Força e saúde

O tratamento de sementes de arroz com inseticidas químicos, visando o controle de pragas iniciais da cultura, principalmente pragas de solo, foi bastante praticado no passado, tanto no Brasil como em outros países, envolvendo basicamente produtos à base de Aldrin. O método foi abandonado devido à resistência dos insetos ao inseticida e a problemas de contaminação ambiental. Com o advento de inseticidas modernos, pesquisas sobre o tratamento de sementes foram retomadas visando, principalmente, o controle do gorgulho-aquático (Oryzophagus oryzae) que é a praga-chave da cultura do arroz irrigado no Rio Grande do Sul.

O método de tratar as sementes de arroz visando prevenção ao ataque de O. oryzae apresenta como vantagem a possibilidade de redução da densidade de semeadura, com reflexos significativos quanto à diminuição de custos e aumento na produção de grãos. Por mais reduzida que seja a densidade de semeadura, dentro de patamares tecnicamente estabelecidos, o método garante a obtenção e a manutenção de uma adequada população inicial de plantas que é um dos fatores de garantia de melhor performance da cultura do arroz irrigado. Tal garantia decorre do fato do tratamento de sementes exercer relativo efeito sobre outras pragas que danificam sementes, raízes e plantas novas de arroz, na fase crítica de estabelecimento da cultura, entre a emergência das plantas e a irrigação por inundação, destacando-se o pulgão-da-raiz (Rhopalosiphum rufiabdominalis), a pulga-do-arroz (Chaetocnema sp.), o cascudo-preto (Euetheola humilis) e a lagarta-da-folha (Spodoptera frugiperda).

Maior produção

Exemplo de resultado de pesquisa, realizada em lavoura comercial de arroz, mostra que a estratégia do tratamento de sementes, dentro de uma mesma densidade de semeadura, controla quase que totalmente a população larval do gorgulho-aquático (bicheira-da-raiz) e aumenta a produção de grãos cerca de 13%. Em adição, a redução da densidade de semeadura, da ordem 50 kg/ha, associada ao tratamento de sementes, aumenta o patamar de produção de grãos. O uso de 125 kg/ha de sementes tratadas resulta em maior produção de grãos que 175 Kg/ha de sementes não-tratadas. As maiores diferenças em produção de grãos, entre áreas cultivadas com e sem sementes tratadas, tendem a ocorrer quando são usadas menores densidades de semeadura.

O tratamento de sementes é reconhecido como o método de controle químico que menos quantidade de inseticidas incorpora ao ambiente, comparativamente a outros métodos de aplicação. As plantas de arroz em lavouras implantadas com menor densidade de sementes tratadas, tendem a tornarem-se mais vigorosas. Com sistema radicular fortalecido, adquirem maior capacidade de perfilhamento e são menos suscetíveis ao acamamento. O uso de menor densidade de semeadura, ao condicionar a desuniformidade no perfilhamento das plantas de arroz, também pode minimizar os problemas decorrentes de baixas temperaturas na fase reprodutiva da cultura. Os colmos menos desenvolvidos, na época de ocorrência do frio, tem maior chance de escape, emitindo panículas com espiguetas normais.

Pouca informação

A maior barreira ao uso de sementes tratadas com inseticidas na lavoura de arroz irrigado, no Rio Grande do Sul, é o baixo índice de informação dos orizicultores a respeito do método acoplado a receios de intoxicação durante o processo de tratamento e semeadura. Nesse contexto, resultados de pesquisa indicam que as sementes podem ser tratadas e ensacadas até 90 dias antes da semeadura, sem que ocorra qualquer perda de poder germinativo e vigor, portanto, eliminando um dos principais fatores de rejeição ao método, por parte de orizicultores e operadores do maquinário de semeadura.

Os inseticidas registrados no Ministério da Agricultura e do Abastecimento, recomendados para tratamento de sementes de arroz, visando o controle do gorgulho-aquático, constam na publicação Arroz irrigado: recomendações técnicas da pesquisa para o Sul do Brasil, editada conjuntamente em 1999 pela Embrapa Clima Temperado, Irga e Epagri. Apesar dos inseticidas estarem registrados para uso na cultura do arroz irrigado, ainda persiste a necessidade de avaliar o seu comportamento ambiental, aferindo efeitos sobre componentes da fauna e microrganismos do solo, do referido agroecossistema.

José F. da Silva Martins
Embrapa Clima Temperado

* Este artigo foi publicado na edição número 19 da revista Cultivar Grandes Culturas, de agosto de 2000. ver mais artigos
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