Estratégias para minimizar perdas pós-colheita

Aproximadamente 25% de tudo que é produzido na lavoura não é aproveitado pelos consumidores, pois se perde ao longo da cadeia produtiva.

Cerca de uma em cada quatro calorias deixa de ser consumida pelos humanos em função de perdas que ocorrem ao longo dos estágios da cadeia produtiva de diversos tipos de alimentos. Segundo dados da FAO (2013), cerca de 24% das perdas ocorrem na produção, 24% no manuseio e armazenamento, 4% no processamento e embalagem, 12% na comercialização e distribuição e 35% no consumo.

Durante a produção ou colheita, as perdas podem ser decorrentes, por exemplo, de quedas de grãos no campo em função dos equipamentos utilizados ou descarte de hortifrútis devido à qualidade fora dos padrões. Durante o manuseio e armazenamento, perdas ocorrem devido à presença de pestes, fungos e doenças. Durante o processamento e embalagem, frutas impróprias e peixes estragados são descartados. Alimentos processados também podem apresentar perdas em função de ineficiências no processo industrial. Durante a distribuição e comercialização, prazos de validade vencidos ou baixa qualidade do produto podem implicar perdas. Finalmente, durante o consumo, o desperdício acaba gerando outras perdas de alimentos.

As perdas de alimentos podem ser qualitativas ou quantitativas. Perdas quantitativas estão relacionadas a perdas em termos físicos, passíveis de avaliação e mensuração, como redução no peso e no volume. Já as perdas qualitativas estão relacionadas ao valor nutricional e requerem formas diferentes de avaliação. Independentemente do tipo de perda, tem-se uma menor disponibilidade de alimento para a população, tornando-se necessário produzir mais para compensar tais perdas.

Neste sentido, a redução das perdas torna-se uma estratégia “ganha-ganha”, pois, além de aumentar a disponibilidade de alimento, reduz a pressão sobre o ambiente, especialmente sobre os ecossistemas, o clima e a água.

Este texto apresenta estratégias para minimizar perdas na pós-colheita, a partir da experiência observada num estudo realizado em 2014 com o objetivo de caracterizar e mensurar as perdas existentes ao longo da cadeia logística do trigo. O Rio Grande do Sul, estado brasileiro responsável por cerca de 50% da produção nacional de trigo, foi escolhido para a realização do estudo.

Ficou claro que as perdas existentes, somadas ao longo da cadeia logística do trigo, atingem proporções relevantes. Para atingir os objetivos do estudo, inicialmente foi feita uma caracterização das relações entre os agentes envolvidos na cadeia logística do trigo, de modo a identificar os elos nos quais as perdas são mais evidentes. Além do levantamento bibliográfico, nesta etapa também foram realizadas entrevistas com diversos agentes da cadeia, tais como moinhos, empresas transportadoras, caminhoneiros, cooperativas, terminais portuários e produtores rurais.

Como resultado principal, estima-se que são perdidos cerca de 6% ainda dentro da porteira, durante o processo de colheita do trigo. A regulação do maquinário, a velocidade da colhedora e a heterogeneidade natural do ambiente (solo e clima, por exemplo) são alguns dos entraves operacionais que contribuem para que uma quantia relevante da produção seja perdida já nessa etapa inicial da cadeia do trigo.

Na sequência, as perdas nas cooperativas chegam a 5% do volume, em geral, pelo fato de os armazéns não estarem em condições adequadas para o armazenamento da produção recebida. Estruturas antigas, e muitas vezes destinadas ao armazenamento de outros produtos, são comuns em algumas localidades, contribuindo para um maior nível de perda do produto, em quantidade e em qualidade.

O transporte do trigo em grão entre os agentes ao longo da cadeia também apresenta perdas. Por volta de 0,5% do volume carregado em um veículo nas fazendas e destinado para as cooperativas é perdido no trajeto. Nessa movimentação do trigo entre produtores e cooperativas, observa-se a utilização de veículos antigos, com avarias nas carrocerias (geralmente estes veículos são de propriedade dos próprios produtores). Somado a isso, o carregamento dos veículos ultrapassa os limites máximos permitidos pela legislação, já que as distâncias médias envolvidas nesta movimentação são curtas (por volta de 15km). Com os caminhões completamente cheios, a queda de grãos nas estradas é potencializada.

No tocante às condições das rodovias, é comum, nestes trechos, o transporte em estradas sem asfalto. Trepidações nos veículos contribuem para o aumento das perdas do produto carregado nas carrocerias dos caminhões, e a situação é ainda mais crítica em períodos mais chuvosos.

Assim, caso as distâncias rodoviárias envolvidas fossem maiores, mantidas as condições atuais de estradas, veículos e forma de carregamento, o índice de perda nessa etapa logística seria mais representativo.

