Jairo Vidal Vieira

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