Feijão para durar

O feijão possui uma importância notável no Brasil, devido ao seu alto valor nutritivo e por fazer parte, junto ao arroz, da dieta diária da maioria da população. O Brasil, maior produtor de feijão do mundo, devido ao seu consumo per capita muito alto, consome todo o feijão aqui produzido. Apesar da importância do feijão para o país, não se conseguiu estabelecer um estoque regulador de preços eficiente, pois o feijão é um produto bastante perecível e sujeito a grandes perdas em períodos relativamente curtos de conservação, no sistema tradicional de armazenamento em sacas ou silos.

No armazenamento de feijão deve-se levar em conta que as células do grão ou da semente continuam vivas, mesmo após o período de colheita. Portanto, estas continuam desempenhando suas funções vitais normais, realizando seus processos metabólicos. Dentre os problemas que podem surgir durante o armazenamento, pode-se citar a rachadura da casca (tegumento), ocasionada por uma baixa umidade do ambiente; a ocorrência de pragas e fungos, que contaminam o feijão, tornando-o impróprio para o consumo humano; o aumento no tempo de cozimento, devido a um excessivo endurecimento do grão; a diminuição da germinação; o escurecimento da casca, que altera a cor característica, principalmente das cultivares mais claras e a perda de peso.

No Brasil, a forma mais usada no armazenamento de grãos e sementes é através do abaixamento de sua umidade. Porém, esse procedimento não consegue, isoladamente, manter a qualidade satisfatória durante longos períodos de conservação. A utilização de técnicas, como a refrigeração, a atmosfera modificada ou a controlada, aliadas à baixa umidade do grão, podem diminuir muito mais as perdas ocorridas durante o armazenamento.

O armazenamento refrigerado é um eficiente método de conservação, todavia, essa técnica torna-se bastante onerosa, principalmente nas regiões tropicais do país e, também, nas estações quentes das regiões sub-tropicais.

A atmosfera modificada (AM) e a atmosfera controlada (AC), também chamada de atmosfera inerte, técnicas já utilizadas em países como Austrália e Israel, baseiam-se no princípio da redução da concentração de O2 e no aumento da concentração de CO2, o que provoca uma redução nos processos metabólicos e na respiração dos grãos armazenados. Na atmosfera controlada, a redução do O2 é feita através da “varredura” desse gás pela injeção de nitrogênio no ambiente. Na atmosfera modificada, as concentrações de oxigênio vão sendo reduzidas pela própria respiração do grão. Tanto para a AC, quanto para a AM, é importante que haja uma vedação quase hermética do ambiente, para que a eficiência dessas técnicas seja alcançada, pois a entrada excessiva de O2 pela parede dos silos ou armazéns mantém a concentração desse gás muito alta.

Para estudar a eficácia do emprego de AC no armazenamento de feijões, foram realizados dois trabalhos no Núcleo de Pesquisa em Pós-colheita da Universidade Federal de Santa Maria. No primeiro trabalho, verificou-se que o uso de AC com fluxo contínuo de nitrogênio e armazenamento em baixo oxigênio (sem fluxo de N2) manteve a qualidade do feijão do grupo carioca ‘FT Bonito’ por um período de 14 meses (Veja foto). Resultados semelhantes foram obtidos com armazenamento refrigerado a 0°C, porém, por um custo mais elevado. Já no segundo trabalho, foram avaliados feijões do grupo carioca, cultivares Pérola e Carioca e também a linhagem M91-012, que permaneceram armazenados por 19 meses. Após esse período, verificou-se que a cor clara da casca foi mantida, o potencial de germinação permaneceu alto e o tempo de cozimento manteve-se baixo (Veja Tabela). Além disso, o armazenamento em AC com fluxo contínuo de N2 possibilitou um controle total de insetos. Esse procedimento pode ser utilizado tanto para o armazenamento de grãos quanto para o de sementes, até mesmo, para períodos superiores a 2 anos.

Para consolidar-se o uso do armazenamento em AC e AM, de maneira satisfatória, em silos ou armazéns já construídos, há necessidade de vedação das paredes e piso destes. A utilização do fluxo contínuo de N2 auxilia na eliminação e manutenção de uma baixa concentração de O2 dentro do ambiente de armazenamento, pois todo o sistema vai estar sob uma pressão superior a da atmosfera externa, impedindo a entrada de O2. O nitrogênio necessário pode ser gerado no local a partir do ar atmosférico com um gerador que usa o princípio PSA (“Pressure Swing Adsorption”), já fabricado no Brasil.

Outra alternativa pode ser o uso de silos plásticos móveis, já utilizados em outros países. Estes podem ser utilizados em grandes ou pequenas propriedades. O Núcleo de Pesquisa em Pós-colheita da UFSM está se empenhando para viabilizar o uso comercial do armazenamento em AC e AM, procurando parcerias com fabricantes de silos e armazéns.

Auri Brackmann e Daniel Alexandre Neuwald,
UFSM

* Este artigo foi publicado na edição número 39 da revista Cultivar Grandes culturas, de maio de 2002.

* Confira este artigo, com fotos e tabelas, em formato PDF. Basta clicar no link abaixo:

/arquivos/gc39_paradurar.pdf ver mais artigos
CADASTRO DE NEWS
  • Receba por e-mail as últimas notícias sobre agricultura