Ferrugem asiática: Quanto enferrujou

Com as lavouras de soja em fase final de colheita da safra 2017/18, estimativas divulgadas em meados do mês de abril mostram que a produção brasileira de soja deverá totalizar 114,962 milhões de toneladas, com aumento de 0,8% sobre a safra da temporada anterior e produtividade média de 3.276 kg/ha (Conab, 2018). A boa produtividade reflete as condições de clima que, de forma geral, favoreceram a cultura e desenha uma nova “supersafra” de soja no Brasil, com estados como Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins, Maranhão, Piauí, Bahia, Minas Gerais e São Paulo, registrando recordes de produtividade. Nesse contexto, a ocorrência da ferrugem-asiática, causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi, continua tendo um papel relevante, pois o seu controle reflete no custo de produção das lavouras e na obtenção de boas produtividades.

O controle da ferrugem-asiática é feito por meio da adoção de diversas práticas de manejo, mas o patossistema que envolve a doença tem se mostrado dinâmico, com alteração a cada safra, trazendo a necessidade de constante aperfeiçoamento dessas práticas à medida que novos conhecimentos são adquiridos.
O vazio sanitário mantém-se como uma medida importante e, embora com frequência sejam debatidos assuntos como duração, datas de vigência e eficiência da medida, o consenso geral é de que deve ser mantido nos estados onde já existe e adotado onde ainda não existe. Com isso, o estado do Rio Grande do Sul, como o último grande produtor sem vazio sanitário, está discutindo a criação da medida. Por sua vez, os estados de Santa Catarina, em 2017, e do Piauí, em 2018, estabeleceram vazio sanitário e a Bahia aumentou seu período de 60 para 99 dias (Figura 1).
Outra medida legislativa que vem sendo adotada mais recentemente é a calendarização do período de semeadura da soja. Essa medida tem como objetivo restringir semeaduras muito tardias, que costumam demandar maior quantidade de aplicações com fungicidas, em razão da ocorrência precoce da ferrugem-asiática, consequentemente, podendo agravar o problema de resistência do fungo aos fungicidas. Até o momento, sete estados adotaram o calendário para limitar o período de semeadura da soja e, em alguns, o limite para colheita (Figura 2). Mesmo assim, casos de semeaduras tardias, infringindo as normativas estaduais, foram verificados.
A semeadura da soja no início da época recomendada é de extrema importância porque permite o “escape” em relação ao período de ocorrência mais severa da ferrugem-asiática. Nesta safra não foi diferente, pois apesar do atraso das chuvas em algumas regiões, a maioria das lavouras foi semeada cedo e, quando a doença ocorreu, as lavouras já estavam na fase de enchimento de grãos (R5) ou mais adiantadas, em 86% das ocorrências registradas no site do Consórcio Antiferrugem (Figura 3). Isso resultou em bom controle da doença com fungicidas e possibilitou que grande parte das lavouras não tivesse perda de produtividade causada pela doença.
O controle químico continua sendo a principal ferramenta para combater a ferrugem-asiática, e a resistência do fungo aos fungicidas permanece como a maior preocupação em relação a esse método de controle. A ocorrência da resistência é fato consumado, mas a complexidade de sua distribuição e de sua frequência parece ter aumentado nas duas últimas safras. O uso de diversos grupos químicos e programas mais elaborados de manejo, além da alta variabilidade natural do fungo, parecem estar contribuindo para situações variadas de maior ou menor eficiência dos fungicidas utilizados.
A oferta de cultivares com gene(s) de resistência foi um avanço, embora ainda em número reduzido de materiais no mercado. Embora não eliminem a necessidade de uso de fungicidas, a doença evolui mais lentamente nessas cultivares, o que pode dar maior segurança aos produtores, por exemplo, em uma situação em que a condição climática não permita a aplicação de fungicida no momento correto. É importante ressaltar que o uso contínuo de uma mesma cultivar pode resultar em perda de efetividade do gene de resistência que a cultivar possui, por isso deve-se rotacionar cultivares com diferentes genes de resistência. 
A seguir é apresentado um resumo de como foi o andamento da safra 2017/18 de soja nos principais estados produtores do Brasil, com foco na ocorrência da ferrugem-asiática. As informações foram obtidas do Consórcio Antiferrugem, do Rally da Safra 2018, da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), de agências estaduais ligadas a agricultura e de comunicações recebidas de técnicos e agricultores ligados a cadeia de produção da soja.

Raio-x da safra

Região Nordeste (Bahia, Maranhão e Piauí)

Nessa região, de forma geral, choveu de maneira regular durante a safra, proporcionando bom desenvolvimento das plantas. Continue lendo...


Rafael M. Soares

 Cláudia V. Godoy

 Claudine D. S. Seixas

 Maurício C. Meyer

Embrapa Soja


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