Perdas também são observadas no transporte de trigo entre as cooperativas e os moinhos. Nessa transação, o transporte também é realizado com utilização exclusiva do modal rodoviário. Diferente da movimentação citada anteriormente, nesta ocorre a pesagem do produto no caminhão, tanto no local de origem quanto no de destino. Isto permite que os agentes tenham um controle maior da quantidade de trigo perdida nas estradas. Em tal trajeto, a tolerância de perda dada aos transportadores pelos moinhos (responsáveis pela contratação do transporte) é de 0,2% do volume carregado no caminhão. Se a quantidade perdida no transporte for superior a esse percentual, a diferença é cobrada do transportador. Na prática, essa tolerância é extrapolada em algumas rotas, e a perda média nesse elo da cadeia de suprimento é de 0,3% do volume carregado, a depender, entre outros fatores, da distância percorrida.

Da saída da fazenda até a chegada nos moinhos, o índice de perdas na cadeia do trigo gira em torno de 11,8%. Considerando que os moinhos do Rio Grande do Sul processaram 1,68 milhão de toneladas de trigo em 2013 (Abitrigo), essas perdas representam cerca de 200 mil toneladas anuais. Isto significa que se perde um volume suficiente para alimentar quase três mil pessoas, considerado o consumo médio mundial de trigo de 67,5kg por pessoa por ano (FAO, 2011), e que cerca de 6.700 carretas não chegam ao destino final. A essa conta ainda precisam ser somadas, por exemplo, as perdas existentes nas etapas de transbordo de carga no processo de importação do trigo, e nas etapas posteriores ao processamento do trigo pelos moinhos.

É importante salientar também que ao longo de toda a cadeia, as perdas não são vistas como um problema a ser resolvido. Consideradas como naturais no processo de compra, venda e movimentação do produto, são poucos os agentes do mercado que estão preocupados com a redução dos níveis de perdas. Isso ocorre porque os números, quando conhecidos, são vistos de forma isolada, e não integrados tal como numa cadeia de suprimentos. Este posicionamento dos agentes em relação ao tratamento das perdas também é visto em outras cadeias agroindustriais no país.

Quando convertidas em unidades monetárias, essas perdas não são desprezíveis, e evidenciam a necessidade da constante busca por alternativas que as minimizem em cada etapa da cadeia logística. Além disso, ao reduzir as perdas, também se aumenta a disponibilidade de alimento, contribuindo para o aumento da segurança alimentar e para a redução dos níveis de pobreza rural local; e reduz-se a pressão sobre o ambiente.

Estratégias sugeridas para minimizar perdas pós-colheita

Entre as possíveis estratégias existentes para a redução dos níveis de perdas em pós-colheita, existem aquelas que podem ser adotadas pelos agentes envolvidos na cadeia de suprimentos e outras que dependem de uma intervenção mais direta do governo. A seguir, são apresentadas e discutidas algumas das medidas principais levantadas no estudo.

Gestão das perdas e metas de redução

Mensurações periódicas das perdas são o primeiro passo na busca pela minimização das mesmas. O estudo mostra que grande parte dos agentes atuantes nesta cadeia agroindustrial (assim como em outras), não investe em contabilização, acompanhamento e gestão das perdas. A partir de um sistema de gestão, mesmo que simples, é possível estabelecer baselines, identificar etapas mais críticas e definir metas de redução de perdas ao longo da cadeia de suprimento.

Investimento em infraestrutura de armazenagem

A falta de infraestrutura adequada de armazenagem é a principal fonte de perdas, principalmente em países em desenvolvimento. Tecnologias que permitam o armazenamento em condições herméticas, protegem o grão de umidade e pestes. Além de evitar perdas, o armazenamento permite que o produtor espere o momento mais atrativo no mercado para vender o grão, gerando, assim uma receita mais elevada.

Atenção aos níveis de serviço de transporte

A qualidade do serviço de transporte, seja através do tipo de veículo utilizado, seja através das características de carregamento (tal como respeito aos limites dos veículos), pode trazer contribuições interessantes para redução das perdas. A receita advinda com tal redução pode mais do que compensar um frete mais elevado em função do nível de serviço diferenciado, no caso de transporte contratado. Por outro lado, no caso de frota própria, pode auxiliar na aquisição de veículos mais novos e mais econômicos.

Investimento em infraestrutura de transporte

Uma infraestrutura de transporte mais adequada pode contribuir muito para a redução dos níveis de perdas. Rodovias em boas condições convergem para a redução das quantias de produtos que são perdidas nas estradas. Além disso, modais alternativos de transporte, quando viáveis, podem apresentar índices menores de perdas.

As perdas entre os processos na lavoura até a chegada nas cooperativas ou unidades beneficiadoras podem chegar a 11% do produto colhido.
As perdas entre os processos na lavoura até a chegada nas cooperativas ou unidades beneficiadoras podem chegar a 11% do produto colhido.
As perdas entre os processos na lavoura até a chegada nas cooperativas ou unidades beneficiadoras podem chegar a 11% do produto colhido.
As perdas entre os processos na lavoura até a chegada nas cooperativas ou unidades beneficiadoras podem chegar a 11% do produto colhido.


Fernando Vinícius da Rocha, Daniela Bacchi Bartholomeu, Thiago Guilherme Péra, Elaine Yasutake Paturca, Felipe Grimaldi Avileis, Marina Bozzo Elias, José Vicente Caixeta Filho, Esalq


Artigo publicado na edição 151 da Cultivar Máquinas. 

 

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