Estratégias de manejo integrado da mancha branca em milho

Foto: Luciano Viana Cota

A mancha branca é uma das mais importantes limitadoras da cultura do milho e, juntamente com outros entraves, responsável por impedir que a produtividade deste cereal não alcance índices melhores de produtividade no Brasil. Para enfrentar esta doença é preciso estratégias integradas, como buscar cultivares resistentes e escolher a melhor época de plantio, além é claro de monitorá-la e entender seu comportamento. O uso de fungicidas deve levar em consideração aspectos como custo/benefício econômico e oferta de equipamentos para a aplicação.

Dentre os cereais mais cultivados no mundo, o milho (Zea mays L.) destaca-se por apresentar importante papel na alimentação humana e animal, e também pelo seu grande valor agronômico, tanto em área plantada quanto em volume de produção e produtividade. Mesmo com altos níveis de produção, o Brasil ainda detém os menores índices de produtividade entre os principais países produtores. São vários os fatores que levam a esse cenário, porém existem alguns de maior importância. É o caso de doenças como a  Mancha Branca, uma das mais importantes em milho.

A Mancha Branca do Milho apresenta ampla distribuição geográfica, estendendo-se por toda a América do Sul e Central, Ásia e África. No Brasil, há relatos dessa doença desde 1977. Considerada endêmica no país, sua incidência e severidade tem aumentado significativamente desde os anos 1990, podendo ser encontrada atualmente em praticamente todas as regiões onde o milho é cultivado. Folhas com 10% a 20% de severidade apresentam redução na taxa fotossintética líquida de 40%, em cultivares suscetíveis, podendo reduzir a produção de grãos em cerca de 60%.

Inicialmente, no Brasil, a Macha Branca do Milho foi descrita como Mancha Foliar de Phaeosphaeria, causada pelo fungo Phaeosphaeria maydis. No decorrer dos estudos sobre a etiologia da Macha Branca do Milho, dificuldades foram encontradas na reprodução dos sintomas causados por Phaeosphaeria maydis, bem como de outros fungos obtidos das lesões. Em 2001, alguns autores relataram o envolvimento da bactéria Pantoae ananatis na etiologia da Mancha Branca do Milho. Testes de patogenicidade e re-isolamento do patógeno a partir de lesões produzidas por inoculações artificiais em casa de vegetação confirmaram o envolvimento da bactéria com a fase inicial da doença, que é caracterizada por lesões do tipo anasarca (Figura 2). Atualmente são vários os relatos de P. ananatis como agente etiológico da Mancha Branca do Milho, assim se estabelecendo como o verdadeiro agente etiológico desta doença.

Os sintomas da Mancha Branca do Milho causados pela bactéria P. ananatis caracterizam-se inicialmente pelo aparecimento de lesões circulares, aquosas e verde-claras (anasarcas) (Figura 2). Posteriormente passam a necróticas, de cor palha, circulares a elípticas, com diâmetro que varia de 0,3cm a 1,0cm (Figura 2). Geralmente são encontradas dispersas no limbo foliar, mas começam na ponta da folha progredindo para a base, podendo coalescer (Figura 3). Em geral, os sintomas aparecem inicialmente nas folhas inferiores, avançam rapidamente para as superiores, sendo mais severos após o pendoamento (Figura 4). Sob condições de ataque severo, os sintomas da doença podem ser observados também na palha da espiga. Normalmente, sintomas da doença não são encontrados em plântulas de milho em condições de campo. Sob condições favoráveis, a Mancha Branca pode causar seca prematura das folhas e redução no ciclo da planta, no tamanho e peso dos grãos (Figura 5).  As lesões variam em tamanho, de acordo com o nível de resistência do material.

As condições favoráveis para o desenvolvimento da doença incluem umidade relativa acima de 60% e temperaturas noturnas em torno de 14ºC. Por isso, tem sido observada ocorrendo em alta severidade em plantios tardios de milho, em algumas regiões, realizados a partir de novembro que, em geral, permitem que a cultura se desenvolva sob altas precipitações pluviométricas, propiciando as condições adequadas para o desenvolvimento da doença. A uniformidade de precipitação é o fator preponderante no desenvolvimento da doença. Plantas infectadas precocemente podem ter sua produtividade reduzida se a umidade relativa for elevada, preferencialmente com água livre na superfície da folha e temperaturas moderadas. Estas condições climáticas são comumente encontradas em regiões acima de 600m de altitude.

A principal medida recomendada para o manejo da Mancha Branca é o uso de cultivares resistentes. Outra medida importante para o manejo da doença é a escolha do momento de plantio. Deve-se optar por épocas de semeadura cujas condições climáticas que favoreçam a doença não coincidam com a fase de florescimento da cultura. Nas regiões Centro Oeste e Sudeste, os plantios tardios realizados a partir segunda quinzena de novembro até o final de dezembro favorecem a ocorrência da doença em elevadas severidades. O controle químico também é uma medida viável em algumas situações. Entretanto, alguns fatores devem ser observados para que a relação custo/benefício seja positiva, de modo que o benefício do controle da doença com o uso de fungicidas supere o custo da sua utilização. Dentre esses fatores, o conhecimento do nível de resistência dos cultivares plantados, as condições de clima durante o período do ciclo da cultura, o sistema de produção (plantio direto, rotação de culturas, etc.) e a oferta de equipamentos para pulverização, estão entre os mais importantes. O uso de fungicidas é recomendado e os maiores retornos econômicos são alcançados nas situações de elevada severidade de doenças, que são resultantes da combinação de todos, ou alguns, dos seguintes fatores: uso de genótipos suscetíveis, condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento da doença, plantio direto sem rotação de culturas e plantio continuado de milho na área. No processo de tomada de decisão sobre a necessidade de aplicação de fungicidas o primeiro fator a ser observado é o nível de resistência do cultivar. De modo geral, não se recomenda a aplicação de fungicidas para cultivares resistentes.

Para a tomada de decisão é fundamental a realização do monitoramento da lavoura na fase de pré-pendoamento, antes da aplicação do fungicida. Considerando que as folhas acima da espiga contribuem, em média, com mais de 90% da produção das plantas de milho, e que a doença, na sua maioria, aparece inicialmente nas folhas baixeiras e progride em direção às folhas superiores, a folha abaixo à folha da espiga representa uma boa referência para a realização de inspeções de campo. A presença de sintomas de doenças nessa folha, em cultivares suscetíveis, associadas a condições climáticas favoráveis ao desenvolvimento da doença representam indicação da necessidade de se intervir com a aplicação de fungicidas. Condições de ambiente caracterizadas por temperaturas elevadas e baixa umidade relativa do ar desfavorecem a maioria das doenças que atacam a cultura do milho. No entanto, temperaturas moderadas e ambientes úmidos (elevada umidade relativa do ar, chuvas freqüentes, irrigação e orvalho) favorecem essas enfermidades. Por outro lado, é necessário considerar, também, o momento do aparecimento das doenças na lavoura. A mancha branca pode começar ainda na fase vegetativa da cultura e, em situação de uso de cultivares suscetíveis e de predominância de condições climáticas favoráveis, o controle químico deve ser considerado de modo a evitar que elevados níveis de doenças alcancem as folhas acima da espiga na fase de florescimento da cultura. Fica, portanto, evidente, que a época ideal para a realização das aplicações de fungicidas na cultura do milho depende de um monitoramento da lavoura cujo começo ocorra ainda na fase vegetativa da cultura. Nesse caso todos os aspectos já mencionados devem ser considerados para a tomada de decisão.

A oferta de equipamentos para pulverização é outro fator que influencia a eficiência do manejo da doença na cultura do milho através de fungicidas. De modo geral, os equipamentos utilizados são os pulverizadores de arrasto, principalmente em pequenas propriedades, e autopropelidos e aeronaves em grandes propriedades. No caso dos pulverizadores de arrasto, as aplicações podem ser realizadas em plantas com até 100cm de altura, aproximadamente, ou seja, por volta do estágio de 8 a 9 folhas definitivas (V8 a V9). Nesse caso, deve-se dar preferência para o plantio de cultivares que apresentem bom nível de resistência à mancha branca, pois, em situações de condições favoráveis ao desenvolvimento da doença e uso de cultivares suscetíveis, a aplicação de fungicidas muito cedo (V8 a V9) provavelmente será insuficiente para o controle adequado da doença, com conseqüentes perdas na produtividade. Os equipamentos autopropelidos, cuja altura de eixo é de, aproximadamente, 120cm, permitem a realização de aplicações em fases mais avançadas do ciclo (V10 a VT), quando comparado aos pulverizadores de arrasto. As pulverizações realizadas com aviões, embora com custo mais elevado, não apresentam as limitações mencionadas anteriormente, e os resultados de trabalhos de pesquisa tem mostrado que a eficiência dessa modalidade de aplicação é equivalente a aquela observada nos pulverizadores terrestres.

Foto: Fabricio  Eustaquio Lanza
Foto: Fabricio Eustaquio Lanza
Foto: Luciano Viana Cota
Foto: Luciano Viana Cota
Foto: Luciano Viana Cota
Foto: Luciano Viana Cota
Foto: Rodrigo Veras da Costa
Foto: Rodrigo Veras da Costa


Luciano Viana Cota, Dagma Dionísia da Silva, Rodrigo Veras da Costa, Embrapa Milho e Sorgo; Fabricio Eustaquio Lanza, CNPq; Frederick Mendes Aguiar, Embrapa


Artigo publicado na edição 201 da Cultivar Grandes Culturas.

ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